Referendo na Islândia é “má notícia”, mas não uma derrota grave para a UE, diz Paulo Sande

Referendo na Islândia é “má notícia”, mas não uma derrota grave para a UE, diz Paulo Sande

  • 30/08/2026 17:05
  • Redação

“De facto, isto no fundo tratava-se de retomar as negociações, negociações essas que se tinham iniciado em 2010”, explica.

Para Paulo Almeida Sande, a importância da Islândia ultrapassa a dimensão económica, devido à sua localização estratégica.

“Seria importante para a União Europeia que este processo pudesse ser retomado”, afirma, destacando que a Islândia é uma referência nas questões geopolíticas relacionadas com o Ártico, uma região que considera “muito importante”.

A entrada da Islândia no bloco permitiria, segundo o especialista, acrescentar “valor e até poder estratégico à União”.

Apesar da importância estratégica da adesão, Paulo Almeida Sande considera que o resultado do referendo tem explicações relacionadas com a própria realidade económica e social islandesa.

“A Islândia já há muito tempo que é cética em relação a este processo”, afirma, lembrando que existem políticos islandeses que se manifestam há vários anos contra a adesão.

Um dos principais fatores estará relacionado com o peso das pescas na economia islandesa.

“A natureza da economia da Islândia assenta, enfim, talvez o seu mais importante pilar são as pescas”, explica.

O especialista admite ainda que o resultado poderá ter refletido uma divisão geográfica entre as grandes cidades e as zonas rurais e piscatórias, onde a oposição à adesão tende a ser maior.

Apesar do resultado, Paulo Almeida Sande lembra que a Islândia já mantém uma relação muito próxima com a União Europeia.

“A Islândia no fundo já participa do mercado interno através do Espaço Económico Europeu e, portanto, já está praticamente integrada, faz parte também de Schengen”, salienta.

Por isso, considera que existe sobretudo “uma dimensão política” na questão da adesão.

Questionado sobre a possibilidade de os Estados Unidos aproveitarem politicamente o resultado do referendo, o especialista admite que isso poderá acontecer.

“Sim, talvez”, responde Paulo Almeida Sande, embora tenha considerado difícil antecipar a forma como a administração de Donald Trump poderá reagir, tendo em conta aquilo que descreve como uma política externa “conturbada”.

O especialista considera provável que Washington utilize o resultado para fazer afirmações que “de alguma forma depreciem a União Europeia ao seu poder, à sua capacidade”.

A questão assume particular importância devido à crescente disputa geopolítica em torno do Ártico e às declarações de Donald Trump sobre a Gronelândia.

Paulo Almeida Sande recorda que a Islândia não dispõe de exército e mantém relações de segurança e cooperação importantes com os seus parceiros europeus, pelo que a eventual aproximação à UE poderia também ser encarada como uma forma de reforçar a sua posição estratégica.

“Era uma forma de consolidar essa relação e dar mais peso à sua presença naquela região”, explica.

Com a vitória do “não”, não deverão existir novos movimentos sobre a adesão até 2028. Paulo Almeida Sande admite, contudo, que o Governo islandês poderá, entretanto, decidir encerrar formalmente o processo de adesão iniciado há vários anos.

“Vamos ver também o que vai acontecer, que é a hipótese do Governo da Islândia, que é uma coligação de três partidos, vir a suscitar o abandono das negociações”, afirma.

Apesar do revés islandês, o especialista lembra que há outros dez países em diferentes fases do processo de adesão à União Europeia, alguns já próximos da fase final, como é o caso do Montenegro.

Nesse contexto, considera que o resultado do referendo islandês não deverá ser interpretado como uma ameaça séria ao projeto europeu.

  • Fonte: Rádio Renascença
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