Como é que as alterações climáticas contribuíram para as cheias no Nepal?
- 31/08/2026 06:18
- Redação
Jonathan Bamber, professor de Glaciologia na Universidade de Bristol, fala sobre os riscos associados ao facto de os glaciares estarem a derreter mais rapidamente do que nunca.
A região mais vasta dos Himalaias, conhecida como High Mountains Asia (HMA), ou Alta Montanha da Ásia, é frequentemente conhecida como o "terceiro polo do planeta", já que concentra mais gelo glaciar do que qualquer outra região do mundo, com exceção para as zonas polares. Muitos destes glaciares situam-se ao longo da fronteira norte entre o Nepal e a China, formando um arco este-oeste nos Himalaias. O Tibete é uma região autónoma da China.
Oito dos 14 picos com mais de 8.000 metros de altitude situam-se no Nepal. A metade norte do país é extremamente montanhosa e íngreme, o que a torna particularmente suscetível a deslizamentos de terras, derrocadas e perigos relacionados com os glaciares, como as cheias provocadas pelo rompimento de lagos glaciares e o colapso de paredes de gelo.
Quando os glaciares avançam sobre encostas rochosas muito inclinadas, o gelo fragmenta-se em formações chamadas "seracs": grandes blocos ou paredes de gelo inerentemente instáveis, que se desprendem periodicamente.
Num mundo em aquecimento, não deverá ser surpreendente que o gelo esteja a derreter mais rapidamente. Desde o início da Revolução Industrial, habitualmente situado em 1850, a temperatura média do planeta aumentou 1,4 ºC.
No entanto, este valor representa uma média global e existem grandes diferenças entre regiões. O Ártico aqueceu mais do dobro desse valor e a região dos Himalaias também registou um aumento de temperatura superior à média mundial. O ritmo de aquecimento acelerou significativamente ao longo das últimas quatro décadas. Como consequência, os glaciares de todo o mundo têm estado a derreter mais depressa.
A avaliação mais abrangente sobre o degelo dos glaciares — conhecida como balanço de massa glaciar — combina observações por satélite com dados recolhidos no terreno para reconstruir as taxas de degelo entre 1976 e 2024. Os investigadores concluíram que, em todas as regiões, exceto na Islândia, a taxa de perda de gelo na década mais recente é superior à média de longo prazo.
Na região da Alta Montanha da Ásia, o aumento é de cerca de 25%. Nos Alpes europeus, é superior ao dobro.
Quando os glaciares derretem, a principal consequência é a libertação de água do degelo, que, sazonalmente, alimenta cursos de água mais pequenos e, posteriormente, sistemas fluviais maiores.
No entanto, os glaciares assentam sobre "permafrost", ou seja, solo que permanece permanentemente congelado até determinada profundidade. À medida que este solo aquece e descongela, as rochas, o gelo e a lama tornam-se instáveis, provocando derrocadas e desestabilizando massas de gelo em terrenos inclinados.
No caso do desastre na fronteira entre o Nepal e o Tibete, imagine-se o colapso de um bloco de gelo com cerca de 600 metros de largura e aproximadamente 50 metros de espessura. Isso representa cerca de meio milhão de toneladas de gelo a cair sobre o vale.
Os colapsos destes grandes blocos de gelo são mais frequentes durante períodos mais quentes, quando o degelo à superfície enfraquece o gelo. É por isso que os alpinistas tentam atravessar barreiras de "seracs" durante a noite ou de madrugada, antes de o sol aquecer o gelo.
Outra consequência do degelo dos glaciares é a formação de lagos represados por gelo ou por moreias — os detritos deixados pelo recuo e degelo dos glaciares — junto à sua frente. Estes lagos podem provocar cheias súbitas quando a barreira que os contém cede. Muitos trilhos no Nepal e na Índia têm sinais de aviso para este risco.
O aumento do degelo dos glaciares é apenas uma das muitas consequências de vivermos num mundo em aquecimento. Os incêndios florestais sem precedentes em Espanha e França, as ondas de calor que atingem a Europa e as secas cada vez mais intensas e frequentes são todos consequências de um sistema climático em desequilíbrio.
O Reino Unido declarou uma emergência climática em 2019, tal como a União Europeia e vários outros Estados.
Foram feitos progressos na redução da dependência de combustíveis fósseis intensivos em carbono, mas as emissões continuam a aumentar. Uma das definições de emergência é uma ameaça existencial que exige uma ação imediata. Ainda não foi feito o suficiente para enfrentar este problema, apesar das palavras encorajadoras de muitos governos e Estados.
Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para enfrentar a crise climática. O que falta é vontade política e visão. Se estas não surgirem, o degelo dos glaciares será apenas uma das manifestações desta crise climática provocada pelo ser humano — e as consequências serão devastadoras.
[Artigo do The Conversation pelo professor de Glaciologia na Universidade de Bristol, Jonathan Bamber]