Há oito queixas por dia de agressões de filhos contra os pais

Há oito queixas por dia de agressões de filhos contra os pais

  • 01/09/2026 01:00
  • Redação

Ainda assim, segundo o agregado dos números, entre 2025 e 2024, houve uma redução de 6% nesta tipologia de crime. Em termos absolutos, passou-se de um total de 2.802 casos para 2.639 (uma média de sete queixas por dia no ano passado).

Já o comissário Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Oficiais da PSP (SNOP), acredita que estes casos sejam apenas a ponta de um iceberg muito maior. “Talvez não haja mais situações referenciadas, até mais do que entre mulher e marido, porque os pais têm naturalmente uma proteção natural que cessa apenas com a sua morte para com os filhos”, afirma.

Em muitas ocasiões, garante, há situações de violência que “já existem há muito tempo” e que só quando atingem um limite insuportável é que são dadas a conhecer.

“Acontece muito os pais virem pedir para libertarem os filhos, muito ligado a este instinto de proteção natural, independentemente do mal que o filho ou o filha lhe possam ter feito”, reflete.

Mauro Paulino concorda. “Sabemos, sobretudo também em contexto de violência familiar, que muitas vezes as vítimas têm medo, têm vergonha e não querem, de alguma forma, expor os filhos com medo das consequências que isso pode ter”, anui.

“É de admitir que o fenómeno seja muito mais expressivo do que estes números que conhecemos e que já são preocupantes”, acrescenta.

As mulheres na faixa etária entre os 41 e os 74 anos são o grupo mais atingido por este tipo de violência, também segundo a GNR. Esta assimetria entre homens e mulheres como vítimas, não surpreende Bruno Soares, que o justifica com o desequilíbrio físico que faz das mães e madrastas “elementos mais fracos”.

O psicólogo forense sublinha que “tanto mães como pais podem ser alvos de violência”, mas uma explicação possível para o facto de as mães surgirem aqui com maior prevalência “tem passado pelo facto de, muitas vezes, serem quem está mais presente na gestão quotidiana das regras, dos limites, e por isso mais expostas a estes conflitos”.

O comissário Bruno Pereira enfatiza que, habitualmente, neste tipo de violência “os pais já são mais velhos, já têm efetivamente limitações até do ponto de vista de capacidade de resposta em termos de defesa do próprio”.

A isso, Bruno Pereira diz somar-se o facto de muitos destes jovens ficarem cada vez mais tempo em casa dos pais sem conseguirem ter uma autonomia financeira.

“Normalmente, [os casos de violência] estão associados a contextos de precariedade e desequilíbrio emocional, psicológico”, soma Bruno Pereira.

E depois densifica aquilo que estes casos, frequentemente comportam. “Normalmente estão associados a contextos de adição, seja álcool, seja jogo, seja drogas, normalmente estamos a falar de filhos que estão em situações de desemprego e, portanto, estão altamente dependentes dos pais. A forma como eles respondem e reagem é a de criar uma pressão muito grande junto dos pais ou no limite agredirem-nos”.

Mauro Paulino pensa que seria “enriquecedor para a compreensão do fenómeno” olharmos para fatores familiares e para outras manifestações de violência na própria família, como “a baixa coesão familiar ou a comunicação problemática”, que não tem de ser unicamente entre pais e filhos, mas pode ser já “consequência da dinâmica do casal, que depois se pode refletir em práticas parentais e, por isso, normalmente não encontramos uma só causa”. "Há vários fatores de risco, que se vão acumulando e potenciando cenários de maior intensidade”, afiança Mauro Paulino.

Em relação à origem socioeconómica dos filhos agressores, o psicólogo defende que o fenómeno “é transversal”. Diz que até podemos encarar a questão socioeconómica como um fator de risco, “mas a sua capacidade explicativa, por si só, é insuficiente”.

“Ou seja, nós vemos famílias bastante abastadas com dinâmicas de controlo, de poder, por parte dos adolescentes, e por parte dos filhos, por vezes também já adultos. E, às vezes, aquilo que acontece é a família começar a estruturar-se em função do medo e da reação do adolescente”, descreve.

Isto porque, independentemente de ser uma família rica ou pobre, “o adolescente ameaça, intimida, agride como forma de conseguir ou dinheiro, ou liberdade, ou acesso ao telemóvel, ou a mais tempo de utilização de computador ou de jogos”.

O suspeito do crime já foi detido pela Polícia Judiciária (PJ). Trata-se do enteado, de 21 anos, que terá cometido o assassinato para se defender, e à sua mãe, de alegadas agressões da vítima.

Bruno Pereira diz que em casos como este ou como no de Algés – em que o filho matou a mãe – “estamos a falar de quadros em que os filhos assistem, por exemplo, a episódios constantes de violência.” “Por exemplo, do pai com a mãe, ou do padrasto com a mãe. Ou dos pais com a irmã, por exemplo”, aponta.

“E quer queiramos, quer não, isto vai germinando um sentimento de revolta”, descreve.

“Eu recordo vários episódios de filhos que reagem ou em legítima defesa, ou já fora da legítima defesa, ou com excesso de legítima defesa e vêm a agredir”, acrescenta.

Questionado sobre se um caso hipermediatizado como o de Algés pode levar a que outros jovens em situações idênticas procurem ações similares, Mauro Paulino diz que é difícil de responder à pergunta.

“Sabemos que a possibilidade mimetizar um fenómeno por haver exposição ao mesmo é uma realidade, conhecemos isso já dos estudos relacionados com o suicídio, por exemplo. Contudo, também sabemos que quando existem divulgação de informação, isso pode ser potenciador de procura de ajuda por parte das pessoas que estão envolvidas”, explica.

E densifica a diferença, afirmando que em casos em que o desespero está mais instalado, “pode recorrer a um comportamento de maior gravidade como uma chamada de atenção para terminar tudo aquilo que estava a ser causador de maior sofrimento e de sofrimento prolongado.”

Por isso, defende que, quando se expõem estes casos, devem ser também dadas alternativas para quem se encontra a viver este tipo de sofrimento.

Estas respostas, segundo Mauro Paulino, podem ter uma componente psicoeducativa, ou seja, “precisamos de respostas de prevenção da violência, de controlo das emoções e de controlo das reações emocionais em contexto educativo. As escolas podem ter oportunidades importantes com mais psicólogos nas escolas para trabalhar a violência juvenil, o bullying, o cyberbullying e evitar este contágio da violência”.

Um outro vetor importante da intervenção, “seria a saúde mental com maior acesso e facilidade para a comunidade em geral e, portanto, aqui falamos para pais, para filhos que estão envolvidos nestas dinâmicas familiares”.

Por fim, o psicólogo forense Mauro Paulino argumenta que deveria haver uma maior capacitação dos profissionais, com maior articulação por parte dos serviços em matéria de infância e juventude, desde as CPCJ, às Forças de Segurança, aos Tribunais de Família e Menores, “para que as respostas sejam mais consistentes e garantam uma efetiva proteção dos jovens”.

  • Fonte: Rádio Renascença
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