Eleições no leste da Alemanha: a AfD e o "Apocalipse"
- 01/09/2026 09:00
- Redação
À primeira vista, pode parecer uma visão do Apocalipse: comboios parados por causa de avarias, uma rede ferroviária envelhecida e a precisar de ser consertada com urgência, estradas debilitadas, pontes em risco de colapso — uma delas ruiu parcialmente em Dresden, em 2024.
Este ano, após um verão infernal na Alemanha, o rio Reno, uma das vias fluviais mais importantes da Europa, atingiu mínimos históricos, de tal forma que ficaram a descoberto engenhos explosivos e restos de munições da Segunda Guerra Mundial.
E uma nova guerra bate à porta. Há espionagem, ciberataques e sabotagens constantes, admite o ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt. "Somos diariamente alvo de uma guerra híbrida", disse Dobrindt ao semanário "Bild am Sonntag", no início de agosto, pouco depois de ser encontrado no aeroporto de Leipzig um drone carregado de explosivos.
É como se os cavaleiros do Apocalipse se revelassem, um por um: depois dos canhões da guerra, vieram os problemas económicos. A invasão russa da Ucrânia em larga escala fez disparar os preços da energia, o bloqueio do Estreito de Ormuz agravou ainda mais a situação. Produzir ficou mais caro, é cada vez mais difícil competir com a China. Décadas de poderio económico alemão deram lugar a anos de estagnação e recessão. O desemprego aumentou, há dezenas de milhares de empregos ameaçados em setores-chave, incluindo o automóvel; a vida está mais cara, o futuro é incerto.
Mas a AfD propõe-se a resolver grande parte desses problemas, a começar pelas eleições regionais de domingo, na Saxónia-Anhalt.
A AfD lidera as sondagens no estado do leste da Alemanha, com cerca de 40% a 43% das intenções de voto, e tenciona conquistar a maioria absoluta. A confirmar-se, seria a primeira vez que o partido assumiria as rédeas de um governo num estado federado.
O partido de extrema-direita promete reduzir a burocracia e a intervenção do Estado na economia. Quer também pôr fim às sanções contra a Rússia, que, segundo afirma, "praticamente paralisaram" o comércio bilateral. Além disso, promete incentivar a natalidade através de subsídios, reforçar a segurança interna e lançar uma "ofensiva" de deportação e "remigração" — um dos temas favoritos da AfD.
À frente da campanha está Ulrich Siegmund, um jovem de 35 anos com mais de 818 mil seguidores no TikTok. "Uli", como é conhecido pelos simpatizantes, tem-se mostrado sorridente e descontraído, enquanto critica os "partidos tradicionais" e, em particular, o atual chanceler alemão.
"Vamos fazer história aqui na Saxónia-Anhalt", garantiu Siegmund. "O povo está do lado da AfD", acrescentou.
"Eu não sou o Friedrich Merz. Quero apresentar resultados. Não quero falar, quero agir", disse Siegmund ao canal de televisão alemão Welt.
A sensação geral nesta campanha é a de que as eleições de domingo na Saxónia-Anhalt são muito mais do que um escrutínio sobre o governo estadual, formado até aqui por uma coligação de conservadores (CDU), sociais-democratas (SPD) e liberais (FDP). As eleições são vistas como um teste ao governo federal do chanceler Friedrich Merz.
Porque estão as pessoas descontentes? "Não tem a ver com erros específicos do atual governo estadual ou federal", comenta Henning Hoff. "Há vários anos que a Alemanha enfrenta uma crise económica, com crescimento praticamente nulo. Há muito tempo que as coisas não avançam. Muitos esperavam que melhorassem com Merz, mas, quando o crescimento chega, é relativamente baixo. Tudo isso contribui para uma insatisfação de fundo. O ambiente é mau. Há pouco otimismo."
A AfD aproveitou o sentimento de "apocalipse" (agudizado com campanhas de desinformação online que, segundo fontes de segurança alemãs, têm apoio russo) e ergueu a esperança como bandeira. "Tudo é possível" é a mensagem do partido, prometendo dar resposta às preocupações dos eleitores. "As pessoas estão fartas de serem tratadas com condescendência", disse o cabeça-de-lista Ulrich Siegmund.
Por mais que tentem, as restantes forças políticas não conseguem acompanhar a popularidade da AfD.
O conservador Sven Schulze, atual ministro-presidente da Saxónia-Anhalt, que se recandidata ao cargo, acusou a AfD de recorrer a chavões simplistas, sem oferecer respostas concretas aos problemas dos cidadãos. Mas a CDU de Schulze não vai além dos 23% nas intenções de voto. O SPD fica-se pelos 9% e o FDP está abaixo dos 5% necessários para entrar no Parlamento estadual, de acordo com as sondagens.
"Parece que esta é uma campanha clássica e não uma campanha em que está realmente tudo em jogo. Creio que isso tem a ver, em parte, com o facto de os outros partidos não terem conseguido encontrar uma forma de contrariar essa dominância da AfD", afirma.
Além do descontentamento em torno da imigração, o partido de extrema-direita tem sabido explorar os receios de declínio económico, acrescenta Jan Niklas Reiche.
"Na Saxónia-Anhalt, há muitas empresas, sobretudo da indústria química e do setor de componentes automóveis, que são grandes consumidoras de energia e dependem bastante da conjuntura do mercado. Por isso, estão particularmente expostas ao risco de encerramento. Já houve casos em que isso aconteceu. Isso cria um sentimento que serve de terreno fértil à AfD."
Ainda não é claro se a AfD conseguirá obter a maioria absoluta nas eleições de domingo. Tudo dependerá da distribuição de mandatos, e não só da percentagem de votos.
Os partidos mais pequenos poderão desempenhar um papel decisivo. Dependendo de quem entre no Parlamento estadual, poderá ser mais fácil ou mais difícil para a AfD chegar ao poder.
Equaciona-se a possibilidade de deputados da CDU apoiarem um governo de extrema-direita. Se isso acontecesse, desencadearia um terramoto político com ramificações para todo o país, e em particular para o chanceler Friedrich Merz. Significaria o rompimento do cordão sanitário que, até agora, tem isolado a AfD na arena política, e poderia gerar um efeito dominó. Mas, para já, isso não passa de mera equação teórica.
A eleição de domingo acontece num momento crucial para a Alemanha. A sensação de "Apocalipse" revela, em parte, uma perceção mais vasta de que são necessárias mudanças profundas no país. A grande questão é saber quem fará essas mudanças, e como serão feitas.
"A Alemanha está a começar a reconstruir-se como potência militar. É algo que custa muito dinheiro, mas não há como fugir a isso. Além disso, o modelo económico esgotou-se. Isso gera muitas preocupações, mas representa também uma enorme oportunidade. Resta saber se o país tem uma classe política capaz de encarnar essa mudança e apresentar ideias novas", afirma Henning Hoff.
"A minha preocupação é que o governo federal ainda esteja demasiado preso a uma mentalidade do passado", conclui.
As eleições de domingo na Saxónia-Anhalt deverão ser um primeiro teste ao chanceler Friedrich Merz, mas não serão certamente o último. Duas semanas depois, a 20 de setembro, os eleitores do leste da Alemanha voltam a ser chamados às urnas, em Berlim e no estado de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental.