Elevador da Glória. "Entrámos no modo salvar vidas. Depois cai-nos a ficha. O que é que aconteceu aqui?"

  • 02/09/2026 16:43
  • Redação

Eram 16h e Raquel Pinto, como é hábito, tinha entrado para cumprir mais um turno como médica na Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do Hospital de São José. Não podia supor que duas horas depois receberia uma chamada para sair imediatamente para o local do acidente, sendo parte da primeira equipa a chegar ao Elevador da Glória.

“De longe o pior. Já fui a vários acidentes, traumas, com várias vítimas. Nada com esta dimensão. A forma como o elétrico fica, quando entramos na rua não percebemos exatamente a dimensão do número de vítimas que temos. Quando nos aproximamos é que vemos. Temos algumas vítimas cá fora, em estado crítico, alguns cadáveres, e não sabemos quantas vítimas temos dentro do elétrico quando chegamos”, relata.

Ainda o distinguível carro amarelo de emergência não estava parado e já “muitas pessoas muito aflitas” chamavam por Raquel e pelo colega enfermeiro que seguia também no veículo. Pela forma como gritavam, conta que percebeu imediatamente que se tratava de um acidente com gravidade.

É com olhos visivelmente comovidos que Raquel recorda esta experiência. Com o acidente acabado de acontecer verificou quem estava vivo e quem estava morto. E estabeleceu prioridades entre as vítimas. Encaminhados os feridos para os respetivos hospitais, num ambiente “muito célere”, foi depois necessário passar as verificações dos óbitos que tinham ocorrido. Pelas 19h a ajuda estava prestada, o trabalho estava cumprido. Antes de regressar ao hospital-base de onde tinha saído, sem imaginar com o que se depararia, Raquel ainda recebeu ajuda psicológica do INEM.

“Enquanto nós estamos com uma tarefa entramos um bocadinho em modo de 'é preciso é salvar vidas, é preciso é trabalhar'. Quando as vítimas já foram todas encaminhadas para o hospital, vou usar uma expressão muito corriqueira, mas cai-nos um bocado a ficha. 'O que é que aconteceu aqui? O que é que foi isto?'”

Enquanto alguns profissionais de saúde chegavam ao local, outros iam preparando a resposta dentro de portas. Com receio de que as mãos não fossem suficientes, houve quem, não estando a trabalhar naquele momento, decidisse sair de casa e voltar ao hospital para contribuir com o possível.

“No dia do acidente não estava de serviço. Tinha estado na véspera, tinha feito 24 horas. Estava a caminho de casa a levar o jantar para a minha família – a minha filha queria um franguinho assado e era isso que eu estava a levar para casa – quando recebo uma notificação no telemóvel daquilo que tinha acontecido”, conta André Granho, médico do serviço de ortopedia que mal soube da notícia seguiu para o seu local de trabalho para prestar auxílio. Naquele momento, a equipa onde está integrado tinha quatro elementos, mas apenas um deles era especialista".

Chegaram a estar no bloco operatório quatro equipas. “Não ficaríamos descansado em casa quando podíamos estar a ajudar”, sublinha André Granho.

João Rosado, por outro lado, era naquele dia e naquela hora de setembro membro da equipa de urgência como médico interno de sexto ano. “Tinha acabado de fazer uma imobilização de uma fratura e, quando entro no gabinete, vejo o ar de preocupação da chefe da equipa e dos outros membros”. Foi o momento em que soube do sucedido. Estava a trabalhar desde as oito da manhã num turno de 24 horas. Apenas deixaria o hospital às oito da manhã do dia seguinte.

“Houve uma grande rapidez para começar a preparar as salas de emergência, em que todos os membros da urgência se mobilizaram. Da nossa parte estávamos um pouco a aguardar para ver exatamente que tipo de lesões chegariam, em que situações estavam as pessoas, e também para contactar os membros mais seniores do serviço”, lembra o agora médico especialista.

No final do dia, quando se chega a casa depois de um serviço como este, a pergunta que se coloca é: o que se sente? “Sente-se preocupação, se não nos fugiu nada”, responde sem hesitar. “A intensidade e a velocidade com que chegam doentes com lesões graves e que têm de ser observadas. Há sempre uma preocupação de ir rever os processos todos para trás, inclusive exames de imagem, histórias clínicas, para ver se nos escaparam algumas lesões que precisem de ser tratadas de maneira urgente”.

Um dos membros mais experientes da equipa, que esteve à frente deste caso nas horas decisivas que se seguiram às seis da tarde de 3 de setembro de 2025, é Jorge Penedo. Era o chefe de equipa de cirurgia quando tudo aconteceu, sendo o responsável pela coordenação das medidas médicas tomadas. “Sabíamos que tinha havido um acidente grave perto daqui. Tínhamos de estar preparados para receber o número de doentes que ainda não sabíamos quantos é que eram. Sabíamos que, à partida, os mais graves vinham para aqui e os menos graves iam ser distribuídos por outras unidades da região de Lisboa.”

O número final de doentes que ali chegariam era ainda, por esta altura, uma incógnita. Acabaram por ser nove – cinco deles em estado grave. Num espaço temporal a rondar os quinze minutos, foram tomadas decisões que acautelassem o funcionamento de todas as unidades para a melhor receção possível aos doentes. “O bloco foi avisado, o serviço de sangue foi avisado, a anestesia foi avisada, a ortopedia foi avisada.”

O médico foi o responsável por “decidir as prioridades” entre as vítimas. “É uma decisão que pesa em quem a toma”, sublinha Jorge Penedo. “Se tiver duas pernas partidas e dois braços partidos é grave, mas não é a mesma coisa que estar sem respirar”. Uma das grandes dificuldades foi também a tomada destas decisões num tão curto espaço de tempo, sem conhecimento do historial clínico dos pacientes.

“As urgências são locais de grande stress emocional, profissional. Todos os dias não temos aquela intensidade concentrada, mas vemos muita coisa que não é simpática de se ver. E o nosso papel é resolver os problemas aos doentes, tentar tratá-los o melhor possível, o mais rapidamente possível, com os recursos que temos”, assinala, fazendo um balanço positivo desta resposta hospitalar.

Médicos e enfermeiros trabalharam em conjunto para resolver da melhor forma possível o desafio com que se deparavam. Filipa Barros foi a coordenadora da equipa de enfermagem no serviço de urgência e salienta a importância de mover recursos humanos para estabelecer salas de receção de vítimas (não sabendo quantas seriam). Uma das medidas tomadas foi o cancelamento temporário do horário de visitas a doentes.

“Lembro-me que antes das vítimas começarem a chegar fui a cada área da urgência informar os colegas do que tinha acontecido, pedir-lhes para eles comerem qualquer coisa rápido, que provavelmente não iam poder jantar. E que isto ia ser um esforço para todos, mas que estávamos cá todos juntos para receber quem de nós precisasse”. Filipa Barros guarda na memória “a concentração do trabalho em equipa que verdadeiramente aconteceu”.

Tudo acalmou no hospital já depois da uma da manhã, mas não sem uma conversa de balanço. “No serviço de urgência fazemos muitas vezes aquilo que se chama o 'debriefing'. Conversámos sobre o que aconteceu. O que é que cada um sentiu naquele momento. Que aprendizagens é que detivemos dali e que aspetos é que faríamos diferentes se isto voltasse a acontecer numa situação similar. Expusemos as nossas emoções, as nossas sensações, porque isto é o nosso dia-a-dia, é trabalhar sob pressão. É trabalhar muitas vezes com situações de alta vulnerabilidade.”

Não sendo sempre possível dar respostas definitivas aos familiares que procuram informações, a enfermeira defende que quem trabalha em contextos como este, “como os serviços de urgência”, deveria ter um apoio psicológico sempre garantido. “Continuo a ser a Filipa fora da urgência, assim como todos nós continuamos a ser pessoas fora do serviço. E sentimos dor, sentimos tristeza, sentimos que às vezes podemos não estar à altura”, remata.

  • Fonte: Rádio Renascença
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