Duas "ilhas de lixo" descobertas nos Açores

Duas "ilhas de lixo" descobertas nos Açores

  • 02/09/2026 20:29
  • Redação

Milhares de pedaços de plástico, provenientes da pesca da lagosta nos Estados Unidos e no Canadá, foram detetados em duas ilhas dos Açores.

Estes resíduos. alguns com várias décadas, atravessaram o Oceano Atlântico e chegaram ao Pico e ao Faial.

A conclusão é de um estudo desenvolvido pelo OKEANOS - Instituto de Investigação em Ciências do Mar da Universidade dos Açores.

Publicamos o estudo este ano, mas vem de um trabalho que está a ser feito desde 2012, 2013, quando começámos a estudar as praias dos Açores para ver qual era a tipologia de lixo.

Tínhamos vigilantes da natureza que iam para o campo e recolhiam o lixo. E começou-se a perceber que havia estes itens que tinham alguns números e alguns códigos associados.

Começamos a tentar perceber o que significavam estes códigos e depois, em conversas com investigadores dos Estados Unidos e do Canadá, começamos a perceber que eram etiquetas que estão associadas às armadilhas da pesca do lavagante, que dão o ano de registo, o código do armador e a zona de pesca.

Depois percebemos que havia outros itens que também começámos a ver bastantes vezes, que eram também associados a esta pescaria. Começámos a recolher estes itens e pedimos também à população ajuda para recolher estes itens, que são bastante típicos e fáceis de identificar.

Começámos a montar esta rede para recolher este material e chegamos agora com mais de 1.600 itens reportados, mas temos ainda mais material para ser inventariado e que aponta para haver uma ligação direta com esta pescaria e as praias dos Açores.

Este lixo vai parar aos Açores e fica em duas ilhas. Porque é que fica aí preso?

Parte destes plásticos que ficam perdidos pelos pescadores nesta parte do Atlântico, na costa leste dos Estados Unidos e do Canadá, eventualmente com as correntes marítimas, as grandes correntes oceanográficas como a Corrente do Golfo, fazem com que tudo o que se perde nesta zona comece a divergir pelo centro do Atlântico.

Eventualmente, podem encontrar as praias dos Açores, mas também podem encontrar outras praias mais fora. Eu sei que alguns destes itens também são encontrados no continente, na costa portuguesa e devem chegar a vários sítios na Europa.

Infelizmente, como é uma pesca muito intensa, são milhares de armadilhas que são metidas todos os anos, perdem-se eventualmente quando está mau o tempo e então partem-se e depois vão na superfície e começam a flutuar no Atlântico.

Sim, pode. Nós já vimos que há muitos animais marinhos que, infelizmente, ingerem todo o tipo de plástico.

Estes itens, em si, não são tão perigosos como as redes de pesca que provocam muito emaranhamento, por exemplo, no caso das tartarugas e também cetáceos que vimos bastantes vezes. Mas também podem fragmentar-se com o tempo e vir a tornar-se microplásticos, que muito mais facilmente entram na cadeia alimentar.

Que medidas poderiam ser adotadas para tentar resolver ou pelo menos reduzir este problema?

Isto é um exemplo muito bom para tentar melhorar a nossa gestão dos resíduos e a gestão do uso de plástico no geral, porque conseguimos chegar à fonte.

A perda destas armadilhas é causada por uma fraqueza no desenho da armadilha. Portanto, basta haver algum esforço da parte da gestão destas pescarias, da legislação para tentar melhorar o tipo de material que está a ser usado e como prevenir a perda.

Tenho a certeza que eles estão a atuar para tentar encontrar formas de ter armadilhas mais sustentáveis e que não se perdem tanto no mar, portanto acho que neste caso é bastante simples de tentar encontrar uma solução.

Agora, isto não vai resolver o problema global do plástico, porque isto tem uma dimensão muito pequenina. A principal problemática do plástico nos Açores são os fragmentos pequenos de itens de todos os tipos que entram no Atlântico e foi-se degradar e virou a ser pequenos fragmentos que não sabemos realmente a origem e para isso vai ter que realmente ser mais uma gestão dos resíduos a nível municipal e que realmente a fonte principal do plástico vem das lixeiras terrestres.

  • Fonte: Rádio Renascença
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