Um ano depois de ficar viúvo, Isaque ainda luta por explicações para o Elevador da Glória. “Como é que a Câmara deixou isto chegar a este ponto?”
- 03/09/2026 02:00
- Redação
Naquele fim de tarde de 3 de setembro de 2025, Ana Paula Lopes, casada com Isaque há 22 anos e com quem tinha uma filha de 17, tinha saído do emprego, na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde tratava de processos de adoção. Como habitualmente, entrou no elevador que estava prestes a descer a Calçada da Glória, acompanhada por uma colega de trabalho.
Cerca de 50 segundos depois de iniciar a marcha, a composição embateu desgovernada numa esquina e desfez-se. Tinha-se rompido o cabo de segurança que ligava as duas composições. Ana Paula não sobreviveu. Tinha 49 anos.
Para Isaque, a perda da mulher não é um evento que aconteceu há 12 meses. Tudo o que ainda está em aberto, todas as explicações e compensações que lhe faltam, são um elástico invisível que o puxa para aquele dia e o obriga a reviver a perda constantemente.
“Estamos todos os dias a confrontar esta realidade, quando chegamos a casa e a pessoa que temos mais querida está traduzida a silêncio. A um silêncio eterno, porque nunca mais vamos ver essa pessoa, nunca mais vamos ouvi-la.”
Esta quarta-feira, foi chamado pela primeira vez para uma reunião com Carlos Moedas.
No início de junho, depois de ter recebido uma proposta de indemnização que considerou “escandalosa”, Isaque e a filha, agora com 18 anos, apresentaram uma ação no Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa a pedir 1.050.000 euros à Carris, à Fidelidade (seguradora da empresa) e à empresa Mntc – Serviços Técnicos de Engenharia, que fazia a manutenção do equipamento.
“A falta de respostas e a inércia que o processo estava a levar” motivaram este passo. A “sequência de negligências” que viu espelhada no relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) integra a argumentação do processo.
O processo está agora “em prazo para os requeridos poderem contestar”, explica o advogado Nuno Pinto Coelho Faria, que representa Isaque Adam. Sobre as negociações que foram feitas antes com a seguradora Fidelidade, não quer “entrar em pormenores”. Afirma apenas que o processo em curso “demorará o tempo que a Carris e a Fidelidade quiserem", sublinhando acreditar “que todos os envolvidos querem encontrar uma solução sem ser por aquilo que é a decisão do tribunal”.
O tempo não é o fator que mais preocupa Nuno Faria. “Isto não é um campeonato nacional para ver quem é o finalista, quem é mais rápido a fechar qualquer tipo de acordo”, afirma o advogado, que representa também Hind, uma cidadã marroquina que perdeu o marido no acidente e que ficou com sequelas físicas. “Ela foi vítima e está em convalescência e, portanto, ela própria está a fazer tratamentos, ficou bastante maltratada.”
O casal vivia há vários anos no Canadá e é a partir de lá que Hind acompanha a evolução do caso, colaborando com as autoridades judiciais quando é chamada. “Ela está constituída assistente nos autos do processo crime, e desejou fazer isso.”
Quanto à indemnização, o seu processo também ainda não está fechado com a Fidelidade, mas não avançou para tribunal. “Está a dar um bocadinho mais de espaço e margem à conversação e negociação com a companhia”, esclarece o advogado.
"A situação é diferente do Isaque, em que houve a perda da mulher e ele não esteve envolvido no acidente. Há aqui, digamos, dois andamentos diferentes. O drama é o mesmo, mas a intensidade é distinta.”
E será também distinta, seguramente, a indemnização proposta pela companhia – não só por Hinde também estar envolvida no acidente, mas pelo contexto profissional e pelas circunstâncias em que viajou para Portugal.
No caso de alguém que estava a regressar do emprego, por exemplo, é ativado também o seguro de acidentes de trabalho, que terá influência no cálculo final. Um turista poderá ter feito seguros de viagem, por exemplo. Terá também peso o valor do salário auferido por cada vítima.
Isaque Adam está, por agora, a receber uma pensão provisória. Não quer detalhar valores, mas assegura que o montante não permite fazer face às despesas do orçamento familiar, desde que ficaram sem o salário da esposa. Também ainda não recebeu o subsídio por morte. A Segurança Social informou-o que esta matéria está dependente da conclusão do processo judicial e respetiva sentença.
No global, a percepção de Isaque é que há “uma divergência” de tratamento "entre famílias estrangeiras e famílias portuguesas”, que não compreende. “Uma morte é uma morte”, sublinha.
O que tem influência no cálculo, acrescenta a companhia, são os "danos efetivamente sofridos” e as "circunstâncias concretas de cada vítima”. Fatores como “a gravidade das lesões e das sequelas, a idade, a situação profissional e os rendimentos, a perda de capacidade de trabalho ou, no caso de vítimas mortais, a situação familiar e os danos sofridos pelos respetivos familiares” podem determinar “valores diferentes entre vítimas, portuguesas ou estrangeiras”, lê-se na resposta enviada por escrito.
Mas parece haver margem para alguma subjetividade na interpretação do que é essa jurisprudência – que é também citada pelo advogado Nuno Faria para explicar o valor de cerca de um milhão de euros que pede para o seu cliente.
Afirma que a interpretação dos tribunais sobre o que diz a lei nesta matéria é “categórica na definição daquilo que é a identificação das parcelas” que permitem quantificar os montantes a receber. E lista essas componentes: “A responsabilidade civil por perda patrimonial”, a "capacidade de prover sustento para o agregado familiar em função da idade máxima da reforma”, o “sofrimento da própria vítima quando morre e quando percepciona que vai falecer – e infelizmente, de forma absolutamente avassaladora, aqui foi tenebroso o caso” –, a compensação "aos familiares pela perda do seu ente querido” e os “danos morais”.
Neste último aspecto, Nuno Faria diz esperar que “a nossa jurisprudência possa evoluir um pouco” para ter em conta o impacto da "mediatização destes eventos, que tudo amplifica”.
Ou seja, “de repente, as pessoas saberem todas pela televisão e por órgãos de comunicação social que os seus entes queridos faleceram, ver as fotografias na televisão”. Na sua visão, a jurisprudência, "a produzir-se, tem de ter em atenção estes fatores.”
Isaque é inspector da Autoridade Nacional da Aviação Civil, lida com procedimentos de segurança diariamente. O que se tem apurado sobre as causas do descarrilamento deixam-no perplexo. “Estou num meio que é extremamente regulado, porque existe envolvimento de perigo. E aqui... deixa-me um bocado à toa, quando vejo toda a leviandade com que foi tratado este assunto.”
O seu advogado coloca a questão nestes termos: "Ele teve o azar dos Távoras de lhe bater à porta tudo aquilo que ele ensina que não se faça”.
"Os fatores aqui conjugaram-se todos. Ou seja, falta de auditoria, falta de inspeções, falta de documentação, manutenção mal efetuada, como a questão do cabo que não estava certificado, agora estes novos dados dos travões que tinham sido desafinados. Eu fico incrédulo como isto pode estar a acontecer. É inconcebível para mim.”
O apuramento de responsabilidades que Isaque reclama não é apenas técnico, é político. “Como é que a Câmara deixou isto chegar a este ponto? Porque a Câmara, sim, tem responsabilidades nesta situação”, considera. "Existe um contrato de concessão entre a Câmara e a Carris, prevê auditorias, prevê averiguações, e o que é que foi feito?”
O inspetor de aviação civil enviou uma carta à Câmara a questionar se tinha sido aberto algum inquérito a este respeito. “Para surpresa nossa, foi expressamente confirmado que não foi aberto nenhum tipo de processo, indicando que está tudo a ser averiguado no âmbito do processo crime”, adianta o advogado Nuno Faria.
“O que significa, portanto, que se está a colocar tudo na mesma investigação, quando as questões até são distintas”, considera o advogado, “porque a boa execução do contrato de concessão é completamente distinta daquilo que é o apuramento de responsabilidades por factos ilícitos e criminais”. Nuno Faria sublinha que a Câmara “não é só, digamos, acionista [da Carris], é aqui também a entidade que presta este serviço”.
Um ano depois, Isaque Adam continua a viver um dia de cada vez. “O único objetivo, no fundo, é o projeto Ana, que é honrar a memória da Ana. Eu não consigo pensar para além disto.”
“É a pessoa que eu escolhi para viver a minha vida. Ao lado dela a vida toda. E, infelizmente, só pude gozar de 22 anos.”
A filha, recém-ingressada no ensino superior, “tem uma personalidade muito idêntica à da mãe”, conta. “A personalidade da mãe era a vida, era a felicidade, era a luz, era alegria.” Essas características, aliadas a uma rede “muito sólida” de amigos, “têm sido a âncora dela”.