Neves, o censurado
- 03/09/2026 14:46
- Redação
03 set, 2026 - 19:46 • Eduardo Oliveira e Silva, Luís Marinho, Luís Marques e Rui Pêgo
Luís Neves, o polícia, como ele gosta de qualificar-se, ex-xerife, agora ministro, foi à Madeira usar a celebração dos 148 anos da PSP da ilha para se justificar, pela terceira vez. Confrontar André Ventura, acusar o jornalismo de investigação de estar ao serviço de “fontes invejosas” – entenda-se elementos que ele afastou na PJ – proclamar que “ninguém o intimida, nada me vai afastar” e garantir que “podem continuar a gritar, vou continuar a governar”.
O dr. Neves estabeleceu um novo paradigma: já não é o primeiro-ministro quem decide se os ministros ficam ou saem do Governo. E responde publicamente ao chefe do maior partido da oposição. Certamente para poupar o primeiro-ministro.
Ventura foi à CNN (terça-feira, 1) informar que todo este carnaval vale uma moção de censura ao Governo. E esta quarta-feira, 2, veio confirmar que a iniciativa deu entrada na Assembleia da República. A ação parlamentar do Chega, sabe-se, não passará. Ventura também o sabe. Mas ninguém lhe tira os dividendos políticos que vai arrecadar com a iniciativa. Em declarações públicas, e na entrevista à CNN, fez insinuações graves, designadamente a de que o primeiro-ministro não demitia Luís Neves porque o ex-diretor nacional da Polícia Judiciária sabe coisas sobre o chefe do Governo. Perante a gravidade da afirmação, pelo menos até ao momento, o Ministério Público não se mexeu.
E Montenegro, pode partir para a discussão do Orçamento com o seu MAI encostado às cordas? É sabido, a discussão do Orçamento do Estado vai ser dominada pelo estudo de Jorge Bravo sobre a Segurança Social, apesar de o Governo já ter esvaziado o tema, empurrando a reforma para a próxima legislatura. Será um debate difícil para o primeiro-ministro, com o PS a puxar pelo aumento das pensões e o Chega a insistir na redução da idade da reforma. Sendo certo que parece que estamos perante uma inevitabilidade: ou as reformas encolhem ou as contribuições crescem. Ou as duas coisas. Isto, claro, para não falar do elefante na sala: o incremento dos custos com a Defesa. Dada a dificuldade da agenda em pauta, Montenegro dispensaria os embaraços produzidos por Luís Neves.
O Governo aprovou o aumento de capital da RTP em 20 milhões. De acordo com o despacho, a dotação deverá ser aplicada no desenvolvimento tecnológico. Ainda sem um documento final da IGF sobre a atribuição de subsídios aos funcionários da rádio e televisão públicas, o Parlamento já decidiu convocar para inquérito sobre o tema o atual presidente e anteriores administradores da empresa. Vamos esperar para ver o que se conclui. A IGF vai fazer auditoria semelhante à CP, à Carris, ao Metro e a outras entidades do tecido empresarial do Estado?
Em suplemento ao programa, nos Grandes Enigmas, onde está a empresa que gere o Centro Comercial da Mouraria? Onde está a administração do Metro? Quem são os responsáveis pela insanidade da espelunca que ali se instalou? A libertação pelos Tribunais de comprovados delinquentes internacionais quer dizer que o turismo criminal faz caminho em Portugal? Nos investimentos anunciados pelo ministro das Infraestruturas, não cabe um milhão para resolver os problemas graves do IC8? As vítimas dos temporais esperam; as famílias dos mortos e feridos da tragédia do elevador da Glória, desesperam. Ninguém obriga as companhias de Seguros a assumirem as suas responsabilidades?