"A psicologia já não pode ser olhada como uma profissão de luxo"

"A psicologia já não pode ser olhada como uma profissão de luxo"

  • 04/09/2026 01:30
  • Redação

Há mais portugueses a procurar apoio psicológico e menos tabus associados à saúde mental, mas o acesso a um psicólogo continua, em muitos casos, dependente da capacidade para pagar uma consulta no setor privado.

“A psicologia já não pode ser olhada como uma profissão de luxo”, afirma. Para a bastonária, os cuidados psicológicos devem ser encarados como uma resposta básica, à qual a população deve conseguir aceder tal como acontece com os restantes cuidados de saúde.

Portugal tem cerca de 28 mil psicólogos formados e inscritos na Ordem. Por isso, sustenta Sofia Ramalho, o problema “não é por falta de psicólogos”.

“Temos uma sociedade que precisa cada vez mais dos psicólogos e da psicologia”, observa. Apesar disso, continuam a existir pessoas que não conseguem chegar a estes profissionais “quando e onde precisam”, seja nos centros de saúde, nas escolas, na justiça ou nas respostas do setor social.

A profissão ganhou visibilidade, sobretudo depois da pandemia, e existe hoje “muito menos tabu” na procura de ajuda por crianças, jovens, adultos e seniores. Esse reconhecimento, porém, ainda não se traduziu, na perspetiva da bastonária, numa resposta pública suficientemente acessível.

Uma das maiores fragilidades do sistema português, considera Sofia Ramalho, é a dependência do setor privado para conseguir acompanhamento psicológico.

Quem não encontra resposta nos serviços públicos fica, muitas vezes, dependente da existência de um seguro de saúde ou da capacidade financeira para pagar integralmente uma consulta numa clínica privada.

“Precisamos de ter muito mais acesso, com muito mais equidade, para diminuir as desigualdades”, defende.

A bastonária alerta que esta diferença não afeta apenas o momento em que uma pessoa precisa de ajuda. A falta de acesso pode agravar dificuldades psicológicas, sociais e económicas e contribuir para reproduzir desigualdades ao longo das gerações.

É também por isso que a Ordem reivindica um reforço da presença dos psicólogos nos locais onde a população já se encontra: centros de saúde, escolas, instituições sociais e serviços de justiça.

Nos cuidados de saúde primários, o Ministério da Saúde assumiu o compromisso de colocar cerca de 300 psicólogos ao longo de três anos.

Depois de uma reunião recente com a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, a Ordem recebeu a indicação de que o objetivo deverá ser concretizado dentro do prazo anunciado, até ao final de 2026.

Sofia Ramalho alerta, contudo, que ainda é necessário perceber quantas destas colocações representam efetivamente um reforço e quantas servem para substituir profissionais que, entretanto, abandonaram o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Mesmo depois das 300 colocações, a bastonária estima que o SNS fique com cerca de 1.400 a 1.500 psicólogos.

A Ordem continua a apontar como referência, pelo menos, um psicólogo por cada cinco mil habitantes.

“Para isso ainda falta muito, porque começámos muito tarde nestas colocações e andamos muito lentamente”, critica Sofia Ramalho.

Se a falta de resposta à população preocupa a Ordem, as condições oferecidas aos profissionais são outra das fragilidades identificadas por Sofia Ramalho.

São psicólogos que acompanham pessoas sem-abrigo, vítimas de violência doméstica, pessoas com dependências, crianças institucionalizadas, idosos e outras populações em situação de grande vulnerabilidade.

Apesar da exigência das funções, a bastonária afirma que existem profissionais a receber pouco mais do que o salário mínimo, com remunerações na ordem dos mil euros. “É desumano”, classifica.

A instabilidade é agravada por modelos de financiamento assentes em projetos temporários. Quando termina um programa, pode desaparecer também o financiamento do posto de trabalho, mesmo quando a necessidade social que justificou a resposta permanece.

“As necessidades das pessoas são permanentes, não são de curto prazo”, sublinha.

Sofia Ramalho alerta que estas condições já estão a levar profissionais a procurar outros setores, nomeadamente empresas, onde encontram maior estabilidade e melhores remunerações. “Existe mesmo um risco real de saída deste setor.”

A bastonária aponta ainda desigualdades dentro do próprio SNS, com psicólogos a desempenharem funções semelhantes mas integrados em carreiras diferentes e, por isso, com remunerações distintas.

Há também situações, afirma, em que profissionais que trabalharam durante anos em condições precárias conseguem finalmente entrar por concurso, mas regressam ao início da carreira e podem passar a receber menos.

Para a bastonária, não é possível continuar a exigir aos psicólogos que acompanhem as populações mais vulneráveis sem lhes garantir estabilidade e condições profissionais adequadas.

“Quando dizemos que os psicólogos são muito importantes para responder à saúde mental, temos que dar condições aos psicólogos, como se dão a outros profissionais de saúde.”

Nas escolas, está em curso um processo de reforço e vinculação de psicólogos, depois de anos marcados por contratos precários.

O Governo abriu este ano 758 vagas para psicólogos, mas a Ordem considera que o sistema continua distante das necessidades existentes e do objetivo legal de um profissional por cada 500 alunos.

Sofia Ramalho estima que, mesmo depois do atual processo, o rácio continue acima dos 700 alunos por psicólogo.

“Precisamos de continuar a reforçar para atingir esse rácio e podermos efetivamente fazer aqui um bom trabalho nas escolas ao nível da prevenção e promoção”, afirma.

A bastonária descreve como um “garrote” a situação que se cria quando um psicólogo identifica uma criança ou jovem que necessita de intervenção clínica, mas não consegue encaminhá-lo porque não existe capacidade de resposta nos cuidados de saúde primários.

O mesmo pode acontecer quando estão envolvidas estruturas de proteção de crianças e jovens ou serviços da justiça.

“A resposta não pode estar centralizada num setor”, sublinha, defendendo maior articulação entre educação, saúde, justiça e restantes serviços.

A dificuldade em conseguir uma consulta de psicologia, em tempo útil, pode também influenciar o tipo de resposta procurada por quem está em sofrimento.

Sofia Ramalho considera que há situações em que o recurso à medicação acontece demasiado cedo, porque não existe acompanhamento psicológico disponível quando surgem as primeiras dificuldades.

Dá como exemplo uma jovem que entra no ensino superior, enfrenta níveis elevados de ansiedade perante os primeiros exames e procura ajuda. Se uma consulta de psicologia no serviço público só estiver disponível meses mais tarde, explica, essa pessoa pode procurar uma resposta mais imediata através de um médico.

A bastonária ressalva que o problema não está no uso de psicofármacos quando são clinicamente necessários, mas na ausência de uma alternativa psicológica atempada antes de os sintomas se agravarem.

“O recurso aos psicofármacos acontece porque as pessoas estão em situações de alto sofrimento e não conseguem lidar com essa situação. Não têm resposta”, considera.

É perante a crescente utilização de ferramentas digitais que Sofia Ramalho deixa um alerta.

A utilização de aplicações, plataformas e sistemas de conversação baseados em inteligência artificial por pessoas que procuram respostas para ansiedade, depressão, problemas relacionais ou até pensamentos suicidas constitui, na avaliação da bastonária, “um problema de saúde pública” quando estas ferramentas assumem o lugar de acompanhamento especializado.

A preocupação não está na utilização da tecnologia em si, mas na possibilidade de um sistema generalista assumir perante o utilizador um papel semelhante ao de um profissional de saúde.

Uma pessoa pode, por exemplo, descrever sintomas de tristeza e pedir a um "chatbot" que lhe diga de que perturbação sofre. O problema, explica Sofia Ramalho, é que sintomas semelhantes podem estar associados a situações muito diferentes e uma avaliação psicológica exige contexto, história pessoal e capacidade para colocar as perguntas adequadas.

“Não está do outro lado um profissional competente para poder colocar as questões certas”, alerta.

A bastonária aproxima este risco daquilo a que chama “pseudopsicologia”: respostas apresentadas como soluções para problemas de saúde mental sem garantia de sustentação científica adequada.

A posição não representa, sublinha, uma rejeição da inteligência artificial. Sofia Ramalho reconhece que a tecnologia pode trazer benefícios e defende que os próprios psicólogos aprendam a utilizar novas ferramentas.

A Ordem tem grupos de trabalho dedicados ao tema, que juntam psicólogos a especialistas de áreas como o direito e a engenharia informática, e tem defendido maior regulação e proteção dos utilizadores.

Para Sofia Ramalho, as tecnologias estão a evoluir mais rapidamente do que a capacidade de adaptação das profissões e das instituições.

“As crianças e os jovens têm sido quase sempre dos setores mais desprotegidos”, alerta Sofia Ramalho, apontando para a menor disponibilidade de algumas respostas especializadas e para as transformações associadas à adolescência e à entrada na idade adulta.

Às alterações físicas e emocionais, às decisões escolares e profissionais e à construção da autonomia junta-se hoje uma exposição intensa às redes sociais. A bastonária destaca os efeitos da comparação constante e as mudanças na forma como os jovens constroem relações de amizade, intimidade e envolvimento romântico.

“Passam muito mais tempo nas redes sociais e isto é uma alteração que tem que ser acautelada”, afirma.

Sofia Ramalho alerta também para riscos como exploração sexual, criminalidade, desinformação, radicalização ou dependência de jogos online.

Para a bastonária, a resposta não pode recair exclusivamente sobre famílias e escolas. A psicologia deve também ser chamada à definição das políticas de regulação das plataformas, incluindo na análise dos mecanismos utilizados para captar e prolongar a atenção dos adolescentes.

Para Sofia Ramalho, a resposta às dificuldades identificadas não pode começar apenas quando a doença ou o problema psicológico já estão instalados.

A prioridade deve passar, primeiro, pela promoção de competências e desenvolvimento psicológico nas escolas, comunidades e autarquias, seguindo-se a prevenção e, quando necessária, uma intervenção clínica tão precoce quanto possível.

Quanto mais tarde chega a resposta, maior é o risco de agravamento e mais exigentes serão depois os recursos necessários.

No Dia Nacional do Psicólogo, a bastonária deixa, por isso, uma mensagem especialmente dirigida aos decisores políticos.

“Não reconheçam só publicamente a importância da psicologia. Traduzam esse reconhecimento num investimento concreto nas carreiras, na estabilidade profissional e na presença efetiva dos psicólogos nos serviços onde as pessoas precisam de recorrer”, conclui.

  • Fonte: Rádio Renascença
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