Da bomba à "fogueira nos bastidores": histórias dos 50 anos da Festa do Avante!

Da bomba à "fogueira nos bastidores": histórias dos 50 anos da Festa do Avante!

  • 04/09/2026 01:15
  • Redação

A celebrar este ano meio século de vida, é insuspeito que a primeira edição da Festa do Avante! esteve quase para não acontecer. A edição de 1976 foi alvo de um ataque com uma bomba dias antes. A memória é uma das mais antigas que Madalena Santos guarda, ela que está na organização desde o primeiro dia.

Tinha, então, 15 anos e “já militava na altura na UEC, a União de Estudantes Comunistas”, que se juntou à “União dos Jovens Comunistas da Juventude Comunista, mais ligada aos trabalhadores”, para pôr de pé o evento.

A antiga FIL – Feira Industrial de Lisboa foi o cenário escolhido. Depois de “muita discussão e muitas noites sem dormir”, mas com “muita alegria”, organizaram a festa que decorreu de 24 a 16 de setembro. Mas nem tudo correu como o planeado.

“Dois dias antes, houve um boicote a um dos postos de transformação de eletricidade muito próximo da FIL e, de facto, pensámos que não iríamos conseguir fazer, mas efetivamente com muito apoio de vários setores conseguimos resolver o problema”. Mas não foi só este ataque com uma bomba que ameaçou a realização da festa.

Apesar de tudo, a primeira edição avançou e o jornal oficial do partido comunista titulou, na edição que se seguiu ao evento: “A festa que Portugal nunca tinha visto”.

No cartaz da primeira edição constavam nomes como “José Mário Branco, o Fausto, o Zeca Afonso, o Luís Cília e tantos outros”, recorda Madalena Santos, que acrescenta que na programação de então, muito ligada à música portuguesa, apresentou-se também uma nova banda.

“Eles tinham acabado de se juntar como banda. Eram os Trova-Avante, os Trovante”, conta a comunista, que explica que o “José Manuel Osório acabou por abdicar da sua hora de espetáculo para dar lugar àquele jovem grupo”

A festa foi ao longo dos anos mudando de datas. A partir de 1977 a festa passou a ter lugar no primeiro ou segundo fim-de-semana de setembro, exceto em 1980 quando foi organizada d 11 a 13 de julho e 1982, ano em que decorreu entre 2 e 4 de julho, por causa das eleições autárquicas.

O local em que decorreu foi também mudando com o tempo. Depois da primeira festa na FIL, as duas seguintes decorreram no Vale do Jamor e, em 1979, mudou-se para o Alto da Ajuda. Loures foi a última morada antes de se murarem definitivamente para a Quinta da Atalaia. Madalena Santos recorda que foi, de resto, em Loures, que o então líder comunista Álvaro Cunhal anunciou a compra do espaço no Seixal, onde a festa tem lugar até aos dias de hoje.

Na opinião de Madalena Santos, a festa “foi importante para o partido, mas sobretudo para demonstrar a Portugal saído de um período de grandíssima reclusão e censura, nos âmbitos político e cultural, que se poderia fazer uma festa com a participação de todos os comunistas e democratas”.

No ano em que celebram os 50 anos da Festa do Avante! vai ser editado um livro com fotografias que conta a história deste evento que, depois da primeira edição ser adiada, passou sempre a ter lugar no primeiro fim de semana de setembro.

Mas nem tudo virá neste livro. Há muitas histórias que ficaram nos bastidores e algumas têm mesmo um lado cómico. Madalena Santos recorda, em particular, a vinda a Portugal de um grupo de percussão africano.

“Numa das festas houve um grupo africano que, para afinar os tambores, tivemos que fazer uma mini-fogueira no espaço dos bastidores, porque aquele tipo de pele dos tambores só podia ser afinado com o calor natural, ou seja, mesmo com lume de uma fogueira.”

Mas este não foi o único caso insólito, recorda a organizadora. “No ano em que tivemos os lasers, foi necessário ir buscar aos armazéns do gelo quantidades gigantescas de gelo, porque os lasers precisavam de ser arrefecidos de uma determinada maneira e não havia outra possibilidade de os arrefecer”, recorda.

Além destes improvisos, na história dos bastidores da feira ficam também outras boas memórias, na opinião de Madalena Santos, viúva de Ruben de Carvalho, uma das figuras icónicas do PCP e também ligado desde sempre à Festa do Avante!.

A sorrir, Madalena Santos explica o trabalho comunitário que antecede a montagem da festa onde todos podem participar. “Há muitas pessoas que, pela primeira vez, tomam contacto com o trabalho manual ali na festa, sobretudo os jovens. Temos essa grande qualidade de pôr a conviver as gerações mais novas com gerações que já têm uma profissão e que sabem trabalhar e querem ensinar os outros”, explica.

É neste ambiente que, por vezes, se pregam partidas aos menos experientes, revela. “É necessário fazer um trabalho duro, desde abrir valas até relvar, por eletricidade, águas, esgotos, e, por vezes, nesse tipo de trabalhos a malta mais sénior às vezes brinca um pouco com os mais novos relativamente à sua ingenuidade. São capazes de dizer a alguns dos jovens: 'olha, vai lá ao armazém central buscar um bocadinho de eletricidade em pó, porque precisamos colocar aqui esse tipo de eletricidade, porque este pavilhão não pode levar cabos'”.

Festivais de verão há muitos, mas Madalena Santos faz questão de sublinhar que a Festa do Avante! não é um festival. “Tem cinema, teatro, artes plásticas, gastronomia, artesanato e muito mais.”

A programação prevista para este ano, de 4 a 6 de setembro, é muito abrangente e diversificada. O concerto de abertura será um dos momentos altos. “Este ano, o concerto de abertura é a Nona Sinfonia de Beethoven, interpretada pela Orquestra Sinfonieta de Lisboa e pelo Coro Sinfónico Lisboa Cantat.”, diz.

Entre os nomes anunciados estão Carolina Deslandes, Carlão, António Zambujo, The Black Mamba, Pedro Joia que convida o brasileiro Ney Matogrosso, Janita Salomé com Maria João, Tim com Mário Laginha, JP Simões que vai cantar José Mário Branco, Yuri da Cunha, Aldina Duarte e outros artistas nacionais e internacionais.

A vertente política mantém-se como uma das marcas identitárias da Festa do Avante!. O tradicional comício de encerramento no domingo continua a ser um dos momentos mobilizadores da festa.

“É o espaço em que o secretário-geral do PCP faz o balanço do ano e perspetiva as tarefas fundamentais para o ano seguinte”, explica Madalena Santos, que recorda entre os discursos mais marcantes, um de Álvaro Cunhal, durante a última edição realizada em Loures.

“Foi quando explicou que tínhamos adquirido a Atalaia e lançou a campanha de fundos para concretizar esse objetivo.”, diz.

Cinquenta anos depois da primeira edição, a Festa do Avante! continua a ser vista pelo PCP como um espaço privilegiado de contacto com os mais jovens, sobretudo para conquistar novo eleitorado, numa altura em que o PCP tem vindo a encolher a sua representação parlamentar.

Segundo a comunista, os mais novos “têm a possibilidade de ter um primeiro contacto direto e muito pessoal com as propostas do PCP e da forma de trabalhar dos comunistas.” Na sua opinião, “as pessoas verificam que há uma grande discussão, uma grande interação e respeito pelas opiniões de cada um”.

  • Fonte: Rádio Renascença
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