Quando caminhamos a ritmos diferentes

Quando caminhamos a ritmos diferentes

  • 05/09/2026 04:00
  • Redação

Ainda estávamos longe dos 5.895 metros do ponto mais alto do Kilimanjaro quando percebi que já não conseguia acompanhar o ritmo dos outros. O grupo avançou. O meu marido ficou comigo. Caminhou mais devagar, puxou por mim e ajudou-me a concentrar no passo seguinte. Um elemento da organização e os guias acompanharam-nos também.

Na montanha, ouve-se muitas vezes uma expressão suaíli: pole pole. Devagar, devagar. À medida que ganhamos altitude e o oxigénio diminui, o corpo precisa de tempo para se adaptar. Mas pole pole acabou por ganhar, para mim, outro significado.

Caminhar com alguém implica aceitar que o ritmo dessa pessoa pode deixar de ser o nosso. Pode pedir-nos que abrandemos quando conseguiríamos avançar, que fiquemos durante algum tempo, que voltemos atrás ou que reconheçamos que pessoas que começam juntas podem não chegar ao mesmo lugar.

Num dos momentos de aclimatação, uma pessoa decidiu não acompanhar o grupo. Estava cansada, ficou a dormir e chegou a pensar que não queria prosseguir a expedição. Depois de descansar, reconsiderou e quis tentar. Algumas pessoas que já tinham feito aquela subida de manhã voltaram a percorrê-la à tarde para a acompanhar. A decisão de voltar a tentar foi dela. O grupo ajudou-a a concretizá-la.

No dia seguinte, fui novamente eu a ficar para trás. O caminho até Kibo, a 4.720 metros, levou-me a um estado de exaustão que nunca tinha experimentado. Quando finalmente cheguei, percebi que a minha subida terminava ali. O ataque ao cume começava poucas horas depois, mas o meu corpo tinha sido claro.

O meu marido, que tinha abrandado enquanto eu ainda queria continuar, partiu de madrugada com os restantes em direção ao cume. Ficar comigo quando eu precisava de apoio e continuar quando decidi parar foram, naquele contexto, duas formas de estar ao meu lado.

Ouvi aquela frase com uma alegria difícil de explicar. Os nossos caminhos tinham-se separado, mas continuavam ligados. A chegada dele não diminuía o lugar onde eu tinha parado. E o meu limite não retirava nada à conquista dele.

Houve ainda uma forma de cuidado menos visível, mas constante: a da organização e da equipa da montanha.

Enquanto nós contávamos passos e tentávamos respirar, havia quem coordenasse a logística, verificasse o equipamento, preparasse as refeições, transportasse tudo aquilo de que precisávamos e acompanhasse quem começava a ficar para trás. Havia quem observasse o nosso estado, gerisse tempos e ritmos e tomasse decisões orientadas pela segurança do grupo.

Quando cada passo já nos ocupava por inteiro, havia uma equipa a pensar na comida, no caminho, nas condições da montanha e naquilo de que poderíamos precisar a seguir.

Até aí, as diferenças de ritmo tinham encontrado respostas: alguém ficava, alguém voltava atrás, alguém ajustava o passo. Durante o ataque ao cume, tudo se tornou mais complexo, porque nem todos entendiam da mesma maneira o que significava ajudar.

Um dos participantes foi ficando para trás e regressou com a sensação de que talvez pudesse ter ido mais longe se tivesse sentido mais o efeito do grupo, se alguém tivesse esperado alguns minutos ou lhe tivesse dado uma palavra de motivação.

Essa necessidade, no entanto, não chegou a transformar-se num pedido claro. Como poderiam os outros saber? E, ao mesmo tempo, alguém lhe perguntou aquilo de que precisava?

Mais acima, outra pessoa disse explicitamente que queria descer. Estava exausta, satisfeita com o ponto a que tinha chegado e sentia que já não aguentava mais. Alguém com muita experiência de alta montanha acreditava que ela ainda conseguia continuar e incentivou-a a avançar. Para quem a incentivava, ajudar significava acreditar que ainda era possível dar mais um passo. Para quem queria descer, significava que a sua decisão de parar fosse escutada.

Acabou por avançar um pouco mais, mas voltou a dizer que queria regressar. Sentia que tinha chegado ao seu limite e que continuar apenas para alcançar o ponto mais alto retiraria significado à experiência que já tinha vivido.

Ao longo da expedição, a palavra “ajuda” assumiu significados muito diferentes.

Ajudar foi fazer novamente um caminho já percorrido porque alguém decidiu voltar a tentar. Foi abrandar enquanto o outro ainda queria continuar. Foi motivar. Foi esperar. Foi respeitar uma decisão. Foi cuidar das condições que permitiam ao grupo avançar em segurança. E foi também continuar o próprio caminho quando alguém importante decidiu parar.

Perceber isso não pode ser um exercício de adivinhação. Exige que quem precisa consiga dizer. E exige que quem acompanha esteja disponível para perguntar.

Enquanto eu recuperava da exaustão em Kibo, a maior parte do grupo chegou ao Uhuru Peak, o ponto mais alto de África. Quando começaram a regressar, percebi que traziam experiências diferentes da mesma montanha. Havia felicidade, orgulho, alívio e gratidão. Havia também dúvidas, frustração e emoções ainda difíceis de organizar.

Houve quem chegasse aos 5.895 metros e regressasse a pensar sobretudo naquilo que sentia não ter feito pelos outros. Houve quem tivesse parado antes e estivesse absolutamente em paz com a decisão.

Foi no regresso que outra dimensão da experiência se tornou mais evidente: algumas emoções foram ditas; outras começaram por aparecer através do silêncio, da distância ou da necessidade de caminhar sozinho.

Em situações de grande cansaço e vulnerabilidade, nem sempre encontramos imediatamente as palavras certas. Mas aquilo que fica por dizer continua presente.

O silêncio mostra-nos que alguma coisa mudou, mas deixa o outro a adivinhar o quê, porquê e o que poderia fazer. É assim na montanha e fora dela.

Acontece quando insistimos para que alguém permaneça num trabalho ou num projeto que já deixou de lhe fazer sentido, porque acreditamos que “não pode parar agora”. Quando pressionamos um filho a seguir o caminho que imaginámos para ele. Quando um colega precisa de mais tempo e interpretamos a lentidão como falta de compromisso. Ou quando nos afastamos, esperando que os outros compreendam uma mágoa que nunca chegámos a expressar. Muitas vezes, acreditamos que estamos a motivar. A outra pessoa pode sentir que não está a ser ouvida. Outras vezes, somos nós que precisamos de apoio, de uma pausa ou simplesmente de companhia. Não o dizemos. Esperamos que alguém repare. E, quando isso não acontece, concluímos que os outros não estiveram connosco.

A comunicação pede-nos três coisas aparentemente elementares e, ainda assim, difíceis: dizer aquilo de que precisamos, perguntar antes de assumir e confirmar se compreendemos realmente o outro.

Hoje, quando penso naqueles 7 dias na montanha, penso nas diferentes formas de cuidado que encontrei pelo caminho. Penso nas pessoas que ficaram, nas que voltaram atrás, nas que motivaram, nas que continuaram e nas que souberam parar. Penso também em quem, muitas vezes longe do centro da história, preparou, carregou, orientou e cuidou para que pudéssemos fazer o caminho em segurança. Penso no que conseguimos dizer e no que só compreendemos mais tarde. Tudo isso fez parte do Kilimanjaro.

Caminharmos a ritmos diferentes era inevitável. Tínhamos corpos, experiências, motivações e limites diferentes. O que nos liga é a disponibilidade para mantermos a conversa quando os ritmos, as necessidades e os caminhos deixam de coincidir.

Pole pole é uma forma de subir uma montanha. Mas pode ser também uma forma de estar com os outros: abrandar o suficiente para reparar, perguntar e escutar.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: