“AFD quer mesmo destruir a democracia na Alemanha. Mas nós vamos resistir”
- 05/09/2026 16:00
- Redação
Angela Kunze-Beiküfner não esquece a viagem que fez a Portugal em 1990 após a queda do muro, à boleia até ao Algarve. “Sentíamo-nos muito mais em casa do que na Alemanha Ocidental, porque Portugal era mais simples. E as laranjeiras eram tão bonitas”.
Até à reunificação de Berlim, foi sobretudo uma ativista da oposição democrática na RDA. Angela estava refugiada em jejum de protesto numa igreja do lado leste da cidade, quando rebentaram violentos protestos que levaram muitos manifestantes a procurarem abrigo em igrejas em Berlim Leste.
Até ali tinha dinamizado contactos com outros grupos de oposição ligados à igreja, dentro e fora do país. Foi detida, fez formação em fisioterapia, trabalhou num circo.
Depois de 1989, estudou Teologia em Leipzig, foi ordenada pastora protestante e tornou-se vice-diretora do Instituto Pedagógico-Teológico da Igreja Evangélica da Alemanha Central. Capelã Universitária em Magdeburgo, mãe de dois filhos adultos, tem 64 anos e dinamiza agora a organização “Avós Contra a Direita”.
Quando vivia na então RDA, alguma vez teria imaginado que agora, em setembro de 2026, estaria perante a possibilidade de a extrema-direita vencer uma eleição aqui e governar um estado alemão?
Não, nunca, claro que não. Mesmo nos últimos meses da RDA, não conseguia imaginar que a "Cortina de Ferro" ou o Muro de Berlim se abrissem tão depressa. Na altura, lutávamos pela democracia. Eu fazia parte de grupos de oposição proibidos, e mesmo assim, não conseguíamos imaginar que teríamos sucesso tão depressa.
Na RDA, apesar de ser uma ditadura socialista, havia racismo. Tínhamos apenas alguns migrantes de Moçambique ou do Vietname, e as pessoas falavam muito mal deles. Também não era permitido relacionar-se com eles ou formar um casal.
No início da década de 1990, e também 20 anos mais tarde, senti realmente que estávamos a amadurecer numa democracia. Fiquei muito feliz por ter tido os meus filhos depois da revolução pacífica.
E agora temos esta situação com este partido realmente muito de extrema-direita. O programa da AfD [Alternativa para a Alemanha] é realmente horrível. Não era possível imaginar isto e estou realmente chocada. Mas também compreendo as razões pelas quais as pessoas votam neles.
São sobretudo as pessoas das zonas rurais aqui no nosso estado, a Saxónia-Anhalt. Cerca de 80% da população vive mais no campo e não nas cidades.
Na RDA, até uma pequena aldeia tinha um jardim de infância, um supermercado, um médico e assim por diante. Agora, metade dos edifícios estão vazios. As pessoas foram-se embora, não resta nada dessa infraestrutura. Nem sequer há autocarros.
Sim, mas não é só nostalgia. As pessoas lembram-se das coisas boas que realmente tinham: jardins de infância, escola, jovens. E não refletem sobre o motivo pelo qual as coisas aconteceram daquela forma.
Simplesmente acham que a culpa é do governo. Sentem-se perdidos, invisíveis, esquecidos.
Muitos deles também não conseguiram aprender a participar na democracia porque, depois da queda do Muro, tivemos muitos problemas económicos. Metade das pessoas empregadas ficou desempregada, ou seja, não viram os benefícios da democracia, mas apenas todos os problemas.
Sim, é verdade. Cresci numa família cristã e sempre me envolvi na oposição política. Na minha família falávamos sobre isso, por isso, para mim, foi fácil viver neste novo Estado. Mas muitas pessoas sentiram-se perdidas porque estavam habituadas a que o Estado e o governo lhes dissessem o que tinham de fazer. Estavam também habituadas a que o governo as protegesse. Não conseguiam lidar com esta nova liberdade, este novo tipo de liberdade.
A culpa foi dos grandes partidos? Os extremos começaram a ocupar a Alemanha Oriental desde a queda do Muro de Berlim.
O partido de extrema-esquerda não era assim tão grande depois da queda do Muro. Tinha 15%, em algumas regiões 20%, mas não era o maior. Esse era o partido conservador, a CDU, o Partido Democrata-Cristão. As pessoas pensavam que como o líder da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, era desse partido, tinham de o eleger.
Depois perceberam que alcançar o mesmo estilo de vida que as pessoas na Alemanha Ocidental não era tão fácil como pensavam.
Sim, mas raramente mencionava que era da parte oriental, exceto talvez nos últimos anos. Não era propriamente uma política do Leste. Não falava muito sobre isso.
Há 15 ou 20 anos, quando as pessoas me conheciam e sabiam que eu era da Alemanha Oriental, diziam, como um elogio: "Oh, não me apercebi de que eras da parte oriental. Pensei que fosses da parte ocidental."
Mas isso não era um elogio. Davam a entender que, se disseres que és da parte oriental, deves ter vergonha disso.
Sim, mas acho que também era uma questão de idade, geração e educação.Sou capelã protestante para estudantes e jovens. Para eles, ser "Ossi" ou "Wessi" não é algo assim tão importante. Muitos estudantes em Magdeburgo são de outros países e de outras partes da Alemanha.
Mas as pessoas da minha idade, e talvez também um pouco mais novas, ainda pensam nessas categorias de "Ossi" e "Wessi" .
Porque utilizaram o TikTok e as redes sociais de forma muito inteligente desde muito cedo. Não sei de onde veio, mas tinham dinheiro e formadores suficientes. Utilizaram tudo isso de forma muito inteligente.
Os jovens viram principalmente as figuras políticas da AfD nessas redes sociais. Acho que essa é uma das razões pelas quais são tão populares entre parte da geração mais jovem.
E a memória histórica da extrema-direita? Não havia nenhum pai ou mãe a falar com os filhos sobre essas diferenças?
Sim, mas mesmo na RDA, que oficialmente era um sistema político antifascista, havia pessoas de extrema-direita em muitas famílias. Não se falava abertamente sobre isso, vivia-se apenas dentro das famílias.
Há jovens que têm avós que ainda são de extrema-direita. Politicamente, eles diziam: "Nós somos a parte antifascista da Alemanha, e os nazis estão na parte ocidental". Mas, na verdade, era apenas ideologia. As pessoas limitavam-se a manter as suas próprias ideias em privado. Em muitas, muitas famílias, era possível encontrar isso.
Quem se tem vindo a opor à extrema-direita não encontrou uma solução para os combater ao ponto de, aqui chegados, poderem ganhar as eleições e governarem. Quando pensam nas ferramentas e ideias que utilizaram para combater a extrema-direita, o que é que não funcionou?
Essa é uma pergunta muito difícil, porque ainda estamos no meio da luta. Não tenho distância suficiente.
Tentamos muitas coisas. Faço parte das "Avós Contra a Direita" e tentamos mesmo ir para o campo, ouvir as pessoas de lá, para as conhecer. Convidamo-las para tomar café e comer bolo. Chamamos-lhe "encontro para o café". Colocamos mesas em locais públicos, na rua, com café e bolachas. Depois, convidamos as pessoas a sentarem-se connosco e a falarem dos seus problemas.
Acho que a política está realmente muito, muito longe destas pessoas. Elas dizem sempre: "Die da oben" — "Aqueles lá em cima". Como quem diz: "eles estão lá em cima e nós estamos aqui em baixo". Não sentem qualquer ligação com eles.
Sim. E leva tempo até voltarem a confiar na política e também no seu próprio poder. Tentamos dizer-lhes que não basta, e que não é boa ideia limitarem-se a esperar que o governo faça alguma coisa. Eles podem lançar iniciativas e movimentos por conta própria.
Sim. Para cerca de metade deles, trata-se realmente apenas de um voto de protesto. Converso com muitas pessoas, e elas dizem: "O que é que todos estes outros partidos fizeram por nós? Nada. Por isso, voto simplesmente neste."
Quando lhes explicamos que as coisas podem piorar se este partido chegar ao poder, especialmente para as pessoas comuns, para quem não é tão rico e para os trabalhadores, às vezes não nos ouvem ou não acreditam em nós.
Alguns dizem: "Está bem, vou pensar nisso. Talvez não seja uma boa ideia". Mas não sabem que outros partidos poderiam eleger, porque dizem que todos os outros partidos são praticamente iguais.
Não. Eu não diria isso. É uma verdadeira dádiva termos posto fim a esta ditadura, a estes 40 anos da RDA. O meu pai esteve na prisão e eu tive tantos problemas naquele Estado. Agora temos tantas liberdades. Quando era jovem, não conseguia imaginar que teríamos realmente as possibilidades que temos agora.
Mas, claro, se compararmos com a Alemanha Ocidental, a parte oriental continua a ser menos importante, mais pobre e as suas pessoas não ocupam cargos de destaque.
A forma como os migrantes foram geridos na Alemanha é, de alguma forma, uma razão para o voto na extrema-direita? Será que algumas coisas não foram bem geridas pela CDU ou pelo SPD e, por isso, temos agora esta resposta radical?
Não acho que esse seja o principal problema. A Alemanha Oriental era muito homogénea. Quase só viviam lá pessoas brancas. Para as pessoas daqui, especialmente no campo, ainda é algo muito invulgar ver pessoas negras, pessoas de África, da Índia. Elas têm de aprender a conviver com a pluralidade.
Na Alemanha Oriental, tudo costumava estar compartimentado e regulamentado. Agora há muitas coisas diferentes. E essas pessoas não conseguem lidar com essa diversidade. Não se trata apenas de migrantes. Trata-se também de pessoas "queer". Elas opõem-se a isso porque não conhecem.
Uma das razões pelas quais isto lhes é tão difícil é também o facto de a Igreja não ser muito importante na Alemanha Oriental. Há muito poucos cristãos. A Igreja pode ser um local muito importante para refletir sobre o nosso comportamento, para conviver com a diversidade, para partilhar diferentes culturas e para nos sentirmos ligados às pessoas, mesmo que estas tenham origens diferentes.
Sim. Era muito importante como local seguro. As pessoas usavam a Igreja — e isso era bom — como um local onde estavam protegidas da polícia. Eu também o fazia. Mas depois de o Muro ter caído e de já não ser perigoso protestar nas ruas, as pessoas deixaram de frequentar a Igreja. Não se tornaram crentes, claro.
A Igreja Protestante, mas também a Igreja Católica nesta região da Alemanha, opõe-se muito claramente à AfD – também mencionam o partido de forma direta. Dizem defender o amor, a solidariedade, a diversidade. Na nossa Igreja Protestante, temos pastores "queer". É realmente um tipo de Igreja muito progressista nesta nossa região da Alemanha.
Não. Pelo contrário. A igreja poderia ter o mesmo papel que tinha na RDA. Talvez abramos as nossas portas a pessoas de outras instituições, porque o governo deste estado não tem autoridade para dizer à Igreja o que deve fazer.
Podem cortar alguns fundos, mas isso não será o fim da nossa Igreja. Podem impedir certas coisas, e já disseram que o farão. Disseram que querem acabar com o imposto eclesiástico. Mas a Igreja também sobreviveu sem isso na RDA, e nós encontraremos soluções. No entanto, têm autoridade sobre as universidades, a cultura, os teatros e a televisão pública.
Sim. E dizem que também vão mudar a rádio e a televisão públicas, e que vão mudar muitas coisas nas universidades. Não consigo imaginar que isso venha realmente a acontecer.
Mas a Igreja vai permanecer, e vamos abrir as nossas portas. Fazemos parte de um movimento de solidariedade muito bom. Não somos assim tão fracos. Eles representam 40%, mas nós somos 60%, e talvez mais.
Eles tentam. Como são mais conservadores, dizem que não somos verdadeiros cristãos, que só os outros e as "igrejas livres" são verdadeiros cristãos, e que essas vão receber dinheiro. Mas estas Igrejas conservadoras também se posicionam ao nosso lado e dizem: "Não. Não se pode dividir o Cristianismo. Não aceitamos isso e não os seguimos."
Sim, até elas. Os batistas e outros grupos afirmaram oficialmente que estão do nosso lado.
Eles não sabem nada sobre o Cristianismo. Não os vemos na igreja. Alguns são cristãos, claro. Hans-Thomas Tillschneider, o líder ideológico da AfD nas áreas da educação e da religião, converteu-se à Igreja Ortodoxa porque esta está mais ligada à ideia de nação.
Algumas são muito conservadoras e também estão muito próximas de Putin e da Rússia. Mas isso é apenas política. Não tem nada a ver com o que realmente significa ser cristão, rezar, sentir o espírito de comunidade.
Estou preparada para isso, claro. Vamos continuar o nosso trabalho, especialmente no campo, com as "Avós Contra a Direita". Vamos ficar, vamos manter contacto com as pessoas no campo e, como cristãos, vamos viver as nossas crenças e o nosso testemunho.
Talvez nem fosse assim tão mau se eles ganhassem, porque, nesse caso, terão muitos problemas. O programa deles é tão radical e também irrealista que as pessoas votam neles e, depois, vão ter que esperar para ver como é que implementam efetivamente as suas políticas.
Existirá algum movimento da sociedade civil a iniciar uma resistência contra a extrema-direita a partir de segunda-feira, caso eles governem?
Um pouco, talvez. Estou especialmente preparada para o papel da Igreja. É muito importante para mim recordar os velhos tempos, a revolução pacífica sem violência. Resistimos e acho que podemos fazer o mesmo.
A estratégia deve ser diferente, porque as redes sociais são muito importantes hoje em dia. Tenho 62 anos, por isso temos de aprender com a geração mais jovem a utilizá-las também. Sem isso, não é possível.
Alguns estão mesmo com medo. Aqui na universidade protestante, cerca de 40% dos estudantes são estudantes internacionais. Alguns estão à procura de outros lugares. Mas precisamos muito deles.
Por outro lado, às vezes penso que, se todos eles deixassem o país agora, as outras pessoas perceberiam o quão importantes são para nós.
Alguns vão ficar e outros vão sair. Conheço muitos que já fizeram as malas e dizem: "Se a AfD ganhar, vou-me embora."
E os imigrantes de países como Portugal têm menos a temer? Existem duas classes de imigrantes?
Sim. A AfD usa a palavra "kulturfremde", pessoas que são estranhas à cultura. Se não for da Europa, se não for cristão — apesar de eles próprios não serem propriamente cristãos —, então não é bem-vindo. Eles querem mandar estas pessoas de volta, mesmo que estejam aqui legalmente. O problema para eles são os muçulmanos, as pessoas da Ásia, da Índia e assim por diante.
Veja, sou mãe de uma pessoa "queer" e de outra com deficiência. Os meus filhos já são adultos, mas se tivesse filhos pequenos e lesse sobre as políticas escolares da AfD, também pensaria em partir.
A minha mãe tem 92 anos, também é avó e lembra-se do período nazi. Lembra-se da Kristallnacht, a noite do pogrom. Lembra-se muito bem disso como um período terrível. Para ela, imaginar um ministro-presidente da AfD é muito difícil.
Sim. Acho que alguns realmente não se lembram. Outros dizem: "Ah, a AfD não é assim tão má". Muitos deles não lrem o programa. Limitam-se a ouvir este homem, este líder [Ulrich Siegmund] que está sempre a sorrir e parece simpático. Depois dizem: "Ah, não vai ser assim tão mau. Eles são inofensivos".
Claro. Conheço todas as pessoas que estão por trás dele. É realmente perigoso. Eles são mesmo muito, muito de extrema-direita. E querem mesmo destruir a democracia na Alemanha. Acham que isto será apenas o primeiro passo; depois, vão crescer primeiro nos outros estados da Alemanha Oriental e, posteriormente, também na Alemanha Ocidental.
A fundadora foi uma teóloga chamada Monika Salzer, da Áustria. Na Alemanha, diria que há grupos em quase todas as grandes cidades. Na minha região, as mulheres vêm das aldeias. Uma vez por mês, reunimo-nos na minha sala de estar. Falamos sobre a nossa estratégia contra a extrema-direita no campo e sobre como chegar às pessoas.
Não estamos ligados a nenhum partido político. No nosso grupo, há avós que votam no Partido Democrata-Cristão, na Esquerda ou nos Verdes. Mas estamos todos juntos contra a extrema-direita.
Também queremos mostrar outra imagem. Queremos mostrar ao mundo que a Saxónia-Anhalt não é só de direita. Isso é muito importante para nós. Não queremos que as pessoas pensem apenas na AFD sempre que ouvirem "Saxónia-Anhalt". Temos de lhes mostrar que somos muito mais do que isso. Muito, muito mais.
Sim, claro. Mesmo que fiquemos chocados, nunca, nunca devemos perder a esperança.