Formação executiva customizada: menos catálogo, mais transformação

Formação executiva customizada: menos catálogo, mais transformação

  • 07/09/2026 01:22
  • Redação

O início de um novo ano académico é habitualmente marcado pela apresentação de novos cursos, programas e conteúdos. Mas, no caso da Formação Executiva customizada, a questão essencial já não é saber que temas devemos ensinar, mas sim perceber que transformações concretas as organizações precisam de realizar… e como podemos ajudá-las a concretizá-las.

Vivemos num contexto particularmente exigente (i) a Inteligência Artificial está a alterar processos, funções e modelos de negócio, (ii) a instabilidade geopolítica obriga a rever cadeias de abastecimento, mercados e decisões de investimento, (iii) a transição climática mantém-se inevitável, mesmo quando perde centralidade no discurso político. Ao mesmo tempo, convivem nas organizações diferentes gerações, expectativas, formas de trabalhar e até diferentes relações com os vários tipos de liderança.

O conhecimento técnico continua a ser indispensável, mas envelhece depressa e está cada vez mais acessível. O verdadeiro valor da Formação Executiva passa, por isso, por ajudar líderes e equipas a interpretar a mudança, questionar pressupostos, tomar decisões difíceis e transformar conhecimento em ação.

Neste contexto vejo quatro grandes desafios para a Formação customizada – que não são seguramente novos, mas que ganham uma acuidade ainda mais intensa.

O primeiro passa por deixar de responder apenas a necessidades de aprendizagem e começar a responder a prioridades estratégicas. Uma organização, para dar um exemplo, não precisa simplesmente de um curso de Inteligência Artificial, precisa de decidir onde aplicar a tecnologia, que processos redesenhar, que riscos aceitar e que competências desenvolver. Ou, outro exemplo, não precisa apenas de formação em sustentabilidade, precisa de integrar fatores ambientais e sociais nas decisões de investimento, na operação e na criação de valor. Ou ainda, outro exemplo, não precisa apenas de ensinar liderança, precisa de alterar comportamentos, melhorar a colaboração e criar condições para que as equipas assumam maior responsabilidade.

Isto exige começar pelo problema da organização, e não pelo catálogo da escola.

O segundo desafio será aproximar cada vez mais a aprendizagem do trabalho real. Os programas terão de incorporar dilemas concretos, dados da empresa, projetos aplicados, simulações e decisões que os participantes enfrentam no seu quotidiano. A sala de aula continuará a ser importante, mas deverá funcionar como um espaço seguro para experimentar, discordar, testar hipóteses e preparar a ação.

O terceiro desafio é demonstrar impacto. Durante demasiado tempo, o sucesso de muitos programas foi avaliado sobretudo pela satisfação dos participantes. Essa avaliação é relevante, mas insuficiente. As organizações esperam hoje perceber o que mudou depois da formação: que decisões foram melhoradas, que projetos avançaram, que comportamentos se alteraram e que resultados foram alcançados.

A Formação Executiva customizada terá, por isso, de definir desde o início os resultados pretendidos e acompanhar a sua concretização. O futuro não está apenas em programas desenhados à medida, mas em verdadeiras parcerias de transformação. Por isso digo muitas vezes que o nosso propósito, enquanto Formação Executiva da Catolica-Lisbon SBE não é formar, mas sim transformar.

Existe ainda um quarto desafio: preservar aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir. Num mundo em que a Inteligência Artificial produz respostas instantâneas, o valor humano estará cada vez mais na capacidade de formular melhores perguntas, interpretar ambiguidades, exercer julgamento e compreender as consequências das decisões.

Precisaremos de líderes tecnologicamente preparados, mas também conscientes, curiosos e capazes de escutar. Líderes que utilizem a tecnologia sem abdicarem da responsabilidade, que consigam agir com rapidez sem perder profundidade. E que saibam construir pontes num mundo mais polarizado.

As empresas que continuarem a tratar a formação como uma sucessão de iniciativas isoladas terão dificuldade em acompanhar a velocidade da mudança. As que a integrarem na execução da estratégia estarão melhor preparadas para antecipar disrupções, mobilizar pessoas e transformar incerteza em oportunidade.

É esse o principal desafio para as escolas de negócios no início deste novo ano académico: não oferecer respostas genéricas para problemas que são cada vez mais específicos. A Formação Executiva customizada terá de ser menos catálogo e mais diagnóstico, menos satisfação imediata e mais impacto sustentável.

Nuno Moreira da Cruz, Dean for Executive Education na Católica Lisbon School of Business & Economics.

  • Fonte: Rádio Renascença
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