Aldeia do Meco: "Perícias permitem saber se sempre houve desembarque, ou não"
- 07/09/2026 12:53
- Redação
Tráfico de droga ou desembarque de migrantes na costa portuguesa na zona da Aldeia do Meco, em Sesimbra? Autoridades investigam uma denúncia de alegada chegada de um grupo que teria cerca de 30 migrantes na madrugada do passado domingo.
Paulo Dias, ex-chefe de informações da Polícia Marítima e investigador académico sobre redes de tráfico de estupefaciente, considera que é fácil tirar uma conclusão através das perícias à embarcação de borracha, jerricãs com combustível e outros elementos encontrados no areal.
Do lado dos peritos ficará a “análise do peso do combustível e a capacidade da embarcação, força do motor, se vinha de mar para terra, ou de terra para mar e o que fazia a embarcação numa zona de difícil acesso marítimo com ondulação, mas com muito fácil acesso terrestre”, sublinha.
Este especialista refere mesmo que os depósitos encontrados podem estar ligados a outras embarcações que na linha do cabo Espichel “costumam pernoitar para apoio de embarcações de tráfico de estupefacientes que costumam andar por ali”.
No entanto, levanta algumas dúvidas. “Na minha opinião as perícias neste caso estão contaminadas. Verificámos elementos da Polícia Marítima e militares da Marinha sem qualquer tipo de proteção a pegar na embarcação, a recolher provas e indícios sem proteção individual para preservação da prova. O registo fotográfico, por si só, não é a única prova pericial que se quer e precisa”, afirma.
Do ponto de vista mediático, a costa do Meco, na zona de Sesimbra, só agora é falada, mas para este especialista não é de estranhar lembrando que há uns anos também foi intercetado um meio que tentava um desembarque por ali.
“A rota do Mediterrâneo está pressionada pelas agências europeias policiais: Frontex e outros órgãos europeus. A rota do Atlântico vem hoje de Marrocos, passa por lá, e vem direta para a nossa costa, para a costa espanhola, até na zona da Galiza. Na prática onde há um buraco eles enfiam-se”, revela.
Em comunicado conjunto, a GNR e a Polícia Marítima descartaram a possibilidade de um desembarque de migrantes, sublinhando que os indícios recolhidos têm semelhanças com as situações relacionadas com tráfico de droga que têm sido detetadas na costa portuguesa.
Paulo Dias chama a atenção para o facto de não estar a ser dada a devida atenção ao mar e à sua fiscalização, fala em descoordenação entre autoridades e falta de meios.
“Temos um muito parco investimento em lanchas de alta velocidade. As lanchas de combate à droga são as apreendidas. Não é um navio com 20 ou 30 metros que consegue impedir ou intercetar lanchas que podem dar 40 ou 45 nós na água!”, afirma o investigador, sublinhando que importa refletir sobre o que se quer verdadeiramente para o mar.
“É urgente que se assuma uma Guarda Costeira, um combate efetivo, a coordenação no tráfico pela Polícia Judiciária e que as organizações conversem e o tráfico não fique como uma medalha de quem apanhou mais e quem capturou mais”, apela.
Paulo Dias, que estuda há vários anos as redes de tráfico de estupefacientes, considera "preocupante termos investimentos anuais elevados no sistema de vigilância costeiro como o SIVICC [Sistema Integrado de Vigilância, Comando e Controlo], plataforma tecnológica utilizada pela Unidade de Controlo Costeiro e de Fronteiras da GNR, e no Costa Sul Sistemas e verificar que não há capacidade das câmaras verificarem e detetarem logo estas situações”.
Paulo Dias aponta um problema que é preciso resolver: “neste momento não há capacidade de vigilância de mar para terra e capacidade de vigilância em terra".
"Existem múltiplas agências a operar no mar: Autoridade Marítima, GNR (UCCF - Unidade de Controlo Costeiro e de Fronteiras da GNR), Marinha, mas que não se informam mutuamente. Há operações e não cruzam dados ou informações”, conclui.