Piores a Matemática e Leitura. Especialista defende regresso a políticas educativas dos anos 2000

Piores a Matemática e Leitura. Especialista defende regresso a políticas educativas dos anos 2000

  • 08/09/2026 03:30
  • Redação

Marôco rejeita que a pandemia explique, por si só, esta evolução. Sublinha que os resultados portugueses começaram a cair a partir de 2015 e aponta para uma mudança nas políticas educativas: “Passámos a ter currículos vagos e pouco estruturados” e uma desvalorização da avaliação externa.

Há, ainda assim, um resultado positivo: na resolução de problemas com recurso a ferramentas digitais, Portugal obteve 501 pontos, contra 500 da média da OCDE. Para o especialista, isto mostra que “não estamos perante um colapso” das capacidades dos alunos portugueses.

João Marôco considera também preocupante o agravamento das desigualdades socioeconómicas. “O fosso socioeconómico é cada vez maior”, afirma, com as famílias mais favorecidas a conseguirem compensar, através de formação complementar, as dificuldades que os alunos encontram na escola.

Quanto à falta de professores, diz que Portugal acompanha uma tendência internacional de perda de atratividade da profissão. E deixa um alerta sobre a qualificação dos portugueses: somos “a geração mais diplomada de sempre”, mas os diplomas não significam necessariamente maiores competências.

Sim. Em primeiro lugar, a queda nas Ciências, como já se tinha observado em 2022, não foi significativa, ou seja, os nossos alunos, do ponto de vista das competências que a OCDE entende como necessárias para o exercício da cidadania ativa, enfim, não melhoraram, pioraram ligeiramente, mas do ponto de vista estatístico não podemos excluir a hipótese de que aquilo é simplesmente um problema de ser uma amostra diferente de alunos.

O resultado que eu acho que é muito interessante e positivo é o quarto domínio do PISA deste ano, que é a resolução de problemas computacionais, a competência que os alunos têm para resolver um problema utilizando ferramentas digitais. Os alunos portugueses tiveram em média 501 pontos, a média da OCDE são 500 pontos, e isto indica que não estamos perante um colapso sinalizado da capacidade dos alunos portugueses.

Traz más notícias para o sistema educativo nacional, mas também traz muita informação relevante do que é que explica estes maus resultados e o que é que se pode fazer para inverter esta tendência.

A queda a Matemática e a Leitura. O retrocesso que nós vimos é muito significativo e muito preocupante. A Matemática e a Leitura caímos para níveis de 2006, portanto regredimos 20 anos em termos de resultados, e está perfeitamente alinhada com aquilo que nós tínhamos visto em 2022.

Na altura, a explicação do então ministro da Educação era que aquele PISA era o resultado da pandemia de Covid, principalmente das escolas, apesar da própria OCDE no relatório ter chamado a atenção que a queda que todos os países da OCDE tinham observado em 2022 não era exclusivamente explicada pela pandemia. E isto porquê? Porque na totalidade dos países, exceto um – e este um obviamente é muito importante – os resultados já estavam a cair desde 2006-2009. O um que não caía era Portugal. Portugal até 2015 era o único país da OCDE que tinha uma tendência de crescimento positivo nos resultados dos três domínios, da Matemática, das Ciências e da Leitura. A partir de 2015 algo aconteceu aos alunos portugueses, ao sistema educativo, às famílias – temos de falar de todas essas hipóteses –, e os alunos portugueses começaram a ter piores resultados em todos os domínios.

Quando nós estudamos as variáveis explicativas do desempenho dos alunos no PISA, nas diferentes edições, desde 2000, encontramos sempre três conjuntos de variáveis muito importantes a diferentes níveis. O primeiro e mais importante é o nível do aluno e da família. O estatuto socioeconómico das famílias portuguesas, felizmente, aumentou linearmente entre 2000 e 2025, temos uma população mais escolarizada, maior percentagem de população adulta com ensino secundário agora do que tínhamos há duas décadas, as famílias têm mais rendimento disponível e, portanto, isso não explica a evolução dos resultados.

O segundo é relativamente aos recursos das escolas. Eles também têm vindo a aumentar entre 2000 e 2015 e depois entre 2015 e 2025 também aumentaram. O investimento “per capita” por cada um foi maior em 2025 do que qualquer um dos anos anteriores.

O terceiro são as políticas educativas. E o que é que aconteceu? Entre 2000 e 2015 nós tivemos um conjunto de políticas educativas que foram sempre caminhando no mesmo sentido, independentemente de alternamos entre social-democratas e socialistas, entre 2000 e 2015, todos os ministros de Educação seguiram uma linha comum, que foi o reforço dos currículos, o estabelecimento de metas e objetivos claros de ensino e aprendizagem, todos os professores sabiam o que é que tinham que ensinar, todos os alunos sabiam o que é que tinham que aprender, a prestação de contas com consequências, os exames. O grande salto que Portugal teve no PISA no período de 2000 e 2015 foi depois da introdução do exame de 9.º ano.

A partir de 2016, houve uma inversão completa das políticas anteriores, portanto, passámos a ter currículos vagos e pouco estruturados, as chamadas aprendizagens essenciais, porque os decisores políticos de 2016 achavam que o currículo nacional era muito denso e muito pesado e que os alunos não conseguiam gerir aquele currículo e não conseguiam aprender mais. Passámos a ter uma desvalorização incrível da avaliação externa com consequências. Logo em 2016, os exames de 4.º e 6.º anos foram cancelados e foram substituídos por provas de aferição a meio do ciclo.

O ministro Tiago Brandão Rodrigues e o secretário de Estado era João Costa, na verdade o ministro da Educação.

Não, são recomendações da OCDE. Isto é muito interessante porque o relatório deste ano cita que, de facto, há um problema com as aprendizagens na OCDE.

Porque é que que, entretanto, não se fez uma alteração de política educativa? Porque mais uma vez, infelizmente, para o país, infelizmente para os nossos jovens e para os menos jovens também, temos alguém no Ministério da Educação que não olha para a evidência. Não houve nenhuma alteração de política educativa relativamente àquilo que tinha sido implementado pelos governos Costas [António Costa, primeiro-ministro; e João Costa, ministro da Educação]. Por exemplo, este formato de digitalização [dos exames nacionais] tinha sido proposto pelo João Costa, enquanto ministro. O atual ministro, no primeiro ano que esteve em funções, achou que não havia condições e não avançou com a digitalização. Este ano, ninguém sabe porquê, ele próprio não consegue explicar porquê, resolveu avançar e houve os problemas que foram relatados. Agora, está em curso uma nova mudança de currículos.

Não, porque são as chamadas aprendizagens essenciais. Por exemplo, a Matemática, onde nós observamos a queda mais significativa, a Sociedade Portuguesa de Matemática já veio dizer que esta nova proposta de aprendizagens essenciais é ainda pior do que as aprendizagens essenciais anteriores. Porque é que não se muda? E se mudasse, o que é que faria? Se for tomar decisões políticas baseadas na evidência, o relatório da OCDE destaca a evolução destas duas décadas. Portugal, como disse, na primeira década, entre 2005 e 2015, teve resultados sempre positivos e a crescer, contrariamente à tendência da OCDE. Portugal, a partir de 2015, ficou alinhado com a OCDE, só que a OCDE já vinha a cair lá atrás e Portugal, que estava a evoluir positivamente, passou a evoluir negativamente.

Claro, muito simples. Não é preciso reinventar a roda. É simplesmente olhar para aquilo que os diferentes governos fizeram entre 2000 e 2015 e o que é que os diferentes governos fizeram entre 2016 e 2026.

Essa pergunta terá de fazer o senhor ministro. Não tenho grandes esperanças. Vemos o senhor ministro tomar decisões, por exemplo, expandir a proibição da utilização dos smartphones, nos recreios das escolas. Isto é uma medida absolutamente populista, porque ela já está no código do aluno desde 2012.

Mas esse é que é o verdadeiro problema. O problema das escolas não são os smartphones.

O problema das escolas é a erosão da autoridade educativa dos professores na sala de aula. Um professor não pode chamar a atenção de um aluno sem que seja de alguma forma confrontado pelo pai do aluno, porque está a contribuir para a ansiedade, para o mal-estar psicológico do aluno, para a autoestima.

Um professor não pode reprovar um aluno que durante o ano letivo não demonstrou nenhum interesse em aprender e participar nas atividades de sala de aula, porque não é a educação inclusiva reprovar alunos.

É mais difícil. Na verdade, em alguns países a associação é significativa, é estatisticamente significativa. No caso de Portugal não é dos fatores mais importantes para explicar o desempenho dos alunos.

As estratégias que os professores utilizam na sala são os preditores mais importantes. Mas o preditor mais importante, a nível da escola, é o ênfase da escola e dos professores no sucesso académico. Ou seja, escolas que promovem ativamente o desempenho dos seus alunos e que incentivam os alunos a fazer mais e melhor, têm melhores resultados do PISA.

Esta é a geração mais diplomada de sempre, isso é verdade. Temos maior percentagem de adultos com ensino secundário, maior percentagem de adultos com ensino superior. A questão é: esses títulos correspondem a competências de facto? E a resposta é não. O Programa de Avaliação Internacional de Competências dos Adultos, da OCDE, foi analisar as competências dos nossos adultos em numeracia e literacia, portanto Matemática e Leitura, e chegou à conclusão que, por exemplo, na Finlândia, o nível de numeracia e literacia de um diplomado com ensino secundário é superior ao nível de numeracia e literacia de um português com ensino superior.

Portanto, somos de facto a geração mais diplomada de sempre, mas o que todos os estudos internacionais estão a demonstrar, é que estes diplomas não se traduzem em competências. E isto tem consequências para o país? Tem. E para o futuro? Tem.

Repare, quando o ministro da Educação está a proibir, em vez de educar os alunos a utilizar as tecnologias de informação, os smart devices, basicamente o que ele está a fazer é condenar-nos ao atraso económico. Porquê? Porque vivemos numa sociedade de informação, altamente tecnológica, em que ninguém consegue fazer quase nada sem acesso a um computador. Estamos a impedir os nossos alunos de desenvolverem as suas capacidades tecnológicas.

O que está a acontecer em Portugal é o mesmo que está a acontecer nos outros países da OCDE. A profissão de professor é cada vez menos atrativa, não só do ponto de vista económico. Neste momento, qualquer promotor imobiliário consegue ter um salário de três, quatro vezes superior a um professor do básico ou secundário.

Mas também do ponto de vista do respeito social, do prestígio social. Este é um problema que não é só de Portugal. É um problema nos Estados Unidos, é um problema em todos os países, ou quase todos os países da Europa, até a Finlândia, onde os professores eram a terceira profissão com maior prestígio social. Neste momento, debate-se com o problema de falta de professores. Quem é que quer ser professor? Só quer ser professor quem ainda acredita que consegue mudar o mundo, um aluno de cada vez ou quem não tem alternativa.

Não, não estamos. Está a piorar. Aumentaram os nossos alunos que não atingem o nível 2 – não atingem o nível mínimo de competências, de acordo com a OCDE, para desenvolver a cidadania ativa e serem cidadãos contribuintes líquidos para a economia.

E a percentagem de alunos que estava nos níveis de desempenho mais elevados diminuiu. E onde é que nós sentimos isso cada vez mais? O fosso socioeconómico agravado. E vimos isso nos exames nacionais: famílias que têm recursos que permitem aos seus filhos, aos seus educandos, irem buscar a formação que não têm na escola, esses alunos continuam a ter bom desempenho. As outras famílias que não têm, não. Por exemplo, não há professores de Inglês. Uma família com recursos sabe a importância de falar Inglês e vai pôr o seu filho ou a sua filha em aulas particulares de Inglês. Uma família com poucos recursos não. O que o PISA está a dizer é que, em Portugal, o fosso socioeconómico é cada vez maior.

  • Fonte: Rádio Renascença
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