Luís Neves mantém confiança em si próprio: não sai do Governo e volta aos mea culpa
- 08/09/2026 10:42
- Redação
Ao longo das quatro horas em que foi ouvido no Parlamento, Luís Neves fez muitos mea-culpa — sobre os mesmos temas que já tinha feito antes — e pouco acrescentou às dúvidas que os deputados foram apresentando sobre as polémicas que o têm rodeado.
Na sua intervenção inicial, o ministro começou por fazer um balanço do tempo que passou a tutelar a Administração Interna. E embora tenha considerado que não se pode desvalorizar as perceções dos cidadãos, também defendeu que "os dados das próprias polícias não sustentam uma narrativa de insegurança generalizada".
"Não podemos, e não devemos, desvalorizar o alarme causado sempre que sucede um episódio como o tiro a uma turista em plena luz do dia na Baixa de Lisboa ou o impacto do gangue do Rolex. Há fenómenos criminais, territórios e ocorrências que exigem atenção", argumentou Luís Neves.
Assim que o balanço foi feito, e começou a primeira ronda de perguntas, todos os deputados — exceto os do PSD e do CDS — questionaram a continuidade de Luís Neves no cargo. A todos respondeu da mesma forma ao longo das quatro horas.
Tal como já tinha feito em momentos anteriores, Luís Neves assumiu ter procedido mal em algumas situações — como o ter entregado as obras da sua casa de Odemira ao empreiteiro João dos Santos Carvalho, da Construbarcelos, que trabalhou com a Polícia Judiciária durante a sua direção, ou o ter falhado a entrega de declarações de rendimentos.
Insistiu que a decisão de usar um atrelado da Construbarcelos para guardar bidões de químicos apreendidos pela PJ na Operação Pacoba poupou dinheiro ao Estado e que usar viaturas apreendidas faz todo o sentido.
"Sobre as obras faço mea culpa. Foi um erro que reconheço e que nunca devia ter feito", disse Luís Neves aos deputados. E voltou a usar a expressão para falar de lapsos nas entregas das suas declarações.
“Eu já referi anteriormente que faço mea culpa porque não me recordei que tinha de fazer a declaração”, disse, usando os mesmos argumentos do passado — a situação não o envolveu só a si, mas também outros elementos da direção nacional da PJ.
E sobre o automóvel não declarado? “Houve a ausência de uma viatura que valia 4 mil euros, mas que tinha de declarar.” A sua explicação sobre este assunto foi a de que inicialmente tinha interpretado que apenas seria obrigatório declarar determinados valores patrimoniais (acima de 50 vezes o salário mínimo). Mais tarde, soube que a viatura também deveria constar da declaração.
Ainda sobre os seus rendimentos, Luís Neves foi questionado sobre uma empresa associada às suas declarações. “É uma microempresa, é uma pequena empresa que nunca teve negócios nem com o Estado, nem com ninguém.”
E conclui sobre todos estes assuntos que nunca teve intenção de ocultar qualquer informação. “Não houve qualquer indicação para esconder fosse o que fosse. Todos os atos que ali se encontram são atos de conhecimento público.”
"Quero dizer o seguinte, quando iniciei funções em 2018, inverti o status quo então existente, e o status quo que determinou a minha condição e a minha visão nesta matéria é: todo o património utilizado na prática de crimes ou adquirido com produtos do crime são para ser utilizados pelo Estado."
A polémica que o envolve prende-se com um Volkswagen Golf GTD, viatura que foi atribuída a Luís Neves enquanto diretor da PJ, mas que o ministro pediu para manter quando foi para o Governo.
"Relativamente à viatura [Golf ], vejo com espanto, nos últimos dias, algumas declarações vindas do Partido Chega, relativamente à utilização de viaturas apreendidas no âmbito do crime", diz o ministro aos deputados. "Essa é uma regra da Europa, é uma regra nossa", argumenta Luís Neves, que defende que estas viaturas são para ser utilizadas nos termos que todos conhecem.
Sobre o caso do atrelado, nada de novo. Neves voltou a repetir todas as explicações que já tinha dado, sem mais detalhes, embora os deputados tenham voltado várias vezes à carga. Não havia outros espaços livres e o Estado poupou dinheiro, reiterou o ministro.
“Temos muitas dificuldades em encontrar dispositivos [de armazenamento], porque há cada vez mais material apreendido por todo o lado”, argumentou o ministro falando sobre o caso do atrelado que ficou estacionado em Barcelos com produtos químicos.
À data, um dos armazéns que poderia ser utilizado "estava cheio de azeite adulterado", e a ASAE procurou durante dois anos por um lugar onde pudesse colocar aquele material, explicou.
Além disso, o diretor financeiro da PJ — uma "pessoa extraordinária", o "Mourinho das finanças" — alertou-o de que não havia espaços disponíveis, mas apontou-lhe imediatamente uma solução, a do atrelado.
"A mim, o que me foi colocado foi: eu tenho um problema e tenho uma solução. É uma pessoa de confiança, quer a pessoa que ficou depositária, quer o diretor que me propôs esta alteração. Eu aceitei", disse Luís Neves, que explicou a sequência de eventos várias vezes durante a manhã.
Sobre a inexistência de um auto, voltou a apontar o dedo aos serviços administrativos, a quem caberia tratar desses documentos.
Já sobre as dúvidas do valor que seria cobrado para destruir esse material, Neves argumentou que o valor, "praticamente os 150 mil euros, que são 144 mil euros", dizem respeito apenas a material da operação Pacoba. "Portanto não há aqui dúvida absolutamente alguma, foi esse valor que foi apresentado por uma empresa especializada."
Sobre as investigações que o envolvem, Luís Neves também não procurou argumentos originais. Voltou a agradecer todo e qualquer apuramento da verdade e disse estar tranquilo com o que as investigações trarão à luz do dia.
De resto, recusou a ideia de que, por ter sido diretor da PJ, pudesse influenciar o decorrer dos trabalhos.