Morreu o arquiteto e urbanista Fernão Simões de Carvalho
- 08/09/2026 11:50
- Redação
O arquiteto e urbanista Fernão Simões de Carvalho morreu esta terça-feira aos 96 anos, anunciou a Fundação Marques da Silva, a quem o homem nascido em Luanda doou o acervo em 2021.
Na nota de "grande pesar" da fundação sediada no Porto, pode ler-se que Simões de Carvalho estava "a poucos dias de completar 97 anos de idade" e que dedicou a vida "à arquitetura e ao planeamento, pautada por uma constante procura de liberdade conceptual e de sintonia com as correntes internacionais".
Conhecido pelo estudo e trabalho relacionado com o betão e o brutalismo, assinou projetos como a moradia do Restelo, menção honrosa do Prémio Valmor em 1978, as novas instalações da Administração do Porto de Lisboa (1989), o Hotel Continental, em Lisboa, entre outros projetos.
Em maio deste ano, recebeu o Prémio Carreira da Secção Regional Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitetos, "pela conceção de uma das maiores tentativas de urbanismo socialmente integrado feitas em África", por formar "gerações de arquitetos portugueses" e "por uma vida em que o desenho da cidade nunca foi separado das pessoas que nela iam viver".
Foi professor na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e tem como obra "icónica" a Casa-Atelier que leva o seu nome, em Queijas, Oeiras, e que, em 2025, foi proposta como monumento de interesse público pela Património Cultural.
O imóvel brutalista encontrava-se então à venda, tendo sido projetado nos anos 1970 naquele concelho do distrito de Lisboa.
"[A Casa-Atelier é a] verdadeira síntese e expressão de um modo muito próprio de fazer arquitetura: de grande rigor construtivo, fiel a uma matriz "corbusiana" e assente na defesa da verdade dos materiais", descreve a Fundação Marques da Silva.
Fernão Simões de Carvalho nasceu em Luanda e veio a formar-se em Lisboa, na Escola Superior de Belas Artes, tendo trabalhado no Gabinete de Urbanização do Ultramar, entre 1955 e 1956.
Partiu para Paris e colaborou com André Wogenscky, em projetos como o Unité d"Habitation, em Berlim, Nantes e Briey-en-Forêt, o Convento de La Tourette ou o Pavilhão do Brasil da Cidade Universitária da capital francesa.
O trabalho com "betón brut" fê-lo regressar a Angola, nos anos 1960, e lá projetou vários edifícios modernistas, entre eles o Centro de Radiodifusão de Luanda, com José Pinto da Cunha e Fernando Alfredo Pereira.
Aquando do Prémio Carreira, a secção regional da Ordem dos Arquitetos notou que, no campo do urbanismo, criou o Gabinete de Urbanização da Câmara de Luanda, em 1961, de onde sai uma obra "que define a sua carreira", a Unidade de Vizinhança n.º 1, em Prenda, com 30 hectares, 22 edifícios, projetados entre 1963 e 1965 com Luíz Taquelim da Cruz.
"É o Le Corbusier do sistema das sete vias, do Modulor e do betão, transportado para África. Mas com uma diferença fundamental, que vinha sobretudo de Auzelle: a integração social. Africanos e europeus, pobres e ricos, na mesma unidade de vizinhança, em percentagens semelhantes. Bairros-escola. Equipamentos de proximidade. Assistentes sociais no terreno. Uma cidade misturada, num país que se queria separado. Não foi inteiramente cumprido", pode ler-se no discurso de atribuição, pela arquiteta Célia Maia, que em 2017 propôs a classificação da Casa-Atelier.
Depois do 25 de Abril de 1974, foi para o Brasil e, no Rio de Janeiro, trabalhou com Horácio Camargo e Maurício Roberto, numa fase em que planeou o projeto Cidade Vilas do Atlântico.