“Estamos a fazer história”: Portugal e Cabo Verde reforçam cooperação na formação de professores de EMRC

“Estamos a fazer história”: Portugal e Cabo Verde reforçam cooperação na formação de professores de EMRC

  • 09/09/2026 02:05
  • Redação

Mais de 80 professores de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) de Cabo Verde participam numa formação promovida em conjunto por instituições dos dois países, numa iniciativa que pretende reforçar a preparação dos docentes e consolidar a presença da disciplina no sistema educativo cabo-verdiano.

A formação decorre durante dois dias, na Praia e no Mindelo, reunindo professores das ilhas de Santiago e São Vicente. A iniciativa resulta da parceria entre a Escola Universitária Católica de Cabo Verde, a Comissão Nacional de Educação Cristã de Cabo Verde e o Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC) de Portugal.

Portugal participa no encontro através de Fernando Moita, secretário da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé e diretor do SNEC, António Cordeiro, coordenador do Departamento de EMRC do SNEC, e vários elementos da equipa nacional de apoio à disciplina, além do professor Luís Silva, da Diocese de Aveiro.

A cooperação entre as Igrejas de Portugal e Cabo Verde na área da EMRC começou em 2019, quando a disciplina começou a ser implementada, em regime experimental, em algumas escolas cabo-verdianas.

Desde então, Portugal tem acompanhado esse processo através da partilha de experiências, referenciais curriculares, materiais didáticos e formação de professores. Durante a pandemia, a colaboração prosseguiu através de ações de formação realizadas à distância.

Para Fernando Moita, a atual iniciativa representa mais um passo nesse percurso conjunto. “Tem sido belo este caminharmos em conjunto”, afirmou, sublinhando a intenção de responder às necessidades concretas dos professores e contribuir para a consolidação da EMRC nas escolas cabo-verdianas.

O responsável considera igualmente importante transmitir aos docentes cabo-verdianos a experiência acumulada em Portugal e a importância da presença da disciplina junto das crianças, adolescentes e jovens.

“Para dizer a cada criança que és importante, tens um papel muito importante na sociedade, tu és chamado a colaborar e a construir a sociedade”, explicou em declarações ao Educris, enquadrando esta missão numa perspetiva cristã assente na dignidade e responsabilidade de cada aluno.

Entre os principais objetivos da formação estão a reflexão sobre a identidade e o papel da EMRC enquanto disciplina escolar, as metodologias pedagógicas, os processos de avaliação e a comunicação no mundo digital. A produção de materiais pedagógicos e a análise dos desafios futuros da disciplina fazem também parte do programa.

O padre José Afonso, presidente da Comissão Nacional da Educação Cristã de Cabo Verde, destacou precisamente estas dimensões e lembrou que a EMRC possui “um estatuto próprio e metodologia específica”, não devendo ser confundida com a catequese, embora exista uma relação de complementaridade entre ambas.

Na abertura dos trabalhos, o bispo de Santiago e grão-chanceler da Escola Universitária Católica de Cabo Verde, D. Teodoro Mendes Tavares, destacou a importância da educação na missão da Igreja.

O bispo defendeu uma educação orientada para a formação integral da pessoa e para o bem da sociedade, lembrando também as exigências colocadas atualmente aos professores.

“Ser professor, ser professora, exige muito sacrifício, resiliência, enfrentar todas as dificuldades diárias e coragem para enfrentar e vencer os desafios”, afirmou.

António Cordeiro reforçou, por sua vez, que a EMRC procura contribuir para a educação integral dos alunos, tendo Jesus Cristo como fundamento e referência.

“A educação integral dos alunos (...) configura e assume o contributo identitário da disciplina de EMRC”, afirmou, defendendo uma educação capaz de “harmonizar cabeça, coração e mãos” e ajudar cada aluno a crescer enquanto pessoa e na relação com os outros.

O responsável deixou ainda um apelo à valorização da educação como responsabilidade de todos: “Educar é um ato de amor – ‘coração a coração’. É um ato de Esperança que não engana.”

Já o bispo do Mindelo, D. Ildo Fortes, considera que a consolidação da Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) em Cabo Verde representa um momento histórico para a Igreja, destacando a responsabilidade dos professores e a importância da cooperação com Portugal.

“Quando olho para o percurso da EMRC entre nós, não posso deixar de reconhecer que estamos a viver um momento muito bonito e, de certo modo, histórico”, afirmou o bispo, em declarações citadas pelo Educris.

“Estamos a fazer história!”, acrescentou D. Ildo Fortes, considerando a implementação da disciplina uma “graça” que deve ser acolhida com humildade, responsabilidade e ação de graças.

O bispo agradeceu igualmente a colaboração do Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC), de Portugal, salientando a proximidade e disponibilidade demonstradas ao longo deste processo.

Na sua intervenção, recordou ainda D. Tomaz Nunes e o empenho que, enquanto bispo auxiliar de Lisboa, dedicou à causa da EMRC.

Para D. Ildo Fortes, o crescimento da EMRC em Cabo Verde implica também uma responsabilidade acrescida para os professores, que considera fundamentais para a credibilidade da disciplina junto da sociedade.

“Precisamos de fazer este trabalho com qualidade, com competência, dedicação e seriedade, à altura daquilo que se espera de um verdadeiro professor de EMRC”, afirmou.

O bispo sublinhou que a preparação, o testemunho e a qualidade do trabalho dos docentes serão determinantes para a afirmação da disciplina.

“A credibilidade da EMRC na sociedade cabo-verdiana dependerá muito da qualidade do nosso trabalho, da nossa preparação, do nosso testemunho e da forma como soubermos desempenhar esta missão”, acrescentou.

Nesse contexto, D. Ildo Fortes defendeu a formação contínua dos professores, lembrando que “quem não se forma, estagna”.

A formação, explicou, não deve ser encarada apenas como um processo individual, mas como uma oportunidade para construir uma verdadeira comunidade entre os docentes.

“Precisamos uns dos outros. Precisamos de partilhar experiências, dificuldades, descobertas e esperanças. Precisamos de caminhar juntos”, afirmou.

A intervenção do bispo abordou também a dimensão evangelizadora da disciplina. Para D. Ildo Fortes, a presença da EMRC nas escolas constitui uma oportunidade para a Igreja chegar às crianças e aos jovens através da educação.

“A EMRC é uma janela que se abre para a Missão da Igreja. É uma oportunidade extraordinária de anúncio do Evangelho”, afirmou.

O bispo fez questão de distinguir esta presença de qualquer forma de proselitismo, defendendo uma ação educativa assente no respeito pela liberdade dos alunos e das famílias.

“Não é proselitismo”, sublinhou, explicando que se trata de uma presença que procura, “com delicadeza e liberdade”, lançar “raízes do Evangelho nos corações de tantas crianças e também nas suas famílias”.

Na perspetiva de D. Ildo Fortes, aquilo que é transmitido numa sala de aula pode permanecer durante muitos anos na vida de uma pessoa, conferindo aos professores uma responsabilidade que ultrapassa a simples transmissão de conhecimentos.

“A Igreja conta convosco. As nossas crianças e os nossos jovens contam convosco”, afirmou, dirigindo-se aos docentes.

No encerramento da intervenção, o bispo do Mindelo voltou a agradecer aos professores e aos formadores portugueses envolvidos na iniciativa e deixou um apelo à continuidade deste caminho de cooperação.

“Continuemos a fazer história, com competência, com espírito de comunhão e, sobretudo, com a alegria de servir o Evangelho”, concluiu.

  • Fonte: Rádio Renascença
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