Olhar a pessoa

Olhar a pessoa

  • 09/09/2026 01:28
  • Redação

Num tempo que corre depressa, em que apontamos a resultados rápidos, à eficácia das respostas, a processos eficientes, a serviços diferenciadores, olhamos para tudo e para todos como meios para atingir estes objetivos.

O Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica Humanitas exorta-nos a três desafios: a olhar a pessoa, a desarmar as palavras e a tomar a posição do outro. Estes reptos não devem ser encarados como meros propósitos, mas como transformadores e fundacionais.

As nossas palavras são, muitas vezes, embebidas de agressividade, de confronto, funcionando como “armas” que desunem, que afastam. Construímos a partir de nós mesmos, das nossas razões, dos nossos pontos de vista e não nos detemos a tomar em consideração a posição do outro, o seu ponto de vista. Escolhemos pessoas que pensam como nós e não nos damos ao trabalho de “perder tempo” com as que olham e interpretam de forma distinta as mesmas realidades.

Mas o maior desafio, que está na base dos dois anteriores, é olhar o outro como pessoa, com a sua história de vida, na integralidade do seu ser. É difícil, porque o desafio começa em nós mesmos: nem sempre nos apresentamos simplesmente como pessoas. Normalmente, preferimos as nossas medalhas, os nossos cargos e os títulos que ornamentam a nossa vida, as responsabilidades que temos e que nos ocupam ou, pior ainda, o materialismo de que nos rodeamos. Tudo isso é passageiro e não chega à essência de nós mesmos, do nosso ser. Afinal, quem sou eu?

Não conseguiremos descobrir o outro se não nos apresentarmos como pessoas, com a nossa leitura do mundo, a nossa história e os nossos sonhos, aquilo que nos move e a forma como servimos. Ou, mais difícil ainda, com as nossas dificuldades, fragilidades e dúvidas. Tudo faz parte de um caminho de crescimento e, quanto mais conseguirmos ir ao fundo de nós mesmos, mais conseguiremos conhecer os outros.

O médico tende a olhar o paciente, o professor olha o aluno, o juiz julga o arguido, o polícia aproxima-se do prevaricador, o patrão dá ordens ao empregado. E, para se ser objetivo, no âmbito das nossas responsabilidades, não conseguimos, na maioria das vezes, ir além das realidades especificas que nos são colocadas. O desafio é que, ao habituarmo-nos a olhar apenas para as nossas responsabilidades específicas - que exigem respostas e soluções - perdemos o “treino” de ir ao fundo de nós mesmos para podermos ver a pessoa que há no outro.

Jesus foi quem nos ensinou que podemos “olhar para lá do que se vê”, “escutar para lá do que se ouve”, “entender para lá da razão”, ou seja, a atender à realidade que se nos apresenta de forma diferente, próxima, compassiva, transformadora.

Estaremos nós disponíveis para viver e experimentar de um modo novo? Neste tempo de inteligência artificial, é fundamental avançar com critério e ética. De outra forma, corremos o risco de perder de vista a pessoa e de a reduzir a mais um recurso ao serviço da organização.

  • Fonte: Rádio Renascença
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