«9/11»: o nascimento do século XXI
- 09/09/2026 02:06
- Redação
Os norte-americanos chamam-lhe «9/11». Noutros países é o «11 de setembro». Foi em 2001, há 25 anos, numa luminosa manhã de céu azul, cruzado pelos quatro aviões sequestrados pelos comandos terroristas da Al-Qaeda e dirigidos às duas torres gémeas, em Nova Iorque, ao Pentágono e – especula-se em relação ao quarto avião, despenhado na Pensilvânia – ao Congresso ou à Casa Branca, em Washington.
A horrenda espetacularidade do atentado assinalou o nascimento do nosso século XXI, porque o impacto daquela insanidade bárbara não se fez sentir apenas nos EUA (cujo território não era atacado por um inimigo externo desde o bombardeamento japonês de Pearl Harbour em 1941), mas, em catadupa, por todo o mundo. Ao nível da ordem e das relações internacionais, o fim da Guerra Fria, em 1989-91, fora um ponto de viragem, positivo quanto à promoção da liberdade e da democracia. Triunfante sobre a URSS, a «pax americana» (e europeia, embalada pelo otimismo conducente a Maastricht) venceu logo depois a Guerra do Golfo. De uma assentada, o comunismo e o islamismo pareceram derrotados ou aquietados, o que suscitou leituras demasiado teleológicas de que a História chegara ao seu fim. Todavia, se velhos inimigos se tornaram (aparentemente) mais amigos (a Rússia de Ieltsin perante a América de Clinton), o ódio islâmico ao grande «satã» ocidental apenas hibernou o tempo indispensável para se reorganizar. E reorganizou-se nas mãos de Osama Bin-Laden, o cérebro da Al-Qaeda. Foi já ele a mão oculta que comandou o primeiro atentado às torres gémeas, em Manhattan, em fevereiro de 1993, ou as explosões nas embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quénia, em agosto de 1998. No verão de 1999, o FBI pôs-lhe a cabeça a prémio, oferecendo uma recompensa de 5 milhões de dólares. Em setembro de 2001, os seus fiéis e fanatizados sequazes demonstraram, com razia, sangue e choque, a vulnerabilidade da América de George Bush.
A solidariedade europeia e em grande parte global em relação aos EUA foi óbvia e justificada, por os EUA serem então o que hoje parecem estar a deixar de ser – um referente líder da moral política e da decência diplomática no mundo. A «guerra ao terror» lançada por Bush era natural e justificada, embora depois tenha provocado diversos efeitos contraproducentes, no Afeganistão ou no Iraque, na Síria ou no Iémen, no fundo resultantes de um dilema até hoje irresolúvel: como se pode lutar “lealmente” com quem apenas deseja a nossa destruição? Como vencer o terror do fanatismo islâmico com as armas da democracia? Como garantir a neutralização de um inimigo multiforme, tentacular e metastizado pelo mundo fora? Depois de 2001 e até cerca de 2015-16, a Al-Qaeda ou os grupúsculos bárbaros do autoproclamado «Estado Islâmico» (o ISIS) varreram o mundo com atentados bombistas, da Europa a África, do Médio Oriente ao Sueste Asiático. Foi (e é) o novo (a)normal. E foi pelo «11 de setembro» que passámos a viver com um medo difuso, olhando por cima do ombro, nas ruas, nos mercados, nos autocarros, nos comboios ou nos aeroportos.
Na atualidade, há cerca de 100 milhões de americanos nascidos depois do «9/11»; em Portugal, um pouco mais de dois milhões. São estas juventudes que farão o mundo de amanhã a partir do presente. É um presente que precisa de recordar aquele dia e tragédia do passado, num mundo em que a erosão da América e da Europa, da moralidade democrática, da lei internacional e dos grandes acordos e pilares da paz é tendência visível. Se essa maré se tornar irreversível, poderemos então dizer (e lamentar) que os herdeiros dos autores do «11 de setembro» finalmente terão triunfado sobre todos os outros, que somos um enorme (e desunido) “nós”.