“Regredimos 20 anos” nas aprendizagens. Por que razão não seguimos o exemplo de Inglaterra?

  • 09/09/2026 04:00
  • Redação

A mesma pandemia, escolas fechadas e uma geração que chegou à adolescência depois de passar parte dos primeiros anos de escolaridade longe das salas de aula.

Portugal e Inglaterra partilham a mesma realidade, mas os resultados mais recentes do relatório PISA revelam trajetórias diferentes: se Portugal recuou para níveis de há quase duas décadas, a Inglaterra conseguiu preservar e, em algumas áreas, até melhorar o desempenho dos alunos.

O relatório da OCDE dedicado à Educação avaliou o desempenho de mais de 760 mil alunos de 15 anos, em 91 países, nas áreas de Ciências, Leitura e Matemática.

No caso português, os alunos obtiveram 462 pontos em Leitura, 460 em Matemática e 482 em Ciências. O resultado da Leitura ficou oito pontos abaixo do registado em 2000, quando o país participou pela primeira vez no estudo. Em Matemática, Portugal aproximou-se do valor alcançado em 2003. Depois de uma melhoria consistente até 2015, ano em que superou pela primeira vez a média da OCDE nas três áreas, o país viu desaparecer uma parte significativa desse progresso.

“Estes resultados são das crianças que tinham cerca de 10 anos quando a pandemia aconteceu. Em Portugal, deixámos as escolas fechadas muito tempo e depois não fizemos o suficiente para recuperar estas crianças”, sustenta.

O especialista considera que as perdas iniciais foram agravadas pelas dificuldades que o sistema educativo português enfrentou nos anos seguintes, entre as quais a falta de professores, as greves e as interrupções no funcionamento das escolas.

Em sentido contrário, sublinha, “Inglaterra investiu bastante na recuperação destas crianças durante a pandemia e manteve um grau muito sério de exigência nas escolas. Essa aposta gerou frutos e os resultados estão à vista”.

Miguel Herdade entende que estes resultados confirmam os alertas feitos sobre a ineficácia dos programas de recuperação das aprendizagens que, segundo diz, não receberam o investimento necessário nem foram aplicados de forma suficientemente rigorosa.

“Nós nem sabemos se o pouco dinheiro que se investiu para recuperar as aprendizagens foi para as escolas mais ricas ou para as escolas mais pobres. No limite, pode ter ido para os alunos que menos precisavam”, alerta.

A comparação internacional obriga a distinguir Inglaterra do conjunto do Reino Unido, uma vez que os diferentes territórios têm sistemas educativos próprios.

No caso do País de Gales, os resultados mais recentes confirmam também a continuação de uma trajetória descendente, à semelhança do que aconteceu em Portugal.

Miguel Herdade encontra nesta coincidência um argumento para defender a importância das opções curriculares.

“Há dois modelos possíveis: um com base nos conhecimentos e na exigência, que foi o que tivemos até 2015 e é o que Inglaterra tem agora; outro com base nas competências e no facilitismo. Esse segundo modelo não funcionou”, afirma.

O especialista associa ainda a deterioração dos resultados portugueses às Aprendizagens Essenciais, introduzidas durante os governos do PS, considerando que contribuíram para reduzir a profundidade dos conteúdos e o grau de exigência colocado sobre os alunos.

Trata-se de uma interpretação de Miguel Herdade, uma vez que os resultados do PISA, por si só, não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre aquela orientação curricular e o retrocesso registado pelos alunos portugueses.

Apesar da dimensão do retrocesso português, Miguel Herdade recusa que os resultados sejam vistos como uma sentença definitiva sobre esta geração.

“Não podemos deitar a toalha ao chão. Temos de ver o que ainda pode ser feito, apesar de haver claramente uma geração muito prejudicada pela pandemia”, conclui.

  • Fonte: Rádio Renascença
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