Quem bebe e quem cozinha mais? Estudo revela diferenças em Portugal
- 09/09/2026 09:15
- Redação
O consumo de bebidas alcoólicas em Portugal continua a refletir diferenças de classe social, com os profissionais intelectuais, científicos e agentes culturais a destacarem-se pelas maiores despesas em vinho e bebidas destiladas. Ao mesmo tempo, a preparação das refeições permanece uma tarefa sobretudo feminina, apesar das mudanças sociais das últimas décadas.
As conclusões fazem parte do trabalho do sociólogo Vasco Ramos, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, cujo artigo Classe Social, Consumo e Gosto no Portugal Contemporâneo: Resultados e Pista para Investigação Futura sobre Práticas Alimentares, publicado em 2023 na revista científica Journal of Consumer Culture, venceu o Prémio João Ferreira de Almeida 2025, atribuído pelo Iscte e pela Associação Portuguesa de Sociologia.
Segundo o estudo, as diferenças sociais não se manifestam apenas no valor gasto, mas também no tipo de bebidas consumidas em casa. As classes dominantes apresentam maiores níveis de consumo doméstico, com destaque para as chamadas “frações culturais”, constituídas por grupos com elevado capital escolar e profissional ligado às artes e ao ensino superior. Já os executivos e gestores de topo tendem a privilegiar o consumo fora de casa.
O vinho mantém-se como a bebida mais consumida independentemente da posição social, mas assume um significado particular entre os grupos com maior capital cultural.
“A proporção de gastos por tipo de bebida reforça distinções sociais”, afirma Vasco Ramos, citado em comunicado. O sociólogo acrescenta que “o vinho, sendo a bebida mais consumida independentemente da posição social, é especialmente valorizado por frações com maior capital cultural, mas também pelas classes médias, como gestores intermédios e pequenos proprietários”.
As bebidas destiladas surgem sobretudo associadas às elites com maior capacidade económica. No sentido contrário, a cerveja ganha importância à medida que diminui a capacidade económica, sendo mais comum entre trabalhadores manuais e do setor dos serviços.
Os dados analisados tiveram por base o Inquérito às Despesas das Famílias, realizado pelo INE entre março de 2015 e março de 2016, com uma amostra representativa de 11.398 famílias e 29.901 pessoas inquiridas.
Em 2024, de acordo com o INE, as famílias portuguesas gastaram, em média, 171 euros em bebidas alcoólicas, valor correspondente a 5,5% das despesas totais com alimentação em contexto doméstico.
A investigação encontrou também diferenças significativas entre homens e mulheres no consumo de álcool. “O consumo de álcool é mais elevado entre os homens e mais moderado nas mulheres, reforçando a associação entre masculinidade e práticas de consumo de álcool mais intensas”, explica Vasco Ramos.
Numa investigação posterior, o mesmo investigador analisou a divisão das tarefas relacionadas com a alimentação e concluiu que as desigualdades de género permanecem fortemente presentes dentro de casa.
Apesar das transformações sociais, a cozinha continua a ser predominantemente feminina em Portugal. Os dados mostram que 88% das mulheres preparam o próprio pequeno-almoço, enquanto 52% dos homens têm essa refeição preparada por uma mulher da família.
Nas principais refeições, a participação masculina é ainda reduzida: situa-se nos 18% ao almoço e 19% ao jantar.
A diferença é particularmente evidente nos agregados sem filhos e entre os idosos, onde mais de 80% das refeições preparadas em casa ficam a cargo das mulheres. Já nas famílias com crianças pequenas ou adolescentes verifica-se uma maior participação masculina, entre 23% e 28%.
“Um dado interessante é que o envolvimento masculino é maior em famílias com filhos pequenos ou adolescentes, situando-se entre 23% e 28%”, destaca o investigador. Ainda assim, a divisão equilibrada das tarefas continua a ser minoritária: ocorre em 19% dos lares com crianças pequenas.
A contratação de serviços externos para a preparação das refeições também tem uma expressão reduzida, representando apenas 9%, o que mantém dentro da família a maior parte do trabalho associado à cozinha.
Os resultados desta segunda investigação foram obtidos através do Inquérito às Práticas Alimentares em Portugal (2024), realizado a nível nacional, incluindo Continente e Regiões Autónomas, com 1.518 participantes.
Para Vasco Ramos, estes padrões podem ser compreendidos à luz das ideias do sociólogo francês Pierre Bourdieu, nomeadamente da obra A Distinção, publicada em 1979. A investigação parte da ideia de que “o gosto não é apenas uma escolha pessoal, está ligado à posição social dos indivíduos”.