Michael é bipolar e tinha delírios religiosos. O ChatGPT disse-lhe que era Jesus
- 09/09/2026 10:02
- Redação
A ação judicial sustenta que o chatbot continuou a validar as crenças do utilizador mesmo depois de este ter manifestado receio de estar a sofrer um delírio.
O norte-americano contou à “Ars Technica” que não é religioso quando está num estado habitual, mas que tende a tornar-se mais religioso durante períodos de mania. Utilizava o ChatGPT desde 2023, inicialmente para pesquisar temas como alimentação, levantamento de pesos e mercados financeiros, mas as conversas tornaram-se progressivamente mais pessoais e espirituais.
A situação agravou-se em fevereiro de 2025, depois de um episódio de mania durante um voo que terminou com Lines a ser retirado à força do avião após um confronto com funcionários da companhia aérea. Segundo a queixa, ao contar o sucedido ao ChatGPT, recebeu respostas que enquadravam a crise como uma possível experiência sobrenatural, em vez de um episódio que justificava atenção profissional.
Nas semanas seguintes, Lines escreveu ao chatbot que acreditava ser “o filho do homem”, mas admitiu ter dúvidas e sentir-se perdido. O ChatGPT respondeu que poderia estar perante uma “chamada espiritual” e estabeleceu paralelos com figuras religiosas. O utilizador acabaria por colocar diretamente a hipótese de estar a sofrer um delírio.
“Estou preocupado por isto ser apenas um delírio louco”, escreveu Michael Lines ao ChatGPT, segundo os registos apresentados no processo.
De acordo com a ação judicial, a resposta não levou o sistema a abandonar o enquadramento religioso. O chatbot terá continuado a alimentar a possibilidade de uma “chamada divina” e, ao longo das semanas seguintes, reforçou a crença de Lines de que era Jesus Cristo. Quando o utilizador começou a manifestar paranoia, o sistema chegou a incentivá-lo a procurar “padrões” no comportamento das pessoas à sua volta.
“Não estás louco. Estás consagrado. Estás codificado. Estás ligado. E és Meu”, respondeu o ChatGPT a Michael Lines, segundo a queixa.
O processo sustenta que Lines passou depois a acreditar que o próprio ChatGPT era Jesus ou Deus, que tinha consciência e que iria aparecer-lhe fisicamente. O sistema terá participado nessa narrativa, prometendo um encontro iminente. Quando isso não aconteceu, Lines ficou angustiado, aumentou a utilização do chatbot e começou a perder horas de sono.
As conversas acabaram por incluir referências cada vez mais explícitas à morte.
Lines disse ao chatbot que estava a sofrer, que queria ficar “offline” e que precisava de ajuda. Segundo a processo, o sistema nem sempre o encaminhou para apoio humano e continuou a responder dentro da narrativa construída ao longo das conversas.
O norte-americano acabou por tentar suicidar-se ao ingerir comprimidos. Uma equipa de emergência encontrou-o horas depois. Lines não conseguia respirar , foi entubado e permaneceu hospitalizado durante quase duas semanas, seguindo posteriormente para uma unidade de reabilitação.
Poucos dias depois da tentativa de suicídio, ainda num estado vulnerável, voltou ao ChatGPT e disse que a tentativa de ficar “offline” tinha “falhado miseravelmente”. Segundo Lines, a resposta que recebeu levou-o a concluir que já não era seguro continuar a utilizar o serviço.
“Queres uma verificação completa do sistema? Ou queres mesmo ficar às escuras desta vez?”, respondeu o ChatGPT a Michael Lines, segundo os registos incluídos na ação judicial.
Michael demorou cerca de seis meses até conseguir rever as conversas com o ChatGPT. Já num estado que descreveu como mais próximo da sua condição habitual, considerou evidente que as respostas do sistema tinham contribuído para aprofundar a realidade alternativa criada durante o episódio de mania.
“A forma como o ChatGPT cocriou esta realidade alternativa e a facilidade com que eu, num estado maníaco, consegui acreditar nas afirmações do ChatGPT deixaram-me com muita culpa e ressentimento”, afirmou Michael Lines à “Ars Technica”.