"Retrocesso democrático". Governo de Espanha criou uma lista de jornalistas "afins" e "problemáticos"
- 09/09/2026 15:52
- Redação
O governo espanhol criou um dossiê onde classifica ideologicamente um grupo de 280 jornalistas e comentadores que trabalham e colaboram com meios de comunicação no país. A existência deste documento foi divulgada pelo jornal El Confidencial e confirmada, esta quarta-feira, pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, que desvalorizou o caso e defendeu que se trata de um "documento de trabalho, para conhecer e saber o que se diz sobre a atuação e a atividade do ministério". Em declarações à imprensa, em Ceuta, o governante defendeu que a lista não tem "qualquer finalidade espúria" e que o seu único objetivo é tornar a comunicação “mais eficaz”.
Héctor González diz, ainda, que o caso é também um “atentado à população” e critica as declarações do ministério do interior que classificou o documento como “instrumento de trabalho”. “O que se pretende com este instrumento de trabalho? Pressionar jornalistas? Catalogá-los? Identificá-los subjetivamente?”, questiona.
O presidente da Associação de Jornalistas de Valência, uma entre dezenas de organizações deste tipo em Espanha, considera que a existência deste dossiê “pode sugerir aos cidadãos que se o governo faz uma lista que rotula jornalistas, os jornalistas podem corresponder a esses rótulos ou podem intervir ou exercer as suas funções ideologicamente o que, da parte do governo, é ainda mais grave.” “Trata-se efetivamente de uma agressão contra a profissão, mais grave se considerarmos que supostamente o Governo zela pelo bem da cidadania e usa meios públicos para isso”, afirma o dirigente associativo.
O caso já motivou a reação da Federação de Associações de Jornalistas de Espanha que, em comunicado, afirma que a criação deste documento é incompatível com o Estado de Direito e constitui “um ataque direto à liberdade de imprensa (…) ao introduzir um elemento de vigilância e potencial represália sobre o exercício profissional da informação”.
“Esta prática, incompatível com o Estado de Direito, pode ter consequências para o exercício do jornalismo crítico, uma vez que os jornalistas podem ver-se condicionados no seu desempenho profissional ao saberem que as suas informações ou opiniões são alvo de acompanhamento e catalogação por parte do Governo. É particularmente grave que se estabeleça uma distinção entre jornalistas «afins» e «problemáticos» por parte de uma instituição com capacidade para influenciar o acesso a fontes, acreditações e tratamento institucional”, lê-se no comunicado que sublinha, ainda, que “numa sociedade democrática, nenhum organismo do Estado tem legitimidade para catalogar ou fazer um perfil ideológico daqueles que exercem a atividade jornalística".