"Um galão custa dois euros, um latte custa cinco". Cineasta Ruben Alves chocado com Lisboa

"Um galão custa dois euros, um latte custa cinco". Cineasta Ruben Alves chocado com Lisboa

  • 10/09/2026 01:30
  • Redação

O novo filme de Ruben Alves, o realizador de “Gaiola Dourada”, cruza humor, tradição e um retrato crítico da atual transformação que a cidade de Lisboa está a viver. “Santo António – o Casamenteiro de Lisboa” chega aos cinemas esta quinta-feira, 10 de setembro, e conta com um elenco de luxo.

O realizador nascido em França, filho de emigrantes portugueses, regressa ao grande ecrã com uma história inspirada numa das tradições de Lisboa, os Casamentos de Santo António.

O filme acompanha a vida de Carmo e Valentim, dois funcionários da Câmara Municipal de Lisboa que, há mais de duas décadas, são responsáveis pela organização da tradicional cerimónia dos casamentos celebrada nas Festas de Lisboa e que marca o Dia de Santo António, o padroeiro da capital portuguesa.

Através da história destas personagens, Ruben Alves constrói uma narrativa que é uma sátira da vida da Lisboa contemporânea, quando uma empresa francesa é contratada para transformar os tradicionais casamentos num grande evento mediático e comercial.

Passada numa Lisboa que poderia ser a de 2026, a comédia apresenta uma cidade cada vez mais procurada pelo turismo internacional e que cede a todo o custo a sua identidade para ir ao encontro de um novo visitante, gerando um conflito entre a manutenção das tradições e as exigências da modernidade.

Para Ruben Alves, esta tensão reflete uma realidade que a cidade atravessa. “O filme procura perceber o que acontece a uma capital europeia que vive um processo acelerado de modernização. Nem tudo é positivo, nem tudo é negativo. Há benefícios evidentes, mas também existe o risco de perdermos parte da identidade que torna Lisboa especial”, afirma.

O realizador prefere enquadrar estas mudanças numa lógica mais ampla de “globalização” e não tanto numa questão de “turistificação”

“O turismo trouxe desenvolvimento, infraestruturas renovadas e investimento. O problema é quando a globalização começa a engolir o carácter único da cidade”, aponta o realizador, que foi desafiado pelo espanhol Fer Pérez para fazer o filme.

Ruben Alves divide a sua vida entre França e Portugal. Essa experiência permite-lhe observar Lisboa com um olhar simultaneamente próximo e distante. O cineasta mostra-se preocupado com algumas mudanças que tem testemunhado na cidade, sobretudo ao nível do comércio local.

“Há espaços que parecem existir exclusivamente para turistas. Entramos num café ou restaurante em Lisboa e, por vezes, ninguém fala português. O menu está em inglês. Isso é algo que me choca, porque não vejo acontecer da mesma forma em cidades como Paris, Madrid ou Roma”, considera.

O realizador dá como exemplo situações do quotidiano que, na sua perspetiva, ilustram uma crescente descaracterização da cidade e uma adaptação excessiva a um público estrangeiro.

“Há dois dias fui a um café português e pedi uma tosta e um galão, mas queria o galão frio e pedi: 'Desculpe, posso ter o galão frio?' e responderam-me: 'Um latte' e eu 'sim, quer dizer, é um nome, mas é um galão frio' e voltaram a dizer-me: 'É um latte'. A questão é que o galão estava a dois euros e o latte estava a cinco euros!”, lamenta o realizador.

Para dar vida a “Santo António, o Casamenteiro de Lisboa”, Ruben Alves reuniu um elenco que combina várias gerações de atores. Alguns são figuras do cinema, teatro e televisão, entre eles os protagonistas Rita Blanco e Joaquim Monchique.

Ruben Alves confessa que a vontade de voltar a trabalhar com Rita Blanco, com quem fez “Gaiola Dourada”, levou-o a este filme. Além da atriz, o elenco conta com outros nomes de peso como Joaquim de Almeida, Maria João Bastos, Albano Jerónimo, Maria Rueff, Isabel Abreu, Ana Bola, Lídia Franco, Rui Mendes ou Vasco Pereira Coutinho.

“Quis juntar atores de diferentes gerações e percursos. Comediantes, atores de teatro, de televisão e de cinema. Essa mistura cria uma energia muito especial e traz uma riqueza enorme às personagens”, explica Ruben Alves, que considera esse um dos trunfos do seu filme.

Alguns dos atores, como Maria Rueff, Joaquim Monchique ou Ana Bola, o público está habituado a vê-los associados à comédia. Na opinião de Ruben Alves, “os grandes cómicos carregam muitas vezes uma profundidade emocional extraordinária. Quando exploram o lado mais humano e até mais trágico das personagens, conseguem ser extremamente poderosos”, afirma.

O trabalho de escolha do elenco foi desenvolvido em parceria com a diretora de casting Patrícia Vasconcelos, numa aposta clara em reunir talentos consagrados e atores mais jovens.

“Quis trazer de volta atrizes e atores que marcaram gerações e que hoje aparecem menos vezes no cinema”, diz o cineasta, que cruza esses artistas com caras menos conhecidas.

“Gosto muito de ver pessoas que não se veem tanto, também porque para mim não há pequenos e grandes papeis, ou seja, eu adoro atores como a Margarida Antunes que tem um pequeno papel, mas que é fortíssimo, ou seja, marca. São atrizes boas que se caracterizam numa ou duas frases e, de repente, está lá um mundo”, explica.

  • Fonte: Rádio Renascença
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