"Pode ser, mas temos de estudar". João Costa não cola resultados do PISA ao fim dos exames

  • 09/09/2026 19:24
  • Redação

O PISA 2025 traz números preocupantes, nomeadamente no domínio da Leitura e da Matemática?

Há uma queda nos resultados, obviamente preocupantes para Portugal e são preocupantes a nível global. São muito poucos os países que registam aumentos, são muitos os países que caem, são poucos os países que resistem a esta tendência de queda. No caso português, nós fizemos uma trajetória de aproximação à média da OCDE, continuamos na média, mas a média piora e, portanto, nós também pioramos. Portugal não tem um comportamento diferente da generalidade dos países, mas é um comportamento que é um comportamento negativo de pioria dos resultados.

Assume responsabilidades por ter estado, em grande parte dos anos do estudo, no cargo de ministro da Educação?

Quando estamos em funções públicas e estamos a assumir a responsabilidade de gestão do sistema, temos de dar a cara quando as coisas correm bem, temos de dar a cara quando as coisas correm mal, portanto, seria absolutamente irresponsável da minha parte assobiar para o lado e não dizer que não sou responsável.

Agora, dito isto, é preciso também perceber que estamos a olhar para dados que são de Portugal, mas que são semelhantes na Finlândia, França, Espanha, Noruega, por aí fora. E eu só fui ministro cá, não fui ministro nesses países todos, nem os outros ministros foram ministros em Portugal. Portanto, sempre a assumir a responsabilidade, mas também a responsabilidade de contribuir para interpretar estes dados.

E perante essa interpretação que acha necessária ser feita, que causas é que aponta para estes resultados?

Metodologicamente, eu diria que há um exercício que é simples de fazer: se nós temos uma tendência semelhante num conjunto muito grande de países, então temos de encontrar o que é que estes países têm em comum.

E o que estes países têm em comum são fatores externos muito pesados que impactaram nos sistemas educativos. Em primeiro lugar, ainda há efeitos da pandemia: não explica tudo porque esta trajetória já tinha iniciado antes da pandemia, mas é um fator comum em todos os países.

Temos um outro aspeto que é a relação dos jovens e da sociedade no geral com o digital, ou seja, o digital rouba tempo à leitura, o “digital para lazer”. Quando estamos muito tempo no “scroll” nas redes sociais, isso rouba tempo à leitura e, além disso, a leitura é uma atividade que requer tempo, complexidade e profundidade. Isso está nos antípodas do que é a relação com mensagens rápidas, vídeos de 20 segundos, chavões.

Mas nada disso põe em causa a utilização do digital dentro da sala de aula? Não pode levantar dúvidas sobre essa utilização dos equipamentos?

Acho que, aquilo que o atual Governo fez na legislação, está bem efeito. Ou seja, fazem uma distinção entre a proibição do smartphone para o que não é didático, mas autoriza para fins didáticos, porque é preciso também educar as crianças e os jovens para este mundo digital em que já estamos a viver. Não é fazemos de conta que não existe, que nós educamos.

Portanto [sobre as causas], temos a falta de professores: afeta porque se está a recrutar professores menos experientes, porque há períodos de tempo sem aulas. Isto também é um fator comum a estes países todos.

E algo que também emerge deste PISA é a relação escola-família e alguma desvalorização da educação. Os alunos que reportam no PISA que se sentem menos apoiados pelas famílias. E, obviamente, isto tem impacto também na forma como aprendem.

Isto são apenas pistas, nós precisamos agora de ler com atenção. Tenho lido algumas análises que dizem que foi porque Portugal acabou com os exames do 4.º e do 6.º ano.

Era essa a minha pergunta. Não está relacionado com a avaliação externa e com as mudanças que aconteceram desde 2015?

Temos de ter a humildade e a serenidade para avaliar todas as hipóteses. Todas. Agora, há contra factuais que devemos fazer. Primeiro, quando tivemos o melhor resultado depois de 2015, os alunos que foram ao PISA não tinham feito exames do 4.º e do 6.º ano.

Além disso, muitos dos países com performances de topo não têm exames precoces. E alguns países que até têm exames precoces estão na mesma trajetória descendente. Senão nós teríamos o Japão cá em baixo, que não tem exames desse tipo, ou teríamos a Estónia cá em baixo, que não tem exames desse tipo no 4.ºo ano.

Portanto, o que é que eu digo? Humildade. E não vou dizer que alguma dessas medidas que têm sido apontadas como explicativas não têm um fator explicativo. Isso pode ter, mas temos de estudar. E temos de estudar isso na comparação com os outros países.

Há pouco falava também da falta de professores. O Governo confirmou uma mudança nas antigas bolsas de recrutamento. Passa a ser um recrutamento diário. É uma medida positiva na sua perspetiva?

Não conheço o diploma ainda. Seria comentar no vazio, coisa que não gosto de fazer.

Ainda nesse tema. Por que é que Portugal tem tido também tanta resistência a conseguir fazê-lo? Foi um objetivo seu enquanto ministro e as vagas não cresceram exponencialmente. O que é que falta para se conseguir fazê-las crescer?

É preciso dar também às universidades os instrumentos financeiros para poderem receber mais alunos, porque mais alunos implica também mais docentes associados a esses mestrados. E, portanto, esse aumento de vagas tem de vir associado a um recurso financeiro.

Eu acho que este ano já se fizeram alguns contratos de programa com algumas instituições, mas ainda é insuficiente porque – e posso falar pela minha faculdade que forma de professores – continuamos a ter alunos com muito boas médias de final de licenciatura que querem entrar nos mestrados de ensino e ficam de fora por falta de vaga.

Durante muitos anos não houve procura para estes cursos. Agora, há jovens que querem ser professores e por isso agora é preciso acompanhar esta vontade com os instrumentos de capacitação das instituições.

  • Fonte: Rádio Renascença
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