"Não há alternativa menos dolorosa" à subida das taxas de juro
- 10/09/2026 05:29
- Redação
Questionado sobre se existe uma forma menos dolorosa de responder à inflação provocada, entre outros fatores, pelos efeitos da guerra, João Duque aponta para uma solução que considera evidente, mas que não está nas mãos das instituições económicas. "Havia uma ótima, mas infelizmente não está nas nossas mãos. Que era acabar com a guerra e pronto", afirma.
O economista considera que a dificuldade está precisamente no facto de se conhecer a origem de parte do problema sem existir capacidade para atuar diretamente sobre ela. "É estranho, mas toda a gente sabe onde é que está o problema, mas é difícil resolvê-lo. E quando temos esta situação, a medida que se devia tomar não se consegue executar", explica.
Perante a ausência de uma solução direta para o choque provocado pela guerra e pela energia, o BCE recorre ao principal instrumento que tem à disposição: as taxas de juro.
João Duque explica que o objetivo passa por tornar mais caro o acesso ao crédito e, dessa forma, reduzir o consumo financiado e o investimento. "O Banco Central Europeu tem na sua mão um instrumento, que é esse mesmo, que o que tenta fazer é controlar o acesso das pessoas ao consumo financiado", afirma.
O mecanismo atinge sobretudo quem depende de crédito para comprar bens de maior valor ou para concretizar investimentos. Quem dispõe de dinheiro próprio, explica, fica menos condicionado pela subida das taxas.
A consequência é inevitável: "Prejudica um bocadinho a economia", reconhece o economista. Mas, na sua avaliação, esse custo é preferível ao risco de deixar a inflação ganhar uma dinâmica própria.
O problema, segundo João Duque, não está apenas nos preços elevados que as famílias e empresas enfrentam atualmente. Está também na possibilidade de começarem a formar-se expectativas de que a inflação vai continuar a subir. É esse comportamento que o BCE procura evitar através das decisões sobre os juros, mas também através da comunicação.
A ideia é transmitir aos consumidores, empresas e trabalhadores que a inflação está a ser controlada e evitar que se forme uma espiral em que preços mais elevados conduzam a exigências salariais cada vez maiores e, posteriormente, a novos aumentos dos preços.
"As pessoas começam a convencer-se que isto de facto tem controlo, não é uma situação descontrolada", afirma.
Questionado sobre a estratégia que devem adotar aqueles que deixam de ter acesso a crédito facilitado, João Duque é direto: é necessário reduzir ou alterar o consumo. "Não tenho outra hipótese, senão apertar o cinto", afirma.
O economista entende que, quando não existe margem para aumentar o rendimento disponível, a alternativa passa por mudar os hábitos de consumo. "Não temos possibilidade de ter uma extensão do rendimento, então tem que alterar o consumo", explica.
A subida dos juros pode, neste sentido, produzir também mudanças de comportamento que os governos procuram incentivar por outras vias, nomeadamente na transição energética.
João Duque dá como exemplos a compra de carros elétricos e a utilização de equipamentos elétricos em substituição de soluções baseadas em combustíveis fósseis. "Temos aqui uma mistura de interesses, que do ponto de vista de política agregada pode ser interessante", considera.
"Isso é uma loucura, porque imagine esse dinheiro todo injetado nas mãos das pessoas. Os preços aumentavam ainda mais", remata.