Sócrates rejeita ter sido corrompido pelo grupo Lena
- 10/09/2026 07:44
- Redação
José Sócrates voltou esta quinta-feira a ser ouvido em tribunal no âmbito do processo Operação Marquês, retomando as suas declarações em audiência depois de uma primeira fase que decorreu entre 8 de julho e 10 de setembro de 2025.
O antigo primeiro-ministro rejeitou ter recebido qualquer contrapartida ilícita do grupo Lena, defendendo que o contrato celebrado com a empresa para a construção de vários edifícios e fábricas na Venezuela não constituiu qualquer ato de corrupção.
Sócrates explicou ao tribunal que, enquanto governante, esteve envolvido no processo que previa a construção de vários edifícios e fábricas na Venezuela. Segundo o antigo primeiro-ministro, o grupo Lena chegou inicialmente a informar o Governo de que “não tinha interesse no contrato, por considerar que o contrato seria desvantajoso”.
Em tribunal, Sócrates apresentou uma versão do contrato que viria a ser alterada através de uma adenda já durante o Governo de Pedro Passos Coelho, em 2012.
De acordo com o ex-primeiro-ministro, essa alteração tornou o negócio mais vantajoso.
"Passou de quatro fábricas para três, havia a construção de menos prédios, a construção passou de betão para metal", explicou.
Sócrates sublinhou que "o preço de venda manteve-se nos 988 milhões de euros, mas com custos para a empresa inferiores em 20%".
O antigo primeiro-ministro rejeitou, por isso, a existência de qualquer benefício indevido relacionado com o contrato e atribuiu a concretização do negócio aos esforços de diplomacia económica desenvolvidos pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas.
No final deste ponto da sua intervenção, Sócrates foi categórico: "O acordo que dizem que é corrupto não aconteceu".
Durante a audiência, José Sócrates voltou também a criticar a forma como elementos relacionados com a sua vida privada foram utilizados no processo.
O antigo primeiro-ministro referiu-se em particular ao testemunho prestado em junho por uma antiga companheira, Célia Tavares, considerando censurável que esta tenha sido confrontada em tribunal com aspetos da relação que manteve consigo.
Sócrates criticou o facto de a mulher ter sido questionada sobre a relação e até sobre a "ausência de uma rutura formal".
"Teve de reconstituir uma relação íntima que o Estado nada tem a ver", afirmou.
O arguido criticou ainda o Ministério Público por ter confrontado Célia Tavares com uma escuta telefónica que considerou "fútil". Na gravação, o então motorista de Sócrates, João Perna, refere-se alegadamente à necessidade de "levar o dinheiro à mula".
Para Sócrates, a utilização desse episódio em tribunal teve um objetivo que ultrapassou a investigação dos factos em causa.
"Tudo teve um único objetivo: humilhar uma mulher num momento de vulnerabilidade", acusou.
José Sócrates está agora a prestar declarações pela segunda vez em audiência, depois de ter sido ouvido durante várias sessões na primeira fase, entre 8 de julho e 10 de setembro de 2025.
O ex-primeiro-ministro é um dos principais arguidos da Operação Marquês, processo que envolve suspeitas de crimes como corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal.