José Sócrates volta a Tribunal: “Tudo o que a Direita odiava o Ministério Público perseguiu”
- 10/09/2026 10:26
- Redação
São 14h22 quando José Sócrates, de volta à barra de Tribunal depois da pausa para almoço, lança, já levantado e com microfone em riste, o primeiro “portanto”. A ligação serve para anunciar que pretender versar sobre o TGV: o comboio que ligaria Lisboa ao Porto e a Madrid, mas nunca acabou por ser concretizado.
Depois, novas críticas dirigidas ao alvo do costume quando quem atira a disparar é o antigo primeiro-ministro, que até chegou a alcançar uma maioria absoluta. Sócrates chama a atenção “para a malícia” com que uma parte da acusação do Ministério Público, mormente sobre a ferrovia, está escrita.
Na sala estão os jornalistas que normalmente acompanham este caso e que, também por isso, já se conhecem entre si. Já vai longo o caso. Afinal, o inquérito do processo Operação Marquês foi aberto em 2013. Ultrapassada a instrução, o primeiro julgamento de um líder de Governo em Portugal, arrancou em julho de 2025. Já lá vai mais de um ano e ainda falta ouvir dezenas de testemunhas.
“José Sócrates essa parte fica para alegações, para o defensor”, articula a juiz-presidente do coletivo Susana Seca. É a primeira advertência da tarde e nem dez minutos passaram. A resposta está já prontamente disposta pelo arguido central deste processo: tudo o que diz neste momento é, garante, “apenas para que o Tribunal verifique a forma maliciosa com que está escrita a acusação – é de uma malícia absolutamente insuportável”.
A chefe do coletivo de juízes altera olhares cara-a-cara com apontamentos tomados pela mão direita. José Sócrates, de fato cinzento-escuro, vai levantando os braços abundantemente e subindo os decibéis minuto sim minuto sim. De vez em quando as mãos vão também à cintura e a voz baixa. Para logo a seguir voltar a subir de tom.
“Quando se olha para isto do TGV o máximo que se pode dizer é que por trás de tudo isto há uma motivação política evidente. O que pretendiam atacar era tudo. Tudo o que a Direita odiava o Ministério Público perseguiu”, queixa-se o ex-primeiro-ministro. “O Ministério Público fez uma autêntica auditoria judicial a todo o meu Governo”, repete, lamentando “essa infâmia que fui corrompido no TGV”. Perante estas palavras e outras críticas, os procuradores mantêm-se serenos, como se nada se passasse, quase habituados aos insultos proferidos pelo homem que acusam num processo de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal.
O tópico TGV é terminado às 14h46. Sócrates respira e pergunta se pode abordar um novo tema. “Pretendo abordar o tema apartamento de Paris”, diz, para logo a seguir questionar: “Mas então não há perguntas?” O coletivo de juiz diz que, para já, prefere continuar a ouvir.Sócrates até começa a falar, mas, nem cinco minutos e consegue lançar nova farpa à Justiça da qual diz ser vítima: “Já consultei vários advogados e nenhum deles aceita, porque dizem que não têm tempo para consultar o processo”. Mas é rápido no aparte e prossegue no tema prometido.
“O apartamento de Paris constitui um dos mais imprecisos capítulos das acusações que me são dirigidas. Um apartamento em Paris mostra o luxo em que se pretendeu retratar a minha vida. Acontece que toda essa história é falsa. Não sou e nunca fui proprietário de nenhum apartamento em Paris. Nenhuma prova confirma essa propriedade. Pelo contrário todos os documentos, depoimentos e até as intercessões telefónicos infirmam tal acusação”, resume.
Sócrates nega ter participado no ato de compra, não estando presente nem no contrato-promessa de compra e venda nem na escritura. E diz que não é por viver em Paris na altura em que a casa foi comprada que isso algo prova. A versão que defende é a de que a casa onde viveu na capital francesa foi uma oferta do amigo Carlos Santos Silva. “Acabei de comprar um apartamento em Paris, aquilo está assim um bocadinho, se quiseres podes ficar lá até fazer as obras”, diz sobre a conversa que jura ter tido.
Já passa das 15h quando o antigo primeiro-ministro arranca risos até às três juízas presentes na sala. Lembra a série de comédia brasileira “Porta dos Fundos”, num episódio em que após intenso interrogatório um arguido acaba por dizer que comeu num restaurante lulas. E desse facto a acusação diz: “Ah! Lula da Silva!”. Aproveitando o balanço dos sorrisos na cara pela sala, Sócrates diz: “Ah! Estava numa loja de móveis! Apartamento em Paris” – numa referência a uma passagem, na manhã da compra da casa, por uma loja com esse âmbito acompanhado pela “prima Maria Filomena”. Nega ter comprado móveis para uma casa nova, referindo que a compra seria para repor o imobiliário de uma antiga casa arrendada precisamente em Paris.
Sócrates, que chamou “porcaria” à acusação e que depois se arrependeu com um “não há necessidade", foi tecendo duras críticas à mesma por diversas ocasiões: “eles querem enganar quem?”. E a determinada altura são 15h15 e questiona: “Senhora juíza, posso perguntar-lhe que horas são? Estou a ficar cansado”. Susana Seca esclarece que a sessão está marcada até às 17h, mas Sócrates avisa que até essa hora não prosseguirá a depor: “Não vou até às 17h, estou cansado e devo preservar-me. Quando estiver cansado digo que estou cansado e se a senhora juíza quiser fazer outras coisas na audiência…”
Mais um par de risos e prosseguimos, com o antigo governante a reforçar que apenas falava com o amigo Carlos Santos Silva para saber quando tinha de deixar o apartamento que diz ser emprestado. “Já está decidido?” seria uma das frases ditas entre os dois para esse mesmo fim. “Não sei o que mais posso fazer. O que posso fazer para provar que não tive nada a ver com o assunto”. Uma ideia que foi reforçando, sentindo-se injustiçado pela acusação, ao longo de toda a tarde num monólogo praticamente absoluto em mais um dia no Campus de Justiça.
"Se tivesse um apartamento em Paris, emprestava-o a um amigo que precisasse. Estive nove meses naquele apartamento que estava em obras. O Carlos Santos Silva queria fazer obras e pô-lo no mercado. Não prejudiquei o Carlos Santos Silva", tentou ainda explicar José Sócrates Pinto de Sousa, que garante que tratava o amigo por "senhorio".