"Quem diria que aos 44 ia surfar todas as semanas?" Surf Sessions levam o desporto adaptado às praias em segurança

"Quem diria que aos 44 ia surfar todas as semanas?" Surf Sessions levam o desporto adaptado às praias em segurança

  • 11/09/2026 05:05
  • Redação

Joana descobriu um novo lado de si mesma quando sentiu pela primeira vez a prancha de surf sob os pés, a água a baloiçar em torno das pernas. Podia não conseguir ver a imensidão de azul à sua volta, no entanto, quando terminou a sua primeira participação nas Surf Sessions da Associação Portuguesa de Surf Adaptado (SURFaddict), em 2025, disse de imediato: "Eu quero sentir isto mais vezes."

Apesar de ser uma pessoa cega, Joana Moreira pratica surf regularmente, de forma gratuita, com ajuda da SURFaddict, uma entidade de utilidade pública suportada em mecenato e voluntariado. Quer na vertente lúdica, terapêutica ou de evolução técnica, para o público-alvo da associação, todos os serviços facultados são livres de encargos para os participantes, o que "faz toda a diferença". E tem o próximo sábado, 12 de setembro, livre, para ir a mais umas Surf Sessions na Praia de Carcavelos, em Lisboa.

Joana valoriza a ligação ao surf que a iniciativa lhe trouxe, mas não só. Também destaca "o convívio, a interação, o conhecer pessoas", em especial considerando que as sessões "são abertas a qualquer tipo de deficiência ou condição". Para a surfista, "é sempre muito inspirador conhecer tantas realidades e histórias incríveis".

As Surf Sessions celebram este ano uma década de existência. Foi em 2016 que a SURFaddict se juntou à marca de café Buondi, para fazer uma ação "mista, com o público em geral e também com pessoas com deficiência", como conta a Bola Branca Pedro Quadros, representante da associação. São sessões "abertos e gratuitos", em que "qualquer pessoa com qualquer tipo de deficiência" se pode inscrever. É aberto, também, a voluntários. O objetivo é "captar novos participantes e voluntários".

"Temos voluntários e treinadores de surf. Os treinadores são pessoas com mais experiência, de treino e do próprio surf, e hoje em dia, felizmente, já com experiência no surf adaptado. Que é uma área muito peculiar: tem de se ter uma sensibilidade à pessoa com deficiência, uma certa empatia, perceber quais são as condições ideais", realça.

A iniciativa, que "tem vindo a crescer", conta igualmente com projeção nacional: "Embora estejamos sediados em Carcavelos, também vamos a outras zonas do país. Vamos a Matosinhos, a Lagos, à Ilha da Madeira, à Ilha de São Miguel, e adiante. Até porque a nossa ideia, no fundo, é divulgar o surf adaptado pelo país e chegar ao maior número possível de pessoas."

Joana nasceu com uma doença genética na retina, que fez com que fosse perdendo a visão a pouco e pouco, ao longo da vida. Em criança, quando "ainda via razoavelmente bem", tinha "uma relação muito próxima" com o mar: "Sempre adorei o mar, sempre adorei brincar nas ondas, fazer carreirinhas."

"Eu tenho um irmão mais velho que tinha aquelas pranchas que as crianças têm, de esferovite. Então, sempre que podia, apoderava-me da prancha do meu irmão quando ele não a queria e tentava brincar também", conta.

À medida que foi perdendo a visão, Joana foi ganhando medos. Medo de entrar no mar, medo da colisão das ondas. Medo do que não via.

Apesar de manter "aquele bichinho de voltar ao mar e fazer desporto", Joana pensava que "não existiam atividades adaptadas para pessoas com falta de visão". Chegou a ter um professor particular de bodyboard, contudo, era uma opção bastante dispendiosa. A pesquisa continuou e, no ano passado, chegou às Surf Sessions.

"Descobri um mundo novo", confessa Joana, que "não fazia ideia que tinha jeito para o surf".

"Já me consigo pôr em pé na prancha. Já consigo apanhar algumas ondas em pé, que no início era muito difícil, e sentir esta evolução é muito interessante. Estou a descobrir novas capacidades que achava que eram impensáveis para mim", admite.

É por casos como o de Joana, e tantos outros, que o recrutamento de voluntários é tão importante para a SURFaddict.

A surfista tem de ter sempre duas pessoas, pelo menos, a acompanhá-la: "Uma é o treinador, que vai comigo para dentro de água e está a dar-me as orientações, para onde é que eu tenho de remar, 'sempre à esquerda', 'sempre à direita', 'cuidado para não vir uma onda', 'mergulha' ou 'passa por cima'. Às vezes, quando o mar está um bocadinho mais forte, ajuda-me a passar as ondas, porque as pranchas que nós temos são mais de aprendizagem, que não aleijam. São umas pranchas mais fofas e que dificultam, às vezes, passar as ondas, não dá para passar por baixo."

"Depois, existe outra pessoa que está na receção, isto é, está à beira d'água, com água pelo joelho ou algo do género. O treinador manda-me na onda, eu venho sozinha na onda e, depois, tem a pessoa que me está a acompanhar visualmente. Está a ver por onde eu estou a ir e vai ter comigo quando a onda está a terminar, e avisa-me quando eu estou perto da areia. Ou avisa, às vezes, algumas pessoas que se atravessam no caminho e não conseguem perceber que eu não vejo, apesar de eu ter uma licra com o símbolo de 'blind surfer' e com os símbolos todos de alerta."

As quedas também exigem cuidados. Joana tem de ter cuidado para "cair de forma a não haver um impacto demasiado forte em nenhuma parte do corpo, ou seja, tentar cair o mais uniformemente possível, mas sempre com as mãos na cabeça, a proteger".

"Tem sido incrível poder praticar esta modalidade em segurança e de forma gratuita", salienta.

Agora que conhece a sensação de ondular sobre uma prancha, Joana está sempre a ver como está o mar, quando surgem novas atividades e sessões; se há vaga.

Pedro Quadros, representante da SURFaddict, explica que, além das Surf Sessions, existem outras vertentes: a terapêutica, que é desenvolvida o ano inteiro, todas as semanas do ano, na Praia de Carcavelos; e, mais recentemente, o Polo de Evolução Técnica, que Joana Moreira frequenta.

"A Joana, além de estar no Polo de Evolução Técnica, também está na vertente de evolução técnica. Isto é, a ideia é superar a parte da superação e ir já para a parte da evolução técnica, de ela começar efetivamente a fazer surf. Tem uma treinadora específica e, agora, sessões semanais, também na Praia de Carcavelos. Estamos todos muito contentes com a evolução da Joana", assinala.

Das Surf Sessions, saem sorrisos e curiosidade pelo surf, mas também já surgiu inovação. Pedro Quadros conta que um voluntário desenvolveu uma cadeira de praia híbrida.

"São cadeiras para onde nós transferimos as pessoas em cadeiras de rodas. Cadeiras específicas para poderem circular na areia e chegar à água e mesmo, inclusivamente, chegar à fase de ondulação. É completamente desmontável e, desmontada, cabe no porta-bagagens de um automóvel. E a armação é em aço inoxidável, que é essencial para o ambiente de praia. As próprias rodas são específicas para circular em cima da areia. Foi uma cadeira completamente desenvolvida de raiz", refere.

No final de contas, seja nas Surf Sessions ou nas restantes vertentes, a SURFaddict espera que todos se divirtam e "passem um bom bocado na praia, na água e na ondulação".

"Há sempre uma componente de superação, porque, muitas vezes, algumas destas pessoas são pessoas que têm dificuldades em ir à praia, em ir à água, e aqui sabem que podem fazê-lo em conforto e segurança. E isso é, para nós, é o mais importante", vinca.

"Às vezes até nem há grandes ondas, mas só o facto de eu ir para o mar, para mim, acaba por ser curativo de tudo. Quando estou no mar, é o momento que se esquece de tudo e estamos ali só a aproveitar e a desfrutar aquele momento", explica.

O surf "tem tido um impacto extremamente positivo" na sua qualidade de vida: "Faz também parte da minha higiene mental. O surf é onde me vou equilibrar, quer na prancha, quer internamente."

Pode participar nas Surf Sessions, como surfista ou voluntário, no sábado, 12 de setembro, na Praia de Carcavelos. As inscrições são realizadas no próprio dia e local, junto ao stand da Buondi, a partir das 10h30.

  • Fonte: Rádio Renascença
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