As lições e as réplicas do 11 de Setembro segundo Azeredo Lopes
- 11/09/2026 07:09
- Redação
Já passou dos 30 anos de idade? Certamente ainda se lembra, ao detalhe, de tudo o que fez e sentiu neste dia, há precisamente um quarto de século. Lembra-se do que estava a fazer, com quem estava e do que sentiu ao ver em direto, pela televisão, o momento em que dois aviões atingiram as "Twin Towers" do icónico World Trade Center, em Nova Iorque. Pouco mais tarde, outro avião atingiu o Pentágono e um quarto aparelho - o Voo 93 da United - despenhou-se na Pensilvânia. Nos atentados do 11 de Setembro morreram 2996 pessoas: 2977 foram vítimas dos 19 sequestradores que cometeram homicídio suicídio, 265 dos mortos seguiam nos aviões utilizados no ataque, 2606 estavam na zona das "Torres Gémeas" e 125 no Pentágono.
Naquela "última hora", Azeredo Lopes estava no Gabinete de Estudos Internacionais da Católica. "Estava a preparar-me para sair para comer alguma coisa e, de repente, volto para trás porque a televisão estava sempre ligada e a emissão foi interrompida. Percebe-se, naquela altura, aquilo que era o impacto do primeiro avião contra as Torres Gémeas. Houve aqui um sentimento de espanto, de incredulidade, e depois, pouco depois, compreende-se, de repente - e talvez esse momento tenha sido mais devastador ainda - que não era um acidente. Quando ocorre o segundo impacto torna-se impossível acreditar em coincidências. Fomos confrontados com algo que era impensável: compreendemos que até um país como os Estados Unidos não estava imune a ataques devastadores como este, do 11 de Setembro".
A surpresa do professor universitário e antigo ministro da Defesa. O espanto com que os EUA viveram os ataques do 11 de Setembro. Como foi possível que a maior das superpotências fosse abalada por uma operação terrorista que não custou à Al Qaeda mais do que 500 mil dólares?
"É bom ter consciência de que os Estados Unidos, a potência com capacidades de inteligência, um serviço de informações único, não viram o que estava prestes a acontecer e negligenciaram muitos indícios. Também perceberam que o ataque aos Estados Unidos tinha sido realizado por meia dúzia de bandidos terroristas e que esta operação, no seu conjunto, não teria custado mais de 500 mil dólares. É aterrador pensar que um inimigo nosso, com 500 mil dólares, que hoje não pagariam, com absoluta certeza, um bom apartamento em Lisboa, é aterrador pensar que esta organização de violência não estatal pode ser tão sofisticada".
Azeredo Lopes reconhece que seria hoje mais difícil a concretização de atentados como os do 11 de setembro. Ainda assim, a guerra ao terrorismo abriu uma caixa de pandora e restringiu drasticamente os direitos, liberdades e garantias nas sociedades democráticas. O nosso mundo mudou: "A caixa de Pandora era inevitável. Agora, francamente, estamos hoje mais bem defendidos. Ao mesmo tempo, talvez o 11 de Setembro tenha aberto, involuntariamente, outra caixa de Pandora, que é a restrição drástica dos nossos direitos, liberdades e garantias.
O que estamos a ver vinte e tal anos depois? Não só o mundo é aquilo que sonhavamos, como nós próprios estamos a regredir a galope do ponto de vista democrático. Pense na forma como os próprios Estados Unidos alargaram o conceito de terrorismo de uma forma impensável. Uma coisa é um elemento da Al-Qaeda. Outra coisa é uma mulher que protesta contra o ICE, é morta e é imediatamente acusada de terrorismo interno. Percebe?"
O julgamento de Khalid Sheikh Mohammed só está marcado para junho de 2028. É considerado principal cérebro dos atentados do 11 de Setembro. Azeredo Lopes sublinha que 25 anos depois a justiça ainda não se fez, pelo menos a justiça que permite a defesa aos acusados e da presunção da inocência até prova em contrário, mas lembra já houve sentenças sem julgamento, incluindo execuções e torturas em Guantánamo: "Continuamos sem julgamentos, se olharmos para aquilo que é o exercício das funções normais do poder judicial. Esse julgamento e a execução das sentenças já aconteceu em muitos outros casos. O caso mais conhecido é o que acontece em 2010, com a eliminação ou execução de Osama Bin Laden e do resto da família no Paquistão.
Do ponto de vista do julgamento formal, também temos um pecado capital desde o início: a alteração radical do próprio conceito de tortura e, em segundo lugar, a diminuição drástica das garantias de defesa de quem os Estados Unidos consideraram estar relacionado ou ligado a estes atentados".