Julgamento dos polícias do Rato. “É importante não confundirmos um comportamento violento com uma doença mental”
- 11/09/2026 11:23
- Redação
“Não é necessária uma perturbação mental para alguém cometer um abuso grave de autoridade ou de poder e, por isso, é importante não confundirmos um comportamento violento com uma doença mental, porque uma pessoa pode ter um comportamento violento, humilhante ou moralmente muito grave sem sofrer de qualquer perturbação mental. Podemos estar aqui a falar do ponto de vista psicológico de outras características e de outros processos ligados à regulação emocional, à agressividade, à tolerância e à frustração, a atitudes de poder e a forma como é contemplada a noção de autoridade que leva a comportamentos como estes que estão a ser investigados”, explica.
Caso o Tribunal considere os dois agentes como culpados, o psicólogo forense considera que deve haver mão pesada na decisão de forma a reparar os danos na reputação da polícia e também para prevenir novos casos.
“Provados os factos, é essencial que exista uma punição, porque quando alguém que representa a lei, como é o caso destes agentes, se deu comprovado que a violaram, isto causa um dano que não é apenas individual, é institucional. E, portanto, a forma como a polícia, as forças de segurança são vistas fica prejudicada por atos como este e, por isso, tem que haver uma mão pesada para erradicar este tipo de comportamentos, perceber o que é que não foi evitado neste caso para prevenir também circunstâncias possíveis. É necessário proteger a credibilidade da instituição e proteger também a idoneidade de milhares de polícias que todos os dias exercem de forma legítima a sua e não podem ser confundidos com comportamentos desta natureza”, refere Mauro Paulino.
Questionado sobre os testes psicológicos feitos à entrada para a carreira de polícia, o psicólogo sublinha que não pode ser entendido como “vitalícios”, apelando ainda a que, sendo provados os factos, sejam revistos os exames dos arguidos em causa para perceber se algum fator não foi considerado na avaliação que foi feita.
“A avaliação psicológica deve ajudar a selecionar, mas depois temos que perceber que é necessário olhar as coisas retrospetivamente. Ou seja, era interessante agora olhar os perfis da entrada destes agentes e perceber se na altura em que foram selecionados já existiam indicadores que não tenham sido devidamente considerados. Muitas vezes a avaliação psicológica, no momento da entrada, é entendida pelas chefias e, às vezes, pelo poder político de quem tem a tutela deste Ministério quase como se fosse um certificado vitalício de aptidão. E não é”, adverte.