Arcebispo de Saurimo diz que corrupção e injustiça em Angola são "um cancro que vai se tornando endémico"

Arcebispo de Saurimo diz que corrupção e injustiça em Angola são "um cancro que vai se tornando endémico"

  • 14/09/2026 00:30
  • Redação

O presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) e arcebispo de Saurimo mostra-se muito critico em relação à distribuição da riqueza em Angola e não poupa as empresas de exploração de matérias-primas que "não valorizam o cidadão angolano".

"Essas grandes empresas exploram, sugam e não deixam rastros de desenvolvimento, não deixam rastros de crescimento, não impactam; a presença deles não impacta na vida dos angolanos", acrescenta o prelado angolano.

Nesta entrevista concedida por ocasião da sua presença em Fátima para presidir à Peregrinação de Setembro, o arcebispo de Saurimo recordou a visita do Papa Leão XIV a Angola, sublinhando a relevância de algumas das mensagem que o Papa deixou. D. José Manuel garante que a Igreja angolana vai continuar a denunciar a corrupção e as injustiças que são "um cancro que vai se tornando endémico e que está a provocar a paralisia e a estagnação do próprio país".

Depois dos bispos portugueses terem formulado um convite ao Papa Leão para visitar Portugal, também o Presidente da República, António José Seguro, irá ao Vaticano no dia 24 deste mês, presumindo-se que renove esse convite. Em 2027, passam 110 anos das Aparições de Fátima e assinalam-se 500 anos da Nunciatura Apostólica em Portugal. Serão datas interessantes para uma visita papal?

São datas emblemáticas, muito significativas e impactantes a que o Pastor Universal quererá, de facto, dar o seu cunho de graça para que a sua presença cá neste Santuário, que tornou-se praticamente o coração do mundo, um espaço de convergência na fé, um espaço de encontro e de grandes conversões. Por isso, fazendo coincidir essas efemérides todas, faz todo sentido que a Conferência Episcopal tenha convidado o Santo Padre a vir para a este Santuário e confirmar os irmãos na fé e estimulá-los a darem sempre mais, o melhor de si no progresso espiritual que se espera a partir deste lugar sagrado para o mundo.

Que significado teve para si poder presidir a Peregrinação de Setembro ao Santuário de Fátima? Os angolanos são devotos da mulher vestida de branco?

Os angolanos são marianos, de modo que, para mim, o convite de D. José Ornelas foi, digamos, uma graça que me apareceu e não podia não vir para com os irmãos que cá ocorrem, celebrarmos juntos a beleza da nossa fé e podermos mostrar ao mundo que estamos vivos, estamos com Maria e é por ela que conhecemos o seu Filho, por ela nos encaminhamos ao Pai Eterno e com ela aprendemos a obedecer a Deus, a viver a fé e a pô-la ao serviço e missão pelo bem dos irmãos.

O que gostaria que se retivesse da mensagem que transmitiu por estes dias aos peregrinos de Fátima?

A minha mensagem é, sobretudo, aquela disponibilidade do coração de Maria. A história do mundo atual é uma história de muita conturbação, de muita violência, de muita insensibilidade e secura espiritual. Por isso, vir a este santuário é como vir para nos refrescarmos, para nos retemperarmos e assim podermos, a partir deste Santuário, renovar o nosso sim a Deus, o nosso sim à humanidade, o nosso sim à natureza, o nosso sim a todas essas interpelações que a própria história nos vai colocando para que a nossa presença seja sempre salutar, cheia de esperança pela autenticidade da nossa conversão e pela beleza do nosso testemunho enquanto cristãos e enquanto cidadãos.

Já se notam os efeitos da recente presença do Papa em Angola? A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé fez uma avaliação muito positiva da presença do Papa Leão no país.

Sim, sim, fizemos uma avaliação muito positiva pela oportunidade, pela riqueza da mensagem que nos deixou e os desafios também que nos lançou, a partir dos quais estamos, digamos assim, mais galvanizados a darmos o melhor de nós pelo serviço da palavra de Deus no nosso país.

Como sabe, o nosso país vive momentos também um pouco conturbados, por isso a voz da palavra de Deus, a voz dos pastores, a voz da igreja é sempre um alívio, um calmante, um estímulo para que façamos e sejamos mais e ofereçamos oportunidades mais nobres para que Angola seja um país de todos e para todos.

Como D. José disse, Leão XIV deixou várias mensagens em Angola, numa delas fez apelos à justiça, à unidade e à valorização humana e também ao combate à corrupção e encorajou a igreja a nunca desistir de denunciar as injustiças. A corrupção e a injustiça continuam a ser fatores de divisão em Angola?

Não só de divisão, como fatores de empobrecimento humano, social, cultural, fatores que estão a estrangular, digamos assim, o sonho de desenvolvimento que o país precisa.

Por isso, diria mesmo, é um cancro que vai se tornando endémico e que está a provocar a paralisia e a estagnação do próprio país, porquanto está a enriquecer um punhado de cidadãos em detrimento da grande maioria, provocando fissuras sociais e as assimetrias que cada vez mais vão empobrecendo a própria consciência cívica e o próprio desenvolvimento material no seu âmbito mais global.

Parecendo muito conhecedor da realidade do país, o Papa falou mesmo dos interesses propotentes que põem as mãos nas riquezas de Angola. Qual é o grau de gravidade deste problema?

Este é um problema muito grave porque, hoje por hoje, mesmo as grandes potências não valorizam a pessoa, não valorizam o cidadão angolano. Portanto, a sua apetência vai mais para os bens materiais, para os recursos naturais, para aqueles recursos vitais que deveriam favorecer o fomento da dignidade da pessoa humana e a facilitação da própria vida. Mas essas grandes empresas exploram, sugam e não deixam rastros de desenvolvimento, não deixam rastros de crescimento, não impactam, a presença deles não impacta na vida dos angolanos.

De exploração, petrolífera, diamantífera e Angola, como sabe, tem recursos naturais intermináveis, outros já se exploram, outros por explorar e que infelizmente pouco benefício deixam para as comunidades que lá estão.

Eu gostaria ainda de referir mais uma ideia que nos chegou da presença do Papa em Angola e que tem a ver com o convite à reconciliação. Passados estes anos do fim da guerra, o país está pacificado e do ponto de vista político, como é que nos pode descrever neste momento a situação a nós que estamos bastante longe?

Tenho dito, reiteradas vezes, que infelizmente a nossa cultura política ainda não é salutar. É verdade que há sinais muito fortes de reconciliação nacional, mas como temos vindo a dizer também, essa reconciliação não deve se limitar só no âmbito político.

Temos que tocar mais os corações, as mentalidades, porque a política está a criar buracos de separação, de intolerância, de não aceitação do outro, situações que nos fazem reviver sempre no passado e não a sonharmos alto.

Por isso, essas feridas do passado ainda pesam nas nossas decisões hoje e isto, pois, está a criar muitos problemas na concertação e no convívio das próprias pessoas.Porque todo o país, praticamente, está politizado. As próprias relações, as famílias, o emprego e tudo aquilo que deveria ser algo salutar para o bem comum e para a promoção da dignidade humana está a reduzir-se a grupos e estes grupos não deixam que os outros usufruam também de todos os benesses que o país oferece.

Por diversas vezes os bispos angolanos declararam a sua proximidade às populações mais vulneráveis e a viver uma situação de pobreza extrema. O que é que tem sido feito no combate às assimetrias, provavelmente não tem sido suficiente. Os bispos angolanos vão continuar, naturalmente, a denunciar estas situações? Há ainda muitas populações a viver em situações extremas e de fome?

Sim, infelizmente, as assimetrias ainda são uma realidade triste que o nosso país vive e como bispos, pois, nós temos nos batido contra estas situações, contra estes pecados sociais. A nossa opção preferencial é mesmo pelos mais podres e é por eles que nos batemos e cujas respostas que nós temos vindo a dar são incipientes em relação à grandeza dos desafios com que nos deparamos.

Seja como for, nós somos uma voz que interpela o próprio governo a estar mais atento a estas realidades e, pouco a pouco, ir-se aproximando delas para encontrarmos as respostas que possam satisfazer a todos.

Esse diálogo da Conferência Episcopal com o governo tem sido melhorado ao longo dos tempos? Como é que o classificaria nesta altura?

Sim, tem sido melhorado. Pronto, tem tido altos e baixos, mas, neste momento, é estável, também graças ao Acordo Quadro que a Santa Serra e o Estado Angolano assinamos em 1919, a partir do qual temos regulado todo este diálogo fluente e no trabalho conjunto que fazemos em prol do bem das pessoas.

É claro que isto não é fácil, porque os políticos têm as suas linhas de orientação, as suas tendências, os seus objetivos, que, às vezes, não coincidem com aquilo que nós pensamos sobre a realidade. Mas a nossa missão é mesmo esta, de estarmos no meio para mediarmos todos estes conflitos, construirmos pontes e que as pessoas se encontrem, dialoguem e, assim, podermos criar espaços de irmandade sempre mais fortes e frutuosos.

D. José, para terminar, queria lançar um olhar por África e pelos conflitos que ainda prevalecem no Continente. Considera que a pouca cobertura mediática e também a atenção internacional que é dada a essas situações não ajuda a uma mais rápida resolução desses problemas?

Sim, eu acho que há uma discriminação mesmo neste sentido, diria, porque a África vive problemas também por culpa de nós próprios africanos. Estamos distraídos e não olhamos para nós mesmos, não trabalhamos para o bem nosso e deixamo-nos influenciar por forças externas e, como já disse, que estão só e somente interessadas pelas matérias-primas e não pelas pessoas. Por isso, o grande trabalho é nosso, está conosco, somos nós que temos que ter um certo orgulho de nós mesmos, das nossas terras e trabalhar por elas e pelas pessoas que nelas vivem e, assim, podermos ser nós mesmos a produzir o desenvolvimento que esperamos.Portanto, enquanto culturalmente não estivermos assumidos como África, claro, estaremos sempre nesta alienação, nessa fuga de nós mesmos e de não trabalharmos para o nosso próprio progresso humano, social e cultural.

Sentem essa injustiça de a comunidade internacional não olhar, por exemplo, para o que se passa em muitos países de África como olha para a Ucrânia, para o Irão e por aí adiante?

Pois, porque já são conflitos esquecidos. A África praticamente está esquecida e vive nos seus problemas e vai navegando nos seus problemas porque já não faz notícias e quando faz notícias é porque a coisa já está mesmo no abismo e ali uma ou outra voz se levanta, mas senão, a África no seu todo está em problemas permanentes que já não impressionam, não encantam e não despertam.

Bem esquecido, bem esquecido e, como disse, grande trabalho será de nós africanos mesmo. Portanto, somos nós que temos que nos rever nos nossos propósitos políticos, nos próprios propósitos geopolíticos e assim podermos nos afirmar também como uma presença incontornável, não só no aspecto econômico, mas sobretudo no aspecto cultural e de relações internacionais à altura.

  • Fonte: Rádio Renascença
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