Raio X aos Governos portugueses. Maioria dos ministros não cumpre em média dois anos de mandato
- 14/09/2026 05:22
- Redação
Os ministros mais especializados nas suas áreas tendem a ficar mais tempo no cargo do que os governantes com um perfil mais político. Esta é uma das conclusões da análise às elites governamentais em democracia em Portugal, um estudo publicado esta segunda-feira pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
A maioria dos ministros em Portugal permanece menos de 600 dias no Governo — 70% são dirigentes partidários, mas os chamados “independentes”, grupo em que Portugal lidera em quantidade no Sul da Europa, apresentam cada vez mais ligações informais aos partidos.
“Trinta por cento é um número muito significativo de ministros que não tiveram uma experiência partidária, em comparação com a grande maioria das democracias mundiais. Progressivamente, começamos a ter — o que pode não ser necessariamente bom — uma série de ministros independentes, que se aproximam cada vez mais dos partidos, como ‘consultores independentes’ dos dirigentes partidários, que nunca se filiam”, explica o politólogo António Costa Pinto, co-coordenador com Marcelo Camerlo do estudo “Quem Governa Portugal? Perfis ministeriais em perspetiva comparada”.
Nos chamados "semi-independentes" — para citar executivos do PS — o estudo cita os casos de José Mariano Gago, ministro em quatro governos socialistas, e de Guilherme de Oliveira Martins, que foi ministro de três pastas diferentes no segundo Governo de António Guterres.
O formato de recrutamento dos chamados "Estados Gerais do PS", convocados por António Guterres nos anos 90, persiste em diversas modalidades com outros governos. Os autores identificam que o Governo com a percentagem mais elevada de ministros sem filiação partidária no campo da direita foi o breve executivo liderado por Pedro Santana Lopes em 2004.
António Costa Pinto clarifica que o estudo considera como ministro independente "quem, à data da nomeação para o Governo, não está filiado no partido governante, mesmo que tenha tido militância no passado".
Os autores sustentam que o PS tende a nomear maioritariamente ministros "com os quais já tem uma ligação prévia", ao passo que os governos de centro‑direita "tendem a nomear mais independentes puros do que semi ‑independentes".
Os partidos controlam o recrutamento para os cargos governamentais, integrando especialistas “politicamente próximos”, combinando "experiência política e competência técnica", sendo que "os governos do PS tendem a recrutar mais peritos, enquanto os do PSD apresentam mais "políticos-especialistas".
No estudo que analisa os perfis de todos os ministros portugueses entre 1976 e 2025, constata-se "a tendência para os governos de coligação nomearem menos ministros independentes", mesmo em períodos de forte crise económica e financeira.
Por um lado, isso está ligado a uma menor margem de manobra do primeiro ‑ministro para nomear ministros apartidários. Os autores defendem que em períodos de crise os governos tendem a centrar-se no "alargamento da base parlamentar de apoio e na coesão partidária". A título de exemplo, os autores recordam que no governo PSD/CDS de Pedro Passos Coelho — marcado por medidas de austeridade no contexto do memorando de entendimento assinado com uma 'troika' de instituições internacionais — "os principais ministros tecnocratas [Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira] foram sacrificados" quando cresceu a impopularidade do Governo.
As pastas sociais como Educação ou Cultura são aquelas onde o peso dos independentes é mais acentuado. Sem surpresa, o núcleo de coordenação dos Governos tem forte pendor partidário. "De entre os ministros de Estado, 75% eram partidários e, dentro deste campo, 85% correspondiam a pesos‑pesados", pode ler-se no relatório.
"A nomeação de ministros de Estado oriundos de fora do partido é um fenómeno mais recente, iniciado por José Sócrates no seu primeiro Governo, e que tem servido para reforçar formalmente o papel do ministro das Finanças", acrescentam os autores.
“Para os ministros, a chamada 'performance' e a confiança do primeiro-ministro é muito mais importante do que outros critérios", observa António Costa Pinto.
A maioria dos ministros em Portugal não aguenta dois anos no Governo. "A média global de duração ministerial ao longo do período democrático português corresponde a 572 dias", de acordo com os cálculos do estudo.
Em Portugal, os ministros "com maior inserção político‑partidária" apresentam maior probabilidade de saída antecipada do Governo. É nos governos maioritários que se observa uma maior incidência de demissões.
"Nos governos minoritários, o facto de as demissões serem menos frequentes pode ser explicado pela necessidade de o primeiro‑ministro evitar tensões com parceiros políticos, uma vez que depende frequentemente de apoio externo para garantir a continuidade governativa."
As mulheres continuam a ter que provar mais na carreira para chegar ao Governo. 78% das ministras tinham uma área de especialização antes de chegar ao governo, acima dos 62% de homens com perfil de peritos. 98,4% dos ministros têm formação superior, mas " em cerca de 40% dos casos não está diretamente associada à pasta que ocupam".
Mas ter competência não é tudo, adverte António Costa Pinto. "Não são necessariamente bons gestores do ministério e bons estrategas do ministério. Há excelentes potenciais em termos de formação ministros e que são nulidades, ou que pelo menos demonstram grandes limitações", sobretudo na comunicação pública.