"No fim da linha". Barrancos, a vila em que a viagem para fazer uma ecografia leva quatro horas

  • 15/09/2026 02:30
  • Redação

Imagine uma terra em que tenha de percorrer 110 quilómetros para chegar à primeira unidade em que pode fazer um raio-x, uma ecografia ou uma ressonância. Agora imagine que o fazia numa estrada em que as lombas e os buracos, em alguns casos "crateras", fazem parecer a viagem uma prova de perícia de condução. E por fim, pense que isso acontecia num local em que a oferta pública de transporte é um autocarro por dia. Por isso, poderia ter de pagar até 120 euros para fazer a viagem para realizar esse simples exame. Pare de imaginar, esse local existe, fica no Alentejo, e chama-se Barrancos.

Manuel Cortegano tem 35 anos. Trabalha há 13 nos bombeiros locais, onde agora é subcomandante. Quando é confrontado com os dados da ERS reage sem surpresa.

O dia-a-dia dele é lidar com estes problemas. Numa vila quase sem transportes públicos, são os voluntários locais a fazer parte desse papel social: o de transportar as pessoas às necessidades mais básicas como a saúde. Para ligar Barrancos ao resto do país há um táxi, uma carreira diária de autocarro com destino a Moura, que sai às 7h00, e às segundas-feira e sextas-feira à Amareleja para Lisboa. E é só.

Na conversa com Manuel, ele acrescenta logo um outro dado nesta intrincada teia de acesso aos cuidados de saúde naquela localidade raiana. Em exames mais complexos, relacionados com doenças oncológicas, como uma PET (Tomografia por Emissão de Positrões) ou uma citografia óssea, o local mais próximo é “Lisboa ou Almada”. Aí a distância duplica. Ir e vir são oito horas no mínimo. Mais o tempo do exame. Contas feitas: perde-se um dia inteiro.

Mas se as duas horas de caminho para chegar a um hospital e fazer um exame básico podem impressionar, o subcomandante dos Bombeiros de Barrancos acrescenta-lhe outra camada de dificuldade. A das fracas acessibilidades, que neste caso se materializa na baixíssima qualidade da estrada. O transporte de doentes em maca ou com traumas emergentes fazem com que a marcha tenha de ser feita ainda com maior cuidado.

“A estrada é péssima. Nos primeiros 30 quilómetros, se vamos para Évora ou para Beja, não conseguimos passar numa velocidade de 40 a 50 quilómetros por hora, se vamos com um doente idoso”, descreve.

A isso junta-se o facto de o traçado ser um “bocado sinuoso” e os “animais selvagens” que se cruzam com os veículos.

Mas não é só, como se já fossem poucos os problemas. “Temos outra parte difícil, há sítios onde não há rede. Ou seja, se um doente nessa zona se tornar um doente crítico durante o transporte, não temos rede para telefonar, para pedir apoio”, relata.

Ainda assim, não se pode dizer que tudo é mau. Há uma resposta de socorro que, muitas vezes, salva-vidas naquela vila. O meio aéreo do INEM estacionado em Beja é acionado.

“[Acaba por ser acionado], às vezes, não pela gravidade da situação, mas por ser o mais rápido a chegar a Lisboa, ao Hospital São de Santa Maria”, exemplifica.

Ainda há dois meses, o bombeiro recorda-se de uma idosa que caiu. Fez um traumatismo craniano. Teve de ser transportada pelo meio aéreo. Segundo o subcomandante Manuel Cortegano, era a diferença entre demorar quatro horas a chegar à capital ou o de no espaço de 40 minutos estar a receber os primeiros tratamentos.

Mas todas estas condicionantes prejudicam a saúde dos que ali vivem? Manuel Cortegana sente que sim. “Há pessoas que quando lhes indicam que têm de fazer um exame em Beja ou em Évora, vão pensar duas vezes. Vão dizer: 'e agora tenho de ir a Beja só porque tenho uma dor no braço?' São pessoas idosas e, às vezes, acabam por desistir de um exame que se calhar é necessário para descobrir o início de uma doença”, descreve.

O subcomandante conta que muitos sentem que é “só uma dorzinha que têm” e não justificam todo o trabalho e dinheiro que pagam para ir ao hospital.

“Acabam por não fazer esse exame que se calhar seria o ponto de partida para um tratamento por causa de uma doença”, explica.

E, por isso, deixam os sintomas agravarem-se. Um mês depois acabam por ir, porque “a dor já apertou ou já há um novo sintoma”, mas nessa altura, segundo o bombeiro, já se perdeu o tempo da resposta inicial.

Estes entraves para aceder a tratamentos médicos e exames são já muitos em condições normais, mas quando o país há seis anos parou para o confinamento da pandemia de Covid-19, os problemas foram ainda maiores. Sobretudo para os doentes com cancro.

Manuel recorda que o IPO de Lisboa só aceitava testes Covid feitos no local, “então havia doentes que tinham que fazer o tratamento e no dia de se locar de propósito a Lisboa para apenas fazer um teste Covid”.

“Depois, esperavam pela resposta para perceber estavam infetados ou não. Ou seja, para um dia de tratamento tinham de ir dois dias seguidos”, relembra.

Muitos desistiram de fazer o teste, o que fazia com que depois não pudessem fazer a sessão de tratamento. “Isso foi atrasando certos tratamentos e houve quem desistisse porque não conseguia ir duas e três vezes na mesma semana a Lisboa”, lamenta.

A poucos quilómetros de distância do quartel de Bombeiros está a Câmara Municipal, onde também o presidente Emílio Domingues não se mostra surpreendido com os dados da ERS. Faz parte do pacote que vem com a interioridade e de uma população que está “isolada e envelhecida”.

“É uma situação recorrente que já tem muitíssimos anos, que acontece, e que nós não podemos realmente resolver”, relata o autarca comunista.

Rapidamente a conversa dirige-se outra vez para as estradas, ou melhor uma das duas estradas que liga o concelho ao país, e também aí o relato de Emílio é idêntico ao do subcomandante dos Bombeiros.

“Qualquer doente compreenderá, qualquer português compreende, que uma pessoa que esteja doente com um traumatismo, com uma fratura, percorrer 50 quilómetros em estradas em mau estado é um trauma em cima de outro trauma”, qualifica.

Os dados do relatório da ERS, do início do mês de agosto, revelam que os concelhos sem oferta pública são 154 no total (mais de metade do número de municípios do país). Neles, vivem 15,4% da população nacional. O documento diz ainda que nestes municípios, os tempos mínimos de deslocação para o concelho mais próximo com oferta pública variavam entre 13 minutos (em Lisboa e Vale do Tejo) e 1h57 (Alentejo).

“A população residente em concelhos com tempos mínimos de deslocação superiores a 45 minutos representava 3,7% do total de residentes em Portugal continental”, lê-se no mesmo relatório.

Será um reflexo da falta de acesso à saúde? O autarca local, Emílio Domingues, pensa que esta estatística não reflete a realidade e o concelho não pode ser visto pela lente deste ângulo negativo.

Argumenta que não se morre ali mais do que em outras terras à volta, como Moura. Mas há um fator que leva os números a dispararem: a existência de um lar de terceira idade com uma “dimensão considerável”.

Esse facto, na opinião do autarca, faz com que haja mais 30 ou 40 idosos, que não são naturais de Barrancos, estejam naquele espaço e acabem por fazer aumentar o número de mortos anuais na vila.

Em Barrancos, os múltiplos entraves para o acesso a exames de radiologia são apenas uma dimensão de um problema mais vasto que é o do acesso aos cuidados de saúde por parte daquela população raiana.

O Centro de Saúde local funciona das 9h00 às 17h00 nos dias de semana. Há um médico de família, um profissional cubano há mais de uma década naquela terra do interior.

Fora desse período, quem tiver uma urgência têm de ir para Moura, a 50 quilómetros, ou passar a fronteira e procurar resposta em Espanha.

E mesmo durante o período em que está aberto, o autarca Emílio Domingues reconhece que é difícil conciliar consultas programadas com urgências do dia a dia.

Para que o impacto da oferta não se fizesse sentir tanto na população, ao fim de semana, a autarquia contratou um médico espanhol para a população não ficar sem resposta.

Uma realidade que em tudo difere da população espanhola mais próxima, que fica a nove quilómetros de Barrancos.

“Aqui ao lado, em Espanha, temos uma resposta 24h00, é uma primeira resposta muito interessante para qualquer preocupação de saúde. Portanto, alguém que tiver um filho menor com uma maleita, que estiver a sofrer de um problema qualquer, de uma enxaqueca, de uma rinite, pode perfeitamente ir ao médico em Espanha e ser atendido”, detalha.

Mas isto resolve apenas o primeiro diagnóstico, porque, como o autarca reconhece, um português ao ir receber tratamento a Espanha, a partir do momento em que é necessário fazer exames complementares, “isso cria um conjunto de entropias para as pessoas poderem realmente ser atendidas”.

A prática mostra que o procedimento comum é o de recomendarem que o doente “acabe por ir a um hospital em Portugal fazer os exames correspondentes”.

O autarca de Barrancos lamenta as diferenças entre os dois países. “Não temos a mesma sorte de Espanha e todas as populações de menor dimensão, que são muitas em Portugal, julgo que, se calhar, 50% dos municípios têm menos de 10 mil habitantes, a menos que estejam próximos de algum centro urbano de uma dimensão, acabam por não ter resposta”, lamenta.

A comparação com o outro lado da fronteira, para quem ali vive, torna-se inevitável. Dalila Lopes, de 53 anos, nascida e criada naquela terra raiana garante que olhar para Espanha aumenta a sensação de discriminação.

“Temos aqui Ensinasola, que fica aqui a nove quilómetros. É uma provocação igual a Barrancos, se calhar com menos habitantes, e tem médico 24 horas por dia. O sistema de saúde é diferente. Nós, às vezes, pensamos que estamos aqui neste cantinho, não é?E para vir a Barrancos tem de se vir de propósito. Estamos aqui esquecidos”, lamenta.

“E sentimos muito esse esquecimento por parte dos nossos governantes, não é de agora, é de sempre”, acrescenta. Isso leva a que os barranquenhos, às vezes, pensem que “se estivéssemos aqui do outro lado, a saúde já era diferente”. E, por isso, “muitas vezes vamos lá, damos um saltinho”.

A vizinha Ana Isabel, de 63 anos, reforça o sentimento. “Temos sempre de pensar que sempre vivemos isolados. Temos esta resiliência de termos sempre estado isolados do resto das cidades, estamos longe”, sublinha.

Essa resiliência é uma caraterística de que tem orgulho, mas não faz com que uma ida a uma unidade de saúde se torne mais barata. “Quem tem carro próprio é mais fácil, mas quem não tem, tem que recorrer aos transportes públicos ou aos bombeiros…”, concretiza.

E os bombeiros se não cobram a quem tenha requisição do hospital, podem levar 120 euros a um não sócio da corporação pelos 220 quilómetros de ida e volta a Beja. Para os sócios, o valor desce para metade.

“O concelho há muito tempo que é empobrecido, as pessoas que têm reformas de 300, 400 euros. Imaginemos que a pessoa não é sócia [dos bombeiros] e tem de pagar mais ou menos 120 euros e tem de ir a quatro consultas num mês. Certamente, a pessoa escolherá aquela consulta que lhe faz mais falta e vai a uma porque o orçamento mensal não lhe vai chegar”, ilustra o subcomandante dos bombeiros Manuel Cortegano.

A forma como a população olha para estes problemas está plasmada em Emílio Domingues. A “resignação” impera. O subcomandante dos bombeiros concorda que as pessoas já se habituaram. Quem estranha e reclama acaba por ser quem vem de fora.

“É mais difícil de explicar quando são pessoas que vêm cá passar férias ou pessoas que já se reformaram e retornaram à vila”, conta o bombeiro, que acrescenta que esses “ficam um bocado revoltados e não compreendem que têm de se deslocar a duas horas de caminho para irem fazer um simples raio-x”.

A reivindicação maior dos barranquenhos acaba por ser a de melhores acessibilidades para quem sente viver “no fim da linha”. Dalila Lopes reconhece que é impossível ter um hospital em cada concelho. Não é isso que pedem.

Mas estando a 110 quilómetros da primeira resposta diferenciada de saúde, se há algo a fazer é melhorar no imediato as acessibilidades. ”Isso é importantíssimo para fazer a ligação a qualquer ponto, e nós aqui estamos no fim da linha”, descreve.

Dalila nem sequer pede uma estrada nova com um novo trajeto, pede apenas para que “arranjarem a pavimentação”. “Imagine o que é uma pessoa doente, numa ambulância em estradas em que vamos aos saltos”, critica.

Mas falando da rede viária, mesmo em Beja, o cenário está longe de ser o ideal. Nem na capital de distrito existe uma autoestrada. Tudo fatores que fazem a população de Barrancos queixar-se da falta de atratividade daquela cidade para os médicos, sendo muitas vezes os quadros preenchidos com profissionais de outros países.

Num café do centro da vila, a conversar com amigos está o jovem Marcos, de 24 anos. Queixa-se também ele do isolamento e de não poderem ter acesso a um médico quando querem.

“Às vezes, uma pessoa precisa de recorrer por alguma coisa séria, e tem de tirar quase um dia de férias para ir fazer qualquer coisa que devia estar ao acesso de todos”, lamenta.

E é essa falta de opções, no que à saúde concerne, que leva muitos a pensar duas vezes em ficar ou sair de Barrancos. “Gostava muito de ficar cá a viver, ter um trabalho aqui, e condições para viver cá além do trabalho. A saúde é um dos motivos que leva a que sair de Barrancos seja cada vez mais uma opção”, reconhece.

“No fundo, a saúde é um reflexo de tudo. Estamos isolados quando queremos qualquer serviço, seja saúde ou de outros”, conclui.

O bombeiro Manuel, de 35 anos, também fala do mesmo problema. “Antes, pensávamos que não nos ia tocar a nós, mas com isto do cancro a aumentar, da pandemia do Covid e tudo mais, qualquer pessoa já tem mais medo e já procura sítios onde a medicina esteja avançada, esteja perto. E mesmo pessoas jovens que tenham filhos, muita gente queixa-se das maternidades que estão longe”, avança.

Para Ana Isabel, a saúde é apenas só mais um fator para que os jovens não se fixem. Tem dois filhos que estudaram fora, e já não regressaram. A falta de oportunidades de trabalho pesou mais, acredita.

O autarca local reconhece que, claramente, estas são questões que contribuem para que o município tenha dificuldade em fazer crescer a população. Segundo o último Census, vivem ali 1.438 pessoas. Uma terra que não é para novos nem para velhos.

“Por muito que isso nos custe admitir isso, mas realmente é uma realidade. Muita gente evita viver em Barrancos. Tenho pessoas de uma certa idade que não querem vir para aqui viver de forma definitiva porque dizem que estão muito longe dos grandes centros, onde há realmente uma resposta rápida em termos de medicina. É um problema”, reconhece Emílio.

“A gente jovem é igual, qualquer pessoa realmente sabendo que tem um hospital privado ou público a cinco minutos de casa, pensa muito bem e pondera a hipótese de vir ou ficar em Barrancos”, remata o presidente da Câmara.

  • Fonte: Rádio Renascença
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