"O ministro da Educação quer fazer muita coisa ao mesmo tempo”

  • 15/09/2026 05:50
  • Redação

Para o economista, o aumento do número de alunos é, em si mesmo, uma notícia positiva para o país, mas a resposta das estruturas do Estado deveria ser mais atempada e capaz de acompanhar as mudanças demográficas.

"Eu diria que isto é uma excelente notícia para Portugal, porque simplesmente isto mostra que há muitos alunos, há de facto mais alunos jovens e haver jovens em Portugal é uma coisa muito boa", afirma João Duque.

O comentador considera, no entanto, que a integração destes alunos, muitos deles devido à imigração e outros à transferência do ensino privado para o público, deveria ser planeada com maior antecedência.

"É pena que estes novos jovens que integram e que estão a entrar na estrutura, muitos deles por efeito da imigração, outros por transferência do sistema privado para o público, não seja feito de forma atempada e de forma mais regular", sublinha.

Para João Duque, o facto de problemas semelhantes surgirem todos os anos demonstra que não se trata apenas de situações pontuais.

"Se acontece todos os anos, há aqui um problema estrutural", defende, considerando que situações de última hora devem existir, mas não podem envolver "este volume".

A possibilidade de professores terem sido transferidos de estruturas do Ministério para as escolas, levando consigo conhecimento acumulado, é apontada por João Duque como um sinal de fragilidade na organização dos serviços públicos.

"Isto mostra a forma absolutamente inaceitável como se organiza um serviço, porque um serviço não pode estar dependente de pessoas que se movem para um lado e depois o serviço perde memória ou perde competências", afirma.

Para o economista, as instituições devem manter a sua capacidade de funcionamento independentemente das pessoas que as integram.

"Não há sistema, não havia um sistema que pudesse transitar de um lado para o outro para que as pessoas que estão num serviço, muda quem faz, mas o serviço continua", sustenta.

Na opinião de João Duque, esta situação está a provocar uma "perturbação grande", que acaba também por ser aproveitada politicamente. O comentador lembra, a este propósito, que o Partido Socialista já admite avançar com uma comissão de inquérito para avaliar o que está a correr mal na Educação.

"Há sempre esse aproveitamento", afirma, referindo-se também à Fenprof, que, na sua perspetiva, perdeu uma das principais bandeiras reivindicativas depois de o atual ministro ter resolvido o problema da contagem do tempo de serviço dos professores.

O comentador considera que a estratégia do ministro da Educação envolve demasiadas alterações em simultâneo, aumentando o risco de falhas durante os períodos de transição.

"Ele quer fazer muita coisa ao mesmo tempo", reforça João Duque, apontando mudanças no sistema de correção dos exames, na organização interna dos serviços e nos mecanismos de afetação.

"Tem um risco enorme e vai-se vendo o efeito do risco, que é quando as coisas não correm tão bem nas transições, nas mudanças", afirma.

O economista reconhece que as reformas podem provocar dificuldades temporárias, mas defende que estas devem ser acompanhadas por períodos de transição adequados.

"Vai mudando com períodos de transição curtos, e depois tem este problema. Mas que, enfim, são as dores de mudança", conclui.

  • Fonte: Rádio Renascença
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