Foi assim que se tornou especial o Como de Fàbregas, o ‘Cruijff' do Stadio Giuseppe Sinigaglia
- 15/09/2026 11:25
- Redação
A inteligência artificial e a sua eventual capacidade para varrer a humanidade para debaixo do tapete na próxima década tem sido o tema do momento. Talvez por isso não se esteja a falar o suficiente do que se está passar no Stadio Giuseppe Sinigaglia, um lugar pitoresco lambido pelo famoso lago.
Como, uma cidade no norte de Itália, é por estes dias o acelerador de partículas do futebol moderno e futurista. Em 2017 os problemas financeiros – a terceira falência em 20 anos – levaram o clube para a quarta divisão. Dois anos depois, os irmãos indonésios Hartono, Robert e Michael, compraram o clube através da empresa Sent Entertainment, que pertence ao Djarum Group. Foram-se juntando estrelas à propriedade, como Thierry Henry e Cesc Fàbregas.
O último, um excelso e fino centrocampista, terminou ali a carreira de futebolista e assumiu o papel de treinador pouco depois, em novembro de 2023, após a demissão de Moreno Longo quando estava em sexto lugar na Serie B, a seis pontos dos lugares que permitiam o acesso ao lago dos tubarões. E o Como garantiu logo naquela temporada a subida de divisão, só atrás do Parma.
Com Nico Paz, que seria e é o rosto principal desta história que quase pertence a um guião de Hollywood, Sergi Roberto, Pepe Reina, Andrea Belotti e Raphael Varane, agora no gabinete da educação do clube, o Como terminou em 10.º em 2024/25, numa participação na Serie A que não acontecia há 21 anos.
Aos resultados importantes e à identidade que obviamente estava a ser construída, o Como, com um mercado cirúrgico e mais ou menos anónimo, terminou a liga em 2025/26 na quarta posição com a melhor defesa do calcio, à frente de Milan, Juventus, Atalanta e Bologna. Ficou apenas a dois e cinco pontos de Roma e Nápoles, na terceira e segunda posições. O campeão, Inter, ficou mais longe, a 16 pontos.
“Cesc é, talvez, o que Johan Cruijff foi para o Barcelona, oxalá mais”, sentenciou o presidente do clube, Mirwan Suwarso, por ocasião da estreia vitoriosa na Liga dos Campeões (4-1 vs. Leipzig). “Ele ajudou-nos a chegar aqui. O mais importante no Cesc é como ele nos ensinou a acreditar, a pensar em grande e a sonhar em grande. Ele provou que tudo é possível se realmente trabalhares arduamente.”
Um jornalista da Movistar mostrou o vídeo da declaração de Suwarso a Fàbregas, um soldado de veludo da fábrica de talento de Arsène Wenger no Arsenal, e o espanhol assumiu ser “muito bonito”. Cesc confirmou que o presidente ligara antes, impressionado pela atenção mediática e todo o aparato à volta de um jogo de Champions, a agradecer porque tinha sido feito "história”.
Depois, a reflexão de um futebolista que foi sempre cerebral e intuitivo, algo que parece transportar para as suas equipas: “Somos um clube muito jovem ainda, estamos a dar passos demasiados rápidos, estamos aqui e pensávamos que estaríamos aqui em cinco, seis anos. Então, foi tudo muito mais rápido do que o normal, temos de nos adaptar. Eu sou um sonhador.” Saltamos a parte em que se banaliza como jogador, mas não aquela em que considera que a mentalidade de futebolista é decisiva e é semeada agora nas almas dos seus futebolistas.
O Como vai somando algumas decisões que o torna especial, como aquela em que a direção abdicou dos seus lugares no estádio, no primeiro jogo na Liga dos Campeões, para permitir que os adeptos mais velhos, nascidos em 1950 ou antes, possam assistir ao momento histórico. Também gerou debate quando Varane, o tal diretor no pelouro da educação, informou que nas camadas jovens o cabeceamento seria abolido ou reduzido para evitar mazelas no cérebro das crianças.
Como o estádio é pequeno e a receita da bilheteira é pouca, e tendo em conta que o clube quer manter os €20 nos bilhetes para a comunidade local, a criatividade entrou em campo: alugaram os condomínios à volta do estádio, ali no lago, e tornaram aquela experiência mais especial, com jogo e estadia por umas boas centenas de euros.
Mas há um dado mais ou menos desconhecido que está a desfilar nas redes sociais por estes dias, talvez assombroso, quem sabe pertencente à ficção científica, uma novidade esbugalhadora de olhos, que empurra queixos para o solo, que faz questionar tudo e tanto: o tal senhor que rotulou Fàbregas de Cruijff de Como, atualmente na terceira posição da Serie A, revelou como o treinador trabalha, destapando as informações que partilha com a direção.
“O Cesc escreve um plano de jogo que passa à direção 24 horas antes de cada jogo”, explicou Suwarso no podcast acima mencionado. “Os proprietários vão ver o jogo e podem entender o que devem procurar, em vez de dizerem ‘meu deus, o avançado não faz golos’. O trabalho dele não era necessariamente marcar, se calhar era ser uma distração, por exemplo. Como estamos a construir? Estamos a jogar com 2+3 na construção? Estamos a fazer um 2+4? Quem está a baixar no terreno para abrir espaço? Quem está a correr para onde?”
Este homem colocou um alvo nas costas de Cesc Fàbregas, será talvez o treinador mais desejado dos próximos tempos. Que seja investidor do Como 1907 é uma bela notícia para os 85 mil cidadãos daquela città.
“Depois do jogo, o Cesc também escreve um relatório assente na forma como o jogo se desenrolou tendo em conta a previsão que tínhamos. Ao mesmo tempo, a nossa equipa de dados cria uma previsão independente sobre como deverá desenrolar-se o jogo”, acrescentou.
Resumindo, os cartolas conhecem as perspectivas de vitória e de desempenho, para depois serem comparadas com a realidade. Este dirigente, demonstrando estar realmente no futuro, recorreu até à famosa métrica ‘golos esperados’ ou 'expected goals' (xG). “Por exemplo, quando jogamos contra equipas com blocos baixos em que é muito difícil porque têm oito defesas, normalmente o xG pode ser 0.8 ou 0.9. Se conseguirmos 1.3 e empatarmos 0-0, fizemos melhor do que era suposto e estaremos felizes com isso.”
Falta dar camadas ao pensamento de Cesc Fàbregas, o arquiteto cruijffista que dificilmente se vai deslumbrar depois de uma deslumbrante carreira em clubes como Arsenal, Barcelona, Chelsea e Mónaco.
Na CBS, num programa irresistível com Thierry Henry, Jamie Carragher e Micah Richards, Fàbregas foi convidado a fazer match entre o estilo de jogo da sua equipa e o treinador que ele teve no passado que realmente o influenciou. “Boa pergunta, Jamie…”, confessou para ganhar uns segundos, agonizando ligeiramente ou simulando ligeira agonia.
“É difícil, vou ser politicamente correto mas é a verdade. Retirei coisas de todos os treinadores que tive. Se tiver de dizer um, vou dizer definitivamente Arsène [Wenger]. Embora não estivéssemos habituados a trabalhar muito taticamente, provavelmente trabalho isso um pouco mais hoje em dia... mas ele era tão inteligente a escolher jogadores que ele sabia que percebiam, que eram perfeitos para o futebol dele, jogadores inteligentes, que ficavam no pocket [espaço entre linhas], que atacavam o espaço, que viam o jogo de uma forma diferente. Foi esse o melhor atributo do Arsène, fê-los melhores jogadores, juntou-os no relvado para fazerem a diferença.”
E no Como, como é? “Ter esta posse de bola… tentar ser vertical quando podemos, tentamos explorar os espaços nas costas quando eles são agressivos homem a homem, quando estão mais na zona. Identificamos cada fase do jogo, como podemos feri-los. Cada jogo é diferente, treinadores e jogadores fazem coisas diferentes. Estamos a tentar ter uma ideia de futebol e penso que a identidade que tínhamos no Arsenal era muito clara, podemos ir um bocadinho nessa direção. Vamos tentar.” Henry, ex-companheiro em Londres, soltou um “uah” regozijante com valências de suspiro com valências de suspiro.
O que será o Como depois de tanto não saberemos. Da quarta divisão, com os cofres cheios de agonia, à Liga dos Campeões contam-se sete anos. Sabemos que em Itália, um país cuja seleção faltou aos últimos três Campeonatos do Mundo e onde o talento não abunda, os olhos estão todos no Stadio Giuseppe Sinigaglia e no que pode fazer e transmitir Cesc Fàbregas, um senhor futebolista transformado num senhor treinador.