Permitir que doentes cegos reconheçam rostos é o próximo objetivo dos vencedores do Prémio Champalimaud
- 15/09/2026 13:00
- Redação
O médico húngaro Botond Roska e o oftalmologista francês José-Alain Sahel foram distinguidos, esta terça-feira, com o Prémio António Champalimaud de Visão 2026. O galardão, no valor de um milhão de euros, destaca a investigação “inovadora” realizada por ambos “para recuperar a visão em pessoas com deficiência visual ou cegueira causada por doenças da retina”.
Botond Roska, fundador do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica, em Basileia, na Suíça, e José-Alain Sahel, fundador do Instituto da Visão, em Paris, França, são dois dos mais prestigiados e premiados investigadores do mundo no desenvolvimento de tecnologias destinadas à recuperação da visão.
A retina, ou seja, o tecido que reveste o interior do globo ocular, é um dos principais objetos da vossa investigação. Qual é o principal desafio hoje para os cientistas relativamente a esta estrutura do olho, essencial à visão?
Botond Roska: Penso que o principal desafio, que é semelhante ao cérebro, é o facto de existirem muitos, muitos tipos diferentes de células. Podemos imaginar a retina como um computador constituído por partes distintas. Frequentemente, as doenças têm origem em áreas diferentes: como compreender estas doenças e como desenvolver terapias continua a ser um grande problema. Outro grande desafio para nós é que a retina humana é muito diferente da retina de um rato (fácil de investigar). Na verdade, quando falamos da maioria das grandes doenças da retina, nem sequer sabemos qual a razão que leva uma pessoa a desenvolver determinada doença ou qual o mecanismo dessa doença.
José-Alain Sahel: Todos os dias lidamos com múltiplas patologias que afetam diferentes tipos de células da retina, mas que também se encontram em diferentes fases. A terapia que podemos aplicar numa fase inicial de uma doença não é necessariamente a terapia que vai funcionar numa fase avançada. Sempre que estamos a desenvolver uma abordagem, temos de ter em consideração que vai ser dirigida a um determinado grupo de pacientes.
Quando se fala de uma conquista na investigação, as pessoas acreditam que vamos ter cura para tudo, e, na maioria dos casos, isso não é verdade. [Essa conquista] vai ser direcionada para um paciente muito específico, com uma condição muito específica, numa determinada fase da doença. Quando desenvolvemos ciência, quando desenvolvemos uma estratégia, temos de ter isso em conta. E quando comunicamos o tema, também temos de ter em consideração que cada paciente se encontra numa situação diferente.
É também assim que avaliamos as terapias, porque aquilo que analisamos nos pacientes — que células ainda estão presentes, que parte do tecido está danificada — é muito diferente de um paciente para outro. Em contraste com os ratos, por exemplo, onde podemos ter algo muito reprodutível, nos seres humanos temos de ter em consideração onde estamos, com quem estamos a falar e quais são as expectativas.
Botond Roska: Ambos trabalhamos em muitas doenças diferentes. Não apenas em optogenética, mas esta foi a área em que começámos a colaborar e penso que é isso que chama mais atenção. A optogenética é um conceito extremamente simples: consiste em retirar um gene de uma alga que codifica uma proteína sensível à luz, e introduzi-lo novamente num tipo específico de célula para a tornar sensível à luz. É fácil de explicar, mas muito mais difícil de fazer.
José-Alain Sahel: De muitas formas. Comunicamos pelo menos uma vez por semana, quando não é todos os dias. Acho que somos complementares no sentido em que a minha perspetiva está mais centrada no paciente – estou sempre a tentar perceber o que poderia ajudar este tipo de pacientes, numa certa fase da doença.
Quando a optogenética começou a surgir como área de investigação, Botond percebeu imediatamente a sua importância e foi um dos primeiros a aplicá-la a um determinado tipo de células da retina. No que me diz respeito, também me pareceu que poderia ser um momento de viragem para os pacientes cegos, para os quais não existia qualquer cura naquela altura, e achei que [a optogenética] poderia ajudá-los a recuperar algum grau de visão. Também faço alguma investigação em laboratório, mas a investigação que cada um faz tem ângulos distintos: um está mais focado no desenvolvimento e o outro mais na área clínica. Ainda assim, os papéis estão constantemente a mudar e estamos sempre a discutir. É muito, muito complementar.
Esta colaboração entre a área clínica e a ciência básica é a chave para que possa haver avanços científicos mais significativos? É um dado adquirido que só assim faz sentido?
Botond Roska: Para mim, a amizade foi sempre muito importante, porque trabalhamos de forma muito próxima. Sou médico, mas deixei a medicina e passei toda a vida a fazer investigação. Quando saí da faculdade de medicina, interessava-me compreender o cérebro saudável e o sistema visual saudável, e não estava tão interessado na tradução clínica que isso pudesse ter. Tal como o José, quando ouvi falar de optogenética, foi a primeira vez que pensei: "Isto é algo que desperta os meus genes de médico." A minha compreensão sobre a medicina e a oftalmologia vem quase inteiramente do José. Fui inspirado a criar um instituto [o Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica, em Basileia, na Suíça] e a direcionar toda a minha investigação para a oftalmologia por causa do José. Por isso, para mim, é muito, muito importante que o José me tenha convencido, sem o dizer diretamente, a empenhar todos os esforços nesta direção.
José-Alain Sahel: É uma amizade e uma inspiração. Enfrentamos muitos desafios. Vemos pacientes e não sabemos o que fazer. Não sabemos como ajudá-los. Mas depois percebemos que pode haver uma pequena brecha. Precisamos de pessoas brilhantes, muito inteligentes, de mente aberta. As discussões que temos são uma fonte constante de inspiração para levar a fronteira do conhecimento mais longe. Por isso, somos muito complementares.
Até que ponto a investigação que têm desenvolvido permite dizer que há pessoas cegas que passaram a ver?
Botond Roska: Acho que é muito perigoso dizer que alguém "consegue ver". Ver é um processo extremamente complexo. Nós estamos nos primeiros passos. Comparando com não ver absolutamente nada, claro que quando vimos os primeiros pacientes a encontrarem um pequeno objeto, foi muito inspirador. Mas esta tecnologia ainda não está pronta. Penso que, nos próximos, diria, “muitos anos”, ela vai ser continuamente aperfeiçoada.
Para mim, o ponto-chave será quando estes pacientes forem capazes de reconhecer rostos. Esse será o momento em que direi: "Esta tecnologia está a atingir a maturidade." Depois, continuará a ser aperfeiçoada durante muito tempo. Espero que nos próximos 5 a 10 anos seja isso que vamos conseguir. Mas como dizia: é uma melhoria constante. Não existe um momento Eureka. É um trabalho e uma aprendizagem constantes. Desde que fizemos primeiro ensaio clínico, aprendemos muito. Agora sabemos melhor o que poderemos ter de fazer para conseguir uma visão de alta resolução e permitir o reconhecimento de rostos. É um processo. É um pouco como aconteceu com a Inteligência Artificial (IA): a IA existia há 30 anos e ninguém se importava. A certa altura, passou a ser possível fazer perguntas e obter respostas razoavelmente boas e as pessoas começaram a utilizá-la.
Esta é uma tecnologia que continua a avançar. Nós e outros [investigadores] estamos a acrescentar novos elementos. A dada altura, o reconhecimento facial seria um marco que quando for alcançado, penso que será um pouco como quando o ChatGPT se tornou público. Aí poderíamos dizer: “Agora as pessoas conseguem reconhecer...”.
José-Alain Sahel: Estamos a falar de uma doença específica que causa cegueira: a retinite pigmentosa. Pertence a um grupo de doenças genéticas que afetam a retina. É uma das mais frequentes. Existem cerca de 80 genes identificados, um pouco mais do que isso. Esta doença leva as pessoas a perder inicialmente a visão adaptada ao escuro.
Depois perdem a visão periférica e acabam por ficar completamente cegas em algum momento da vida. Algumas pessoas podem manter a perceção da luz, mas não muito mais do que isso.
Esta doença é importante porque é muito grave, mas também porque é uma doença cuja biologia compreendemos melhor. Existem alguns modelos da doença que podem ser utilizados para testar terapias e desenvolvê-las antes de chegarmos aos seres humanos.
Depois de trabalharmos nesta doença, podemos pensar que a investigação poderá ter aplicações em doenças mais frequentes, como a degenerescência macular relacionada com a idade. Mas existe uma diferença entre as duas. São patologias muito diferentes. Parece que existem alguns pontos em comum que poderiam ser utilizados de uma doença para a outra. O que é importante é que todas estas abordagens que temos vindo a desenvolver só funcionam se existir uma ligação entre o olho e o cérebro.
O nervo ótico tem de continuar funcional. Em pacientes que perderam o nervo ótico devido a um traumatismo ou, por exemplo, devido a glaucoma avançado, não podemos esperar que esta terapia funcione.
Estamos a trabalhar noutras abordagens para este tipo de pacientes, mas esta abordagem está atualmente direcionada para um grupo específico de pacientes. Como também estamos a desenvolvê-la para fases finais da doença, para pessoas que perderam praticamente toda a visão, a conquista até agora consiste em conseguir ver alguma coisa: ver objetos, reconhecer objetos, encontrar onde eles estão, mas não é possível reconhecer rostos, como o Botond disse. Nem sequer é possível ler, mas estamos a trabalhar para melhorar a resolução e, se conseguirmos isso, poderá ser aplicável a mais pacientes que estejam em fases menos avançadas da doença. Mas é uma abordagem passo a passo. O que é bom é que tudo indica que estamos na direção certa, mas também nos mostra o que está em falta e o que precisamos de fazer para avançar.
Já referimos a Inteligência Artificial nesta conversa. Como acontece noutras áreas, também na ciência vos parece que possa haver motivos de preocupação?
Botond Roska: Na minha investigação, acontece precisamente o contrário. A IA melhorou tremendamente aquilo que conseguimos fazer. É claro que existem grandes questões no mundo, como a possibilidade de a IA ser utilizada para nos bombardear ou para tecnologia militar, e concordo que isso é preocupante. Mas na minha investigação, considero-a extremamente útil. Estamos a tornar-nos muito melhores e muito mais rápidos graças às tecnologias de IA. Por isso, na minha investigação, ainda não vi nenhum sinal preocupante.
José-Alain Sahel: Sim. Também nos ajuda na clínica a caracterizar melhor a fase da doença de cada paciente e a analisar todos os dados. Recebemos uma quantidade enorme de dados dos pacientes, incluindo através do processamento de linguagem natural.
Quando falamos com um paciente, podemos transcrever a conversa. Podemos garantir que não perdemos nenhuma informação importante da história clínica. Podemos analisar imagens. Também estamos a desenvolver modelos preditivos da evolução de uma doença. Isto pode ser utilizado para definir melhor os ensaios clínicos: quais os pacientes que poderão beneficiar mais e o que podemos esperar de cada paciente. É como tudo. Podemos utilizar a IA por más razões e tornar as coisas terríveis. Mas também podemos tornar as coisas muito melhores todos os dias, e é isso que estamos a tentar fazer.
Referiram por diversas vezes que o vosso trabalho é um processo. Avança-se passo a passo. Onde é que gostariam de chegar no próximo ano?
Botond Roska: Estamos a trabalhar com o José e a nossa colaboradora Valentina Emiliani [diretora de pesquisa do Instituto da Visão, em Paris], para melhorar a visão dos pacientes através de novas tecnologias, com o objetivo potencial de conseguir reconhecer rostos. Esse é um objetivo.
Estamos, também, a trabalhar numa outra versão da optogenética, que publicámos em conjunto, chamada optogenética dos cones. Por isso, penso que existem duas oportunidades: os novos ensaios clínicos que estão a surgir e a melhoria da visão dos pacientes que já foram tratados. É nisso que estamos focados do ponto de vista da tradução clínica.
Botond Roska: Há muita coisa a surgir. A biotecnologia em que ambos trabalhamos implica colocar nos olhos um vetor viral, ou seja, uma pequena partícula que contém algum ADN. Agora, cada componente deste vetor desenvolvido por engenharia genética pode ser melhorado. Isso significa que a próxima geração de terapias será muito mais segura e muito mais eficaz.
José-Alain Sahel: Sim, trata-se de direcionar tipos específicos de células e pacientes específicos. É uma medicina de precisão. Tentamos definir tanto a tecnologia como a seleção do paciente que deve ser tratado e em que fase da doença. É isso que estamos a desenvolver para os vetores: tentar redirecionar as células para alcançar a maior resolução possível.
Daqui a um ano, será apenas mais um passo. É um processo interminável, por isso provavelmente serão necessários cinco anos, mas se olharmos para onde estávamos há cinco ou dez anos, estamos a fazer progressos. Não é que não estejamos a avançar, mas é mais lento do que gostaríamos e do que os pacientes gostariam também.
Têm ambos uma longa carreira na ciência. O que vos levou a interessarem-se por esta área da visão?
Botond Roska: Para mim, foi completamente aleatório. Terminei a faculdade de medicina, estudei matemática e medicina. Na verdade, não queria ver pacientes. Queria simplesmente compreender. Não conseguia fazer coisas que não compreendesse. Certa vez, num jantar, conheci uma pessoa que estudava a retina e me disse que este era um lugar onde era possível compreender as coisas, utilizar matemática. É uma parte do cérebro que realiza cálculos que podem ser observados em laboratório. Fiquei entusiasmado com isso.
José-Alain Sahel: Inicialmente nem sequer planeava ser médico. Decidi tornar-me médico porque gostava de ciência e de pessoas. Percebi que a medicina não é realmente científica, mas é o que é. Mais tarde, quando comecei a decidir que especialidade escolher, entrei na oftalmologia quase por acaso. Estava à espera de outra coisa, mas depois descobri a beleza do olho, a sua complexidade, o facto de ser uma parte do cérebro e a importância de restaurar ou preservar a visão. Mas não tinha nenhum plano. Aconteceu sobretudo por acidente.
Atendendo ao contexto global marcado pela instabilidade, pelas guerras, por vários cortes no financiamento da ciência nos Estados Unidos, por exemplo, acreditam que a ciência possa evoluir como seria desejável na próxima década?
Botond Roska: O mundo é sempre uma montanha-russa. Estou muito entusiasmado com aquilo que fazemos e com o facto de nos deixarem fazê-lo. De certa forma, é natural existirem altos e baixos. Estou muito otimista de que, a certa altura, as pessoas vão voltar a reconhecer que o conhecimento, a ciência são tão essenciais como comer, no sentido em que os seres humanos querem compreender o mundo à sua volta para reduzir a incerteza. Penso que agora estamos numa fase um pouco negativa, mas irá melhorar.
José-Alain Sahel: Se lermos as notícias, pode ser bastante deprimente, mas ao mesmo tempo penso naquilo que fazemos: continuamos a ouvir dos pacientes, de toda a gente, que isto é importante. Não penso que tenhamos escolha. Mesmo que tudo esteja a correr mal, que esteja tudo terrível lá fora e que as notícias sejam realmente preocupantes, temos de fazer aquilo que temos de fazer.
A ciência é a única forma de construir realmente a próxima geração de conhecimento e de desenvolver as próximas terapias para os pacientes. Não tenho uma visão geral de tudo, mas, da minha perspetiva, sei que aquilo que fazemos é necessário. Talvez possamos fazê-lo melhor com mais apoio ou seja lá o que for, mas estamos a fazer aquilo que consideramos necessário.