Pedro Cabrita Reis: "A arte pode ajudar" as escolas em "momento dramático"

  • 15/09/2026 15:42
  • Redação

Pedro Cabrita Reis foi, na década de 70, professor de desenho. Confessa que os seus “colegas” o queriam “expulsar”, mas teve os alunos do seu lado. Ele era o professor que fugia às regras e levava os alunos para fora da sala de aula. O artista plástico, que esta quarta-feira inaugura uma exposição no MAAT, em Lisboa, recorda com saudade e “ternura” esses momentos.

“Há um trabalho infinito e inacabável em relação à forma como a arte pode ajudar a educação e pode ajudar a formar pessoas melhores”, diz o artista, que nesta mostra reúne pinturas, escultura e desenhos criados para a grande sala oval do MAAT. Nas paredes estão muitos quadros que glosam temas religiosos. Não católico, o artista admite que são temas que lhe interessam.

Esta exposição é na sua maioria composta por obras de pintura. Já houve outras fases em que privilegiou a escultura. O Pedro Cabrita Reis regressou à tela?

Não é um regresso. Devemos considerar isto como uma continuidade, porque nunca deixei de pintar. Aliás, digo, por vezes, com alguma ironia, que sou um pintor que fez ao longo da sua vida algumas esculturas engraçadas ou boas, mas sou, fui e serei sempre um pintor que faz tudo o que lhe apetece, inclusive esculturas e desenhos.

É como diz o título da exposição, “livre”? O sentimento de liberdade é uma coisa que o marca?

O sentimento de liberdade é aquilo que define, por essência, a forma de ser artista. Não se é artista se não se tiver essa noção de liberdade arreigada no pensamento, e do pensamento em liberdade derivam obras que são, elas próprias, testemunhos da criatividade, que é um exercício material dessa liberdade, que é sobretudo uma liberdade do pensamento e do espírito.

Vemos nestas paredes do MAAT um conjunto de pinturas intitulas “Ecce Homo”, outras telas que representam Adão e Eva ou várias Pietà. É um diálogo com a história da religião?

Não, eu diria, na verdade, que são temas que derivam para a história da arte, da interpretação de narrativas teológicas. Mas eu encaro este trabalho mais como um debruçar sobre a história da arte.

É da história da arte que vem a arte que se transformará em história da arte.

Porque eu tenho para mim muito claro que a civilização e a cultura europeia e ocidental à qual eu pertenço, porque não nasci em África, nem na Patagónia, nem na Austrália, nasci em Lisboa, na Europa é uma cultura que foi se fundando, crescendo, aumentando e transformando, mas sempre a partir de uma longínqua base pré-helénica, grega, romana. É uma história à qual não se pode fugir, interessa-me essa história.

Portanto, estas pinturas não têm por objetivo testemunhar outra coisa senão o meu interesse pela história da arte. No particular momento da história da arte, que até praticamente ao século XIX, teve na igreja a grande encomendadora dos artistas.

Naturalmente, a igreja encomendava aos artistas pinturas, esculturas, que tivessem por tema momentos da teologia cristã, católica. Esse é um cenário onde eu vou beber, e buscar motivos que me interessam e momentos que de alguma forma vêm até mim e se transformam em leituras muito pessoais e contemporâneas disto que é a matéria do que os meus antecessores fizeram nos últimos mil anos.

Não me importaria, devo dizer-lhe, que as “Quatorze Estações” que tenho agora expostas em Veneza fossem encontrar uma casa dessa natureza, um lugar de culto onde pudessem de facto estar, e onde as pessoas pudessem comungar com o sentimento que anima a narração da paixão de Cristo. Seria bonito! Não sei… nunca se sabe o que é que o futuro trará.

Olhando à volta, aqui neste outro lado da exposição vemos esculturas que usam materiais da indústria, aquilo que também sempre lhe interessou trazer para dentro do ateliê. De que forma é que estes materiais que dignificam e mostram esse trabalho industrial, quando entram dentro do ateliê se transformam em arte?

O pensamento e o olhar do artista transformam tudo aquilo que o artista definir como passível de ser encarado como uma obra de arte.

Temos o exemplo incontornável do urinol de Duchamp, em 1917 que entrou na história da arte e na perceção das motivações dos artistas. O que um artista define como arte é arte. Pode ser uma pedra, um saco de roupa abandonado junto a uma porta na rua, pode ser o tal famoso urinol ou podem ser, como é no caso do meu trabalho, materiais que vêm do universo da construção, o ferro, os alumínios, as vigas de ferro, os tubos de alumínio.

São materiais com que se fazem casas, fábricas, pontes, enfim, e, contudo, ao serem abordados e manuseados pelo olhar, pelo pensamento e pelas mãos do artista, saem desse universo que os caracteriza e ganham uma nova identidade, passam a ser objetos de arte, passam a ser matéria para fazer arte.

Estamos nesta sala oval do MAAT, estamos imersos na sua exposição. Podemos dizer que esta exposição reflete Pedro Cabrita Reis em 2026?

É um facto, mas eu diria que ela reflete ainda com maior rigor a antecipação do Pedro Cabrita Reis em 2027 e por aí fora.

Vou “com o coração livre de cuidados” continuar a trabalhar. Já tenho alguns projetos para um futuro próximo em andamento e que me interessam bastante e que a seu tempo se saberá o que é e onde estão e como serão.

Para já, esta exposição do MAAT, para mim, é muito importante, porque é um sítio privilegiado com estas características desta sala oval. É para mim um lugar enigmático, encantador e muito propositivo.

Estes trabalhos que trouxe e que aqui construí, em relação aos quais construí uma conversa que eles mantêm entre si e que permitem ao espectador passar de um lado para o outro, sem roturas de narrativa, não é uma exposição que tenha ambições didáticas, mal feito fora!

Nunca tive ambições didáticas. É uma exposição que tem polos que permitem ao espectador ir de uma para outra obra e construir a seu tempo e a sua maneira, as suas referências pessoais que derivam do modo como cada pessoa olhou para a obra.

Podemos admitir que a arte serve acima de tudo para exponenciar a inteligência. Essa inteligência é de facto aumentada pela liberdade do trajeto que cada um pode efetuar dentro da sala de exposições, indo de um para o outro trabalho e construindo com isso qualquer arquitetura mental que, em sua opinião, será na verdade aquilo que eles acham que é o Pedro Cabrita Reis.

Precisamos de pensamento crítico nesta fase do país? Estamos numa fase complexa também do mundo. É necessário estimular esse pensamento crítico através da arte?

O pensamento crítico deveria ser estimulado a partir de casa, ainda antes da escola, e depois na escola. Mas como é que podemos imaginar que se possa estimular, seja o que for, quando a situação das escolas atravessa este momento que o mínimo podemos dizer é dramático?

A experiência da arte, visitar museus, galerias, lugares onde os artistas venham trazer a apreciação pública o seu trabalho, é fundamental e mais fundamental seria se tivesse inscrito numa prática habitual de todo o aparelho do ensino, desde as escolas primárias ou pré-primárias até às universidades.

Para quem quer e acha que há que fazer coisas pelo país, um primeiro imperativo seria seguramente ao nível da educação e na forma como a educação tem a ver com a experiência artística.

Trazer os alunos ao contacto com as obras, ouvir especialistas a falar delas, os próprios artistas, os historiadores de arte, os diretores dos museus, há um trabalho infinito e inacabável em relação à forma como a arte pode ajudar a educação e pode, na verdade, ajudar a formar pessoas melhores.

  • Fonte: Rádio Renascença
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