Em Leiria ainda há casas por reconstruir. "A burocracia é demasiada para quem fica sem nada em segundos"

  • 16/09/2026 02:00
  • Redação

Chegamos a Colmeias pelas 10h00 da manhã. Somos prontamente recebidos pela família de Ricardo Mendes, disposta a mostrar-nos o que perdeu, o que não tem e o que está ainda a tentar construir.

“À nossa esquerda era a casa. Aqui era a cozinha e aqui existiam dois quartos”, descreve Ricardo, de 30 anos, enquanto nos mostra um local a que apenas pela imaginação podemos aceder que um dia, até há poucos meses, tenha sido uma casa onde “não chovia” e com “condições minimamente para a gente habitar e sermos felizes aqui dentro” – como refere o nosso interlocutor.

Olhamos para cima e vemos céu aberto. No dia em que visitamos o local não chove, caso contrário precisaríamos de um guarda-chuva. O teto é neste momento inexistente. A passagem de um comboio de tempestades já lá foi há sete meses, mas os estragos, por aqui, permanecem mais do que visíveis a olho-nu.

No caminho até Leiria avistam-se melhorias em comparação com o que se via ao longo dos últimos meses. Mesmo que ainda haja árvores inclinadas e postes tombados. Fios elétricos, que se entrelaçam sem arranjo, aumentando em número à medida que nos aproximamos do centro do furacão. Ainda assim, tudo bem melhor. Nada a ver com o que vimos em fevereiro e março. Ou com o que vimos mais à frente, em junho.

Mas há casos como da família de Ricardo Mendes, que permanecem sem resolução à vista pelo menos a curto prazo. “É óbvio que neste momento não temos brilho nenhum, porque não temos conforto, mas os meus olhos continuam a brilhar, porque tenho uma filha, tenho uma mãe, tenho uma família maravilhosa, a minha esposa também me apoia em tudo. E isso tem-me dado muita força para continuar no meu dia a dia a saber que vou sorrir. Vou sorrir com um sorriso sem ser aquele sorrisinho amarelo”, desabafa.

A estimativa para os custos totais desta remodelação, adianta Ricardo, passará a ordem dos 60 mil euros. “Quase a rasar os 70”.

Foi a casa onde esta família viveu 15 anos. Na casa de banho, que agora é invisível, tinham sido investidos seis mil euros. Entretanto já parte do dinheiro, a rondar os 30 mil euros, chegou à conta bancária desta família – via seguro e via apoio estatal. Mas, enquanto aguarda a possibilidade de novas tranches, é grande a incerteza relativamente à forma como podem comprar materiais que permitam erguer a casa. “A burocracia é demasiada para quem fica sem nada em segundos”, queixa-se.

Descemos as escadas da casa sem telhado, arrancado pela força do vento, e dirigimo-nos a uma zona antigamente usada por esta família para guardar lenha, animais ou ferramentas. Agora é onde vivem: Ricardo, a mulher, a mãe e a filha de dois anos. “A casa de banho... nós temos ali uma de serviço só para as necessidades maiores. Uma retrete, um lava-mãos para a gente lavar as mãozitas, lavar a cara. Para tomar duche vamos à casa do meu irmão”.

A chaminé da casa caiu para o lado de dentro e destruiu ainda mais a estrutura. Agora, com cimento que vai sendo produzido pelo próprio, Ricardo, com a ajuda de um amigo e do irmão mais velho, vão reconstruindo, com as próprias mãos, o que conseguem. “Após a tempestade ficámos sem nada, sem nada mesmo”, repete ao longo da nossa conversa, que conclui mantendo-se esperançoso no que o futuro pode reservar: “Coitado era se estivesse numa cadeira-de-rodas. Enquanto Deus Nosso Senhor der saúde, vamos embora trabalhar, que para a frente é que é caminho”.

Ao lado, a acompanhar a visita, está a mãe. Acordada durante a madrugada recorda que, quando ia da cozinha para a sala, ouviu um “bum”. Era a chaminé a cair. Depois, esperou por ajuda, assumindo que, dando um passo noutra direção, escapou à morte por um triz. “Eu tinha ficado lá de baixo, tinha ficado”.

Um pouco mais acima encontramos outra casa. Não tão afetada como a de Ricardo, mas afetada. E já reconstruída. Nada parece ter por ali acontecido. Pelo menos, à primeira vista. As telhas estão direitas, o telhado arranjado. É a casa do irmão de Ricardo. “As nossas vidas depois da tempestade Kristin nunca mais serão a mesmas”, lamenta Tiago.

Caminhamos e talvez não chegue a cinco minutos o percurso. Tiago, que deu abrigo à mãe e à família do irmão na fatídica madrugada, lembra que teve “a perceção daquilo que se estava a passar” – já que “da janela do quarto via as telhas a passar à frente”. Seriam cinco da manhã quando deixou a casa, desceu a rua e foi prestar auxílio. “Nunca me passou pela cabeça que estivesse tão danificada”, sublinha. “O vento, quando entrou, pegou por dentro para fora. Voou o que tinha a voar”.

Com a vida “mais ou menos” recomposta, um mês e meio depois das tempestades já podia dormir sem que chovesse ou entrasse água dentro da habitação. Foram 600 telhas novas, colocadas também com o apoio de um pedreiro amigo. “A chaminé voou lá de cima e veio bater aqui nesta árvore”, recorda.

Olhamos em redor e Tiago explica-nos que há quatro anos a aflição foi outra. Estiveram “cercados com os fogos” nessa altura. “Fogos e ventos deu nisto”, afirma desiludido, ao contemplar uma paisagem onde antes, garante, se viam árvores que ajudavam a parar o vento. Agora, sente-se a brisa como não se sentia. “Não temos o aconchego dos pinhais”.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: