Há estudantes a gastar 60% do orçamento na renda. Falta de alojamento “repete-se todos os anos”
- 16/09/2026 03:00
- Redação
Quando Joana Gonçalves começou a procurar alojamento, em junho, estava longe de imaginar que a empreitada fosse levar “cerca de dois meses”. A estudante de 21 anos, que se prepara para ingressar no mestrado em Ciências Farmacêuticas, no Porto, visitou “à vontade 15 casas” antes de encontrar um quarto que lhe coubesse no orçamento.
Este ano, foram colocados 49.991 estudantes na primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior, mais 13,9% do que em 2025. Em Portugal, há cerca de 147 mil estudantes portugueses deslocados, concentrados sobretudo em Lisboa e no Porto.
“Muitos quartos apareciam e desapareciam muito rápido”, explica. “Eu mandava mensagem e, passados cinco minutos, as pessoas diziam que já estava ocupado. Também cheguei a marcar muitas visitas pessoais e, depois, chegava lá e diziam que a visita anterior também já tinha ocupado o quarto.”
Para ficar mais perto da faculdade, acabou por alugar um quarto “um bocadinho mais pequeno” do que desejava. Agora, a renda representa “cerca de 60%” do seu orçamento mensal.
Para tentar aliviar a despesa, Joana candidatou-se ao complemento de alojamento para estudantes deslocados. “Este ano ainda não sei a resposta, mas nos anos anteriores tenho-me candidatado e nunca recebi”, refere.
Em 2026, o Sistema de Ação Social no Ensino Superior foi alterado e o apoio ao alojamento passou a abranger também estudantes deslocados que arrendam quartos no mercado privado.
Para Ruben Leite, a situação é semelhante. O estudante. do segundo ano do mestrado em Engenharia Mecânica, no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), conta que arranjar um quarto para este novo ano letivo “foi complicado”.
Ruben demorou três semanas a encontrar alojamento e, “se tivesse de fazer as contas de cabeça”, diria que a renda lhe leva “cerca de 75%” do rendimento de que dispõe todos os meses.
Quando essa resposta pública é inexistente, a procura concentra-se no mercado privado, o que “ajuda a explicar o movimento dos preços”, que, nota a economista, “não é exclusivo de Portugal”.
Ainda assim, Ruben nunca equacionou a hipótese de desistir. “Consideraria ir e vir todos os dias só para me manter no sítio onde estou, apesar de ser um esforço muito grande”, afirma.
E é precisamente isso que faz Gonçalo Oliveira. Residente em Santa Maria da Feira, desloca-se diariamente de carro para o Porto, onde, tal como Ruben, estuda no ISEP. Frequenta o mestrado em Engenharia e Gestão Industrial e, “como as aulas são à noite”, está “a tentar arranjar um trabalho para ganhar algum dinheiro”.
Se conseguir, pondera “arranjar alojamento para ficar no Porto durante os próximos dois anos”. Tem procurado uma solução, mas considera que, com as rendas atuais, “torna-se um bocado inviável conseguir fazer isso”.
Por enquanto, a alternativa é continuar a fazer diariamente cerca de 70 quilómetros entre Santa Maria da Feira e a cidade Invicta, somando os trajetos de ida e volta. As viagens ocupam “cerca de uma hora e meia a duas horas” e custam “mais ou menos 10 euros por dia”, incluindo combustível e portagens.
No caso de Ruben Leite, que acabou por conseguir ficar no Porto, a escolha continua a pesar-lhe no orçamento. Durante o seu percurso académico, nunca se candidatou a apoios públicos para estudantes deslocados, mas, devido às alterações deste ano ao Sistema de Ação Social no Ensino Superior, vai candidatar-se pela primeira vez.
Vai tentar “apesar de, tecnicamente, não ser considerado um estudante deslocado, porque não vivo a mais de 50 quilómetros da minha faculdade”. Ruben reside a 47 quilómetros do ISEP. “Por 3 quilómetros, fico sem o estatuto de aluno deslocado”, lamenta.
As histórias destes estudantes mostram como a crise da habitação se manifesta no acesso ao ensino superior, mas não esgotam o problema. “Esta crise não é exclusiva do mundo estudantil”, sublinha a economista Vera Gouveia Barros, especialista em habitação e turismo.
“Tivemos ali um longo período de taxas de juro extraordinariamente baixas”, explica, que coincidiu com “uma fase ascendente do ciclo económico”, marcada pelo crescimento dos rendimentos e por níveis elevados de emprego. As taxas de juro também ajudam a explicar a pressão sobre as rendas: quando sobem, aumentam os encargos dos proprietários que compraram casas com recurso ao crédito.
“Eu posso ter uma situação em que, com a prestação que estava a pagar, uma renda de mil euros cobria-me os custos e ainda me dava uma rentabilidade que eu achava interessante, mas, agora, com a subida das taxas de juros, vou sentir que tenho de compensar isso”, ilustra a especialista.
“A minha prestação ficou maior e, portanto, eu também vou querer compensar isso”, concretiza, “e, se não houver grande oferta no mercado, o senhorio tem capacidade negocial para fazer isso”.
Mas a pressão sobre os preços não resulta apenas da subida das taxas de juro ou do ciclo económico. Vera Gouveia Barros acredita que há “uma coisa que vale a pena observar”: as casas vagas, incluindo as que já estão no mercado, mas ainda não estão ocupadas.
Segundo os últimos Censos, realizados em 2021, existiam 723.215 alojamentos vagos em Portugal, o equivalente a 12,1% do parque habitacional. Desses, 236.927 estavam disponíveis para venda ou arrendamento e 248.534 estavam vagos “por outros motivos”. Os restantes não reuniam condições de habitabilidade.
É sobretudo no grupo das casas vagas “por outros motivos” que a economista identifica uma questão por esclarecer: por que razão há imóveis que continuam parados sem qualquer rentabilização?
“Eu não tenho resposta para esta pergunta”, prossegue, “mas há coisas que me dão certas pistas, como por exemplo, a dimensão destas casas. Em Lisboa e no Porto, tanto no concelho como na área metropolitana, há uma percentagem muito significativa destas casas que têm muitas divisões”.
“Mais de metade têm cinco divisões ou mais”, acrescenta. São casas grandes para as famílias atuais, “que estão muito mais pequenas”, mas seriam apropriadas, precisamente, para esta solução de arrendamento por quartos que, provavelmente, é a solução mais procurada ao nível estudantil”.
Todavia, “estas reformas fiscais que foram feitas recentemente deixaram de fora o arrendamento na modalidade de quartos”, assinala Vera Gouveia Barros.
Para a economista, uma “solução imediata” seria “estender esta nova fiscalidade” ao arrendamento de divisões. Para o fazer, diz, “é necessário pensar como é que se traduzem os 2.300 euros, definidos como limite, numa modalidade de quartos”.
Outra solução, que se “implementaria em pouco tempo, mas que não é tão imediata”, passaria por envolver as universidades no acesso ao alojamento privado. Vera Gouveia Barros defende que as instituições possam “atuar como fiadoras dos estudantes”, assumindo parte do risco que hoje recai sobre os proprietários.
Por estarem “próximas dos estudantes” e terem poder para os responsabilizar, a académica entende que as IES poderiam oferecer uma garantia adicional aos proprietários.
Além de “garantirem os contratos”, as universidades poderiam “ajudar na sua elaboração” e fazer “uma espécie de vistoria às casas”, para confirmar o estado de conservação dos imóveis e verificar se existem “as condições mínimas para os estudantes”.
Porém, “a parte da oferta pública de camas, que é aquilo que efetivamente, estruturalmente, resolve o problema, demora mais tempo”, avisa.
“Portanto”, avança, “o número de camas públicas nem para os estudantes bolseiros dá, que são cerca de três mil, muito menos para equilibrar um bocadinho a balança do jogo da oferta e da procura”.
A nível nacional, o desequilíbrio é ainda mais gritante. Um estudo da consultora imobiliária CBRE estima que, para uma procura de 227 mil estudantes (147 mil nacionais deslocados e mais de 80 mil internacionais) há uma oferta de apenas 28 mil camas em residências estudantis públicas e privadas.
Perante este cenário, a falta de respostas leva algumas estruturas académicas a procurar soluções próprias. Jaden Gomes, presidente da Federação Académica do Instituto Politécnico de Lisboa (FAIPL), reconhece que esse é um caminho difícil para a maioria das organizações, mas destaca, precisamente, o exemplo do Porto.
“O que eu acho que também são políticas muito interessantes é o que estruturas como a FAP têm feito: construir residências próprias”.
Academia 24 é o nome do serviço de alojamento estudantil criado pela Federação Académica do Porto, que tem atualmente três residências com 75 camas a preços acessíveis. A mais recente abriu na Póvoa de Varzim e tem capacidade para 11 estudantes.
“Fica a menos de 40 minutos de transportes públicos” do centro do Porto, garante o presidente da FAP. “Nós asseguramos o passe Andante gratuito a todos os estudantes, independentemente da idade, e temos também uma parceria com um grupo de TVDE, que promove 50% de desconto em todas as viagens.”
Na capital, pelo menos por enquanto, estas soluções não são exequíveis. “Adorávamos também poder fazer esse tipo de intervenções, mas, infelizmente, não temos essa capacidade financeira”, declara o presidente da FAIPL.
Para Jaden Gomes, a solução não pode depender apenas da iniciativa ou da capacidade financeira de cada estrutura académica. “Nós não podemos estar a tapar buracos”, afirma.
“Todos os anos alertamos para este problema, todos os anos chegamos ao início do ano letivo e chegamos à mesma conclusão: não temos camas suficientes”, sublinha.
Por isso, não tem dúvidas de que é preciso agir já. “Temos de pensar numa solução, até diria, para ontem”, diz, “para daqui a cinco anos conseguirmos, pelo menos, chegar ao início do ano letivo e dizermos que temos camas suficientes, que não temos estudantes a abandonar o ensino superior devido à falta de alojamento”.
É por reconhecer essa urgência que o dirigente da FAIPL defende um novo Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES), enquadrado numa estratégia de longo prazo que permita antecipar as necessidades das IES.
O PNAES é um programa de investimento público, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que tem o objetivo de aumentar a oferta de alojamento para estudantes a preços acessíveis.
Os dados indicavam ainda que, das 134 obras previstas, apenas 53 estavam concluídas e 81 continuavam em execução.
A proposta de um “PNAES 2.0” é acompanhada por Francisco Porto Fernandes. “Faz falta um plano de longo prazo”, afirma o presidente da FAP, que considera a ideia essencial para fazer face “a esta grande diferença entre a oferta e a procura”.
Enquanto as soluções estruturais não chegam, o Governo tem recorrido a medidas de emergência. Uma delas permitia às IES reservar camas em unidades dos setores público, privado e social para estudantes deslocados, mas foi descontinuada. Algo que o presidente da FAP considera “uma má notícia”.
“O país não aproveitou, mas aqui no Porto, a universidade tinha 200 camas ao abrigo deste protocolo”, afirma.
Existem medidas capazes de aliviar a pressão a curto prazo, mas nenhuma substitui a necessidade de aumentar a oferta pública de alojamento.
Quando essa oferta não existe, os estudantes ficam dependentes do mercado privado e, em muitos casos, o custo do alojamento pode determinar não só onde vão estudar, mas se conseguem ou não frequentar o ensino superior.
“A probabilidade de um aluno chegar à universidade e de ter sucesso escolar”, explica a economista Vera Gouveia Barros, “já é bastante determinada pelo meio socioeconómico de onde vem, pela escolaridade da mãe. E o facto de depois estes alunos poderem ainda ser confrontados com estas dificuldades acrescidas, vai reforçar esta desigualdade”.
“Se estes alunos das camadas mais pobres não conseguem completar o ensino superior porque têm estas dificuldades com a habitação, isso também significa que não vão ter acesso a empregos tão bons como se fossem licenciados ou mestres e, depois, isto vai passando de geração em geração”, remata.