ONU alerta para possíveis crimes de guerra após descoberta de centenas de corpos em Gaza

ONU alerta para possíveis crimes de guerra após descoberta de centenas de corpos em Gaza

  • 16/09/2026 06:42
  • Redação

A descoberta de centenas de corpos e restos mortais entre os escombros de edifícios destruídos em Gaza está a levantar novas preocupações sobre possíveis crimes de guerra, segundo o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk.

A informação é avançada pela Reuters, que cita uma declaração divulgada esta terça-feira pelo responsável das Nações Unidas.

Türk afirma que estão a ser encontrados restos mortais que aparentam pertencer a famílias inteiras, incluindo muitas mulheres e crianças. "É de partir o coração que os familiares daqueles que estão desaparecidos há tanto tempo só agora estejam a ver confirmados os seus piores receios", afirmou.

O responsável da ONU recupera preocupações já expressas num relatório das Nações Unidas de 2024, segundo o qual ataques israelitas contra edifícios residenciais e outros locais civis nas primeiras semanas da guerra poderiam ter violado o direito internacional humanitário.

Segundo a Defesa Civil palestiniana, mais de 630 corpos e restos humanos foram recuperados debaixo de edifícios destruídos em Gaza desde novembro de 2025.

As autoridades palestinianas estimam que mais de 8.000 pessoas continuem soterradas nos escombros.

Volker Türk considera que os restos encontrados até agora poderão representar apenas "a ponta do iceberg", tendo em conta a dimensão da destruição provocada pela guerra.

A ONU estima que a ofensiva israelita tenha produzido cerca de 61 milhões de toneladas de destroços e escombros, cuja remoção poderá demorar sete anos.

O responsável das Nações Unidas acusa ainda Israel de continuar a destruir algumas zonas de Gaza onde mantém forças militares, alegando que bulldozers estarão a operar "sem respeito pelos mortos sob os escombros".

Ajith Sunghay, responsável pelo escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos no Território Palestiniano Ocupado afirma que as restrições à entrada de determinados equipamentos, incluindo kits de ADN e escavadoras, estão a dificultar a recuperação e identificação dos corpos.

"Às vezes, as equipas palestinianas têm de escavar os escombros com as próprias mãos", afirmou o responsável numa conferência de imprensa em Genebra, citado pela Reuters.

Sunghay considera que o conjunto das medidas está a tornar "quase impossível" realizar operações sistemáticas e em larga escala de procura, recuperação e identificação dos restos mortais.

As autoridades israelitas não responderam de imediato às acusações da ONU sobre as restrições à entrada destes materiais.

O embaixador de Israel junto das Nações Unidas em Nova Iorque, Danny Danon, acusou Volker Türk de ignorar os abusos cometidos pelo Hamas e de responsabilizar Israel antes de os factos estarem estabelecidos.

"Hamas estava integrado entre a população civil, operava a partir de áreas civis e construiu a sua infraestrutura terrorista por baixo dessas zonas. No entanto, na narrativa do senhor Türk, o Hamas desaparece e só Israel é acusado", afirmou Danon, também citado pela agência de notícias britânica.

Israel tem rejeitado repetidamente as acusações de que ataque deliberadamente civis e sustenta que atua de acordo com o direito internacional na guerra contra o Hamas.

Segundo dados citados pela Reuters, os ataques liderados pelo Hamas contra Israel, em outubro de 2023, provocaram cerca de 1.200 mortos e 251 pessoas foram feitas reféns. As autoridades de saúde de Gaza indicam, por sua vez, que mais de 73 mil palestinianos morreram na campanha militar israelita.

Israel afirma ter adotado medidas para evitar vítimas civis e acusa o Hamas de utilizar a população como escudo humano. O grupo palestiniano rejeita essa acusação.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos defende que investigadores internacionais tenham acesso a todas as zonas de Gaza, de forma a preservar provas e contribuir para as investigações sobre possíveis violações cometidas durante o conflito.

A especialista da ONU para os territórios palestinianos, Francesca Albanese, também tem defendido que as provas devem ser recolhidas e os restos mortais identificados antes de avançar com operações de limpeza em grande escala.

A guerra começou após o ataque do Hamas contra Israel, em outubro de 2023. Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos pôs fim aos combates em larga escala em outubro de 2025, mas, segundo a Reuters, continuam a ser registados ataques israelitas, enquanto Israel e Hamas se acusam mutuamente de violar a trégua.

  • Fonte: Rádio Renascença
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