Tolentino Mendonça: O livro é uma “barreira natural” contra os riscos da IA

Tolentino Mendonça: O livro é uma “barreira natural” contra os riscos da IA

  • 16/09/2026 09:30
  • Redação

O cardeal José Tolentino Mendonça alerta para os riscos da Inteligência Artificial (IA). Na conferência BOOK 2.0 promovida pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação no Vaticano considerou a IA a “inquietação mais atual”.

Aplaudido de pé, mas afónico, o cardeal participou na conferência com um texto que foi lido pela apresentadora do evento, Sílvia Alberto, onde disse que “a inteligência artificial pode produzir imagens, diálogos e até narrativas inteiras com uma velocidade que nenhum ser humano alguma vez conseguirá igualar”, mas nada se compara “à narrativa ou ao poema”.

“A simulação, ainda que se confunda, não é testemunho”, afirmou. “O risco não é que as máquinas aprendam a contar histórias. O risco é que, sob pressão da eficiência e da homogeneização algorítmica, nos esqueçamos de que uma história tem valor, porque alguém a viveu, sofreu, a olhou nos olhos antes de a narrar”, explicou.

Recordando a encíclica do Papa Leão XIV “Magnífica humanitas”, Tolentino Mendonça lembrou que não estamos perante uma “escolha entre o progresso e o atraso, mas sim entre uma técnica que substitui a responsabilidade humana e uma técnica que a serve”.

Na sua opinião, “a cultura do livro é uma autêntica barreira natural contra o risco, porque cada livro recorda que uma história autêntica nasce sempre de um olhar humano”.

O também poeta e ensaísta sublinhou ainda que “nenhuma geração automática poderá substituir o olhar, o paciente exercício de cocriação e telescópio humano que se chama literatura”.

Tolentino Mendonça que começou por recordar “a figura de um grande editor português, Manuel Hermínio Monteiro” que dizia que ser editor “era como um vinhateiro, afirmou que “editar é como cuidar de uma vinha”.

Num texto em que destacou os exercícios da escuta, imaginação e do cuidado, o cardeal madeirense referiu que “o nosso tempo é atravessado por transições e locais ambientais, tecnológicas, demográficas e marcado por acelerações vertiginosas, mas também por perdas de rumo profundas”.

Na sua opinião “a cultura deve constituir um espaço em que a mudança não é simplesmente sofrida, mas interpretada, acompanhada e humanizada”.

Segundo Tolentino Mendonça “a cultura deve gerar novos processos, abrir caminhos e construir pontes” e a “escuta é o primeiro destes caminhos generativos”.

“Na sociedade da comunicação há um défice de escuta imersos numa avalanche de palavras. Só uma revalorização do papel de silêncio pode abrir espaços para uma verdadeira escuta” explicou indicando que a “arte de escutar requer uma pedagogia e uma aprendizagem. Pede uma desaceleração interior para podermos dedicar às vozes atenção”, detalhou.

Já sobre a imaginação, Tolentino Mendonça diagnosticou: “Uma sociedade que não imagina, é como um céu sem constelações. Vê as luzes, mas não sabe dar-lhes significado”.

Segundo o cardeal “o empobrecimento da imaginação” que hoje se vive, “significa também um empobrecimento geral da vida”.

“Vivemos numa época marcada por muitos medos, o medo do outro, a incerteza do amanhã e estes medos não se dissolvem com slogans, nem com um otimismo epidérmico. A cultura não elimina o medo. Transfigura-o, dá-lhe uma linguagem, insere-o numa história, reconecta-o à nossa humanidade”, referiu.

A cultura é também uma forma de cuidar apontou no seu texto o cardeal. Isso, opinou, “pode surpreender quem considera a cultura um luxo ou um simples entretenimento”.

Mas Tolentino Mendonça propõe por isso um exercício de observação sobre o que se passa nas “bibliotecas e livrarias” ou “nos museus e centros educativos”. “Apercebermos de que a cultura oferece um bálsamo eficaz às feridas da comunidade”, afirmou.

“A cultura cuida, abrindo espaços de encontro, criando possibilidades de resgate, devolvendo dignidade às pessoas. Uma comunidade que investe em cultura investe na saúde do próprio tecido social”, rematou.

O presidente da República começou a sua intervenção dirigindo-se ao Cardeal Tolentino Mendonça desafiando-a a escrever. Disse mesmo que a escrita do poeta era uma boa “farmácia da alma”. “Um dos princípios ativos da sua escrita é a esperança e o mundo precisa disso” disse António José Seguro.

No seu discurso, o chefe de Estado falou dos riscos de um país que não lê. Um dia antes da abertura da Festa do Livro em Belém, na conferência BOOK 2.0, Seguro afirmou: “Acredito que uma nação a ler bons livros, é mais resistente às ventanias do populismo, da desigualdade, da ignorância, da injustiça e do esquecimento”

Mas este não é o único desafio para os próximos anos, indicou o Presidente. “Acredito que uma nação que lê promove a inteligência humana e não fica, passivamente, à espera dos benefícios e facilidades da inteligência artificial”, alertou António José Seguro.

Num discurso em que defendeu o valor da língua portuguesa, o presidente da República falou ainda dos resultados recentes do PISA. O estudo faz o diagnóstico de vários problemas diz Seguro, “nomeadamente a diminuição da taxa de literacia”.

O Presidente considera necessário um novo impulso nas política de educação para a leitura. Seguro identifica um “abandono da leitura como fonte de prazer ou como atividade cultural dominante”.

“Com o abandono da leitura, em geral, vêm o declínio das competências cognitivas, o declínio da literacia em ciência ou em matemática”, indicou.

Para o Presidente “Portugal enfrenta esse declínio”. “Nesta matéria não podemos conformar-nos, nem desistir dos combates pela leitura e, mais do que isso, pela qualidade da leitura, o que são coisas diferentes”, explicou.

“Os dados ontem divulgados sobre o número de livros vendidos em 2025 – perto de 15 Milhões – vão na trajetória certa. Mas há margem para melhorar. Temos de melhorar, também na qualidade da leitura”, afirmou perante uma plateia de editores e livreiros.

  • Fonte: Rádio Renascença
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