Investigadores descobrem molécula que pode proteger o cérebro após traumatismo craniano
- 17/09/2026 06:09
- Redação
Uma equipa de investigadores liderada pela Universidade de Coimbra (UC) está a testar uma nova abordagem terapêutica para o traumatismo cranioencefálico, baseada numa molécula naturalmente presente no organismo humano, o neuropeptídeo Y.
O traumatismo cranioencefálico é uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo e pode resultar de situações como acidentes de viação ou quedas.
A investigação permitiu perceber que, após um traumatismo, os dois lados do cérebro podem reagir de forma diferente. Ao analisar o hipocampo, região cerebral associada à memória e às emoções, os investigadores identificaram diferenças significativas nos níveis de inflamação e de resposta celular entre os hemisférios esquerdo e direito.
Os resultados fazem parte do projeto "therapY: o sistema do neuropeptídeo Y como um novo alvo terapêutico contra o traumatismo cranioencefálico".
"Uma lesão cerebral inicialmente unilateral desencadeia respostas distintas nos dois hemisférios do cérebro", explica o investigador responsável pelo projeto, Ricardo Leitão, citado em comunicado. O investigador sublinha que os resultados reforçam "a complexidade dos mecanismos secundários associados ao traumatismo cranioencefálico".
A partir desta descoberta, os investigadores estão a estudar o potencial do neuropeptídeo Y para limitar os danos provocados pelo traumatismo.
Num primeiro estudo, a molécula foi administrada por via intranasal, numa fase precoce após o traumatismo, recorrendo a um modelo animal.
Posteriormente, foram avaliadas alterações moleculares, celulares e comportamentais. Os investigadores observaram uma redução das alterações associadas à inflamação cerebral e à disfunção da barreira hematoencefálica.
A administração precoce do neuropeptídeo Y também esteve associada a uma melhoria de parâmetros comportamentais relacionados com memória e ansiedade.
O estudo constitui, segundo Ricardo Leitão, uma "primeira evidência pré-clínica do potencial desta abordagem".
O investigador considera que os resultados "demonstram que a administração precoce de neuropeptídeo Y após um traumatismo cranioencefálico atenua alterações da barreira hematoencefálica, reduz respostas neuroinflamatórias e melhora parâmetros comportamentais associados à memória e à ansiedade".
Apesar dos resultados iniciais, a investigação encontra-se ainda numa fase pré-clínica, pelo que serão necessários novos estudos antes de qualquer eventual aplicação em doentes.
O projeto pretende compreender melhor os mecanismos responsáveis pelos efeitos protetores do neuropeptídeo Y e encontrar formas de potenciar a sua utilização terapêutica.
"Estes primeiros resultados sustentam o racional científico do projeto therapY e reforçam a relevância de continuar a investigar", afirma Ricardo Leitão.
A equipa pretende também desenvolver novas formas de fazer chegar potenciais tratamentos ao cérebro, além de identificar biomarcadores e alterações biológicas em pessoas com traumatismo cranioencefálico.
O projeto reúne investigadores de áreas como neurociências, investigação clínica, engenharia química e biomedicina molecular, envolvendo o Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra, a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, o Departamento de Engenharia Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC, o Centro de Engenharia Química e Recursos Renováveis para a Sustentabilidade e a Unidade Local de Saúde de Coimbra.
A investigação é financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e por fundos europeus FEDER, através do COMPETE 2030.