Na Linha SOS Voz Amiga há mais solidão entre os jovens: "Antes da pandemia eram 3% das chamadas, agora chega aos 20%"

  • 17/09/2026 09:07
  • Redação

Subiram em flecha nos últimos seis anos e não há indício de que abrande brevemente: desde o início da pandemia, há dez vezes mais jovens a reportar solidão e a ligar para a linha SOS Voz Amiga, que concede apoio psicológico via telefone.

“Atendemos uma média de 1.000 chamadas por mês. Antes da pandemia, a percentagem de chamadas de jovens com menos de 20 anos andaria por 2% a 3%. E, neste momento, já chega aos 20%”.

A situação é especialmente preocupante, porque tudo parece indicar que é “apenas a ponta do icebergue”: cada vez mais jovens rejeitam chamadas telefónicas convencionais e preferem “chats e WhatsApp”, plataformas que não entram na capacidade de resposta da linha, devido às limitações tecnológicas dos voluntários, muitos deles mais velhos.

Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre questões de saúde mental, contacte um médico especialista, ou um dos vários serviços e linhas de apoio gratuitas, como o SNS 24 (808 24 24 24), o SOS Voz Amiga (800 209 899/213 544 545), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o SOS Adolescente (800 202 484).

Em abril deste ano, o Governo prometia colocar, em cada escola, pelo menos um psicólogo de quadro. As dificuldades, segundo a Ordem dos Psicólogos, têm sido várias e os profissionais continuam a faltar.

Mas, para o presidente do SOS Voz Amiga, a falta de técnicos explica apenas parte do problema. Ainda há “estigma” entre os alunos que, muitas vezes, não se sentem “à vontade” para ir até ao gabinete do psicólogo e correr o risco de serem vistos pelos pares. E, por isso, Francisco Paulino sugere a replicação de uma estratégia que já existe noutras áreas da sociedade.

“Nas nossas forças de autoridade, polícias e GNR, foi necessário deslocar o psicólogo para uma área exterior para que a maior parte dos polícias decidisse pedir ajuda do psicólogo. Não queriam ser vistos entrar para o gabinete do psicólogo. E o mesmo se passa com os nossos olhos nas escolas. Talvez fosse uma ideia a adotar: tirar o psicólogo da escola e colocá-lo num sítio onde não fosse tão visível a procura de assistência”.

É um paradoxo difícil de compreender sem a ajuda da ciência: mas como podem os jovens sentirem-se mais sozinhos, quando conseguem comunicar à distância de um clique nas redes sociais, de uma chamada ou um telefonema?

“É uma ilusão da grande conectividade”, resume o psicólogo e académico Miguel Trigo. “É uma solidão indesejada, ou uma visibilidade invisível. Uma ligação que não tem a ressonância emocional das relações humanas. As pessoas estão à distância de um ecrã, mas muitas vezes são relações muito superficiais, que não são relações de convívio”.

A pressão dos likes nas redes sociais, a ansiedade nas respostas nas aplicações de conversa como WhatsApp e até o “FOMO” (em inglês, “fear of missing out”, e que diz respeito ao medo de perder experiências ou acontecimentos) acabam a acentuar a solidão – e a marcar uma diferença abismal com as gerações mais velhas que só tem tendência a agravar-se.

“As gerações mais velhas tiveram que lidar com o tempo de espera, com conflitos interpessoais mais frequentes, face a face. Em vez de jogarem videojogos, estavam muitas vezes no bairro a jogar à bola, saltar à corda, subir árvores, ou conversar com amigos. [No futuro], imagino que sim, que seja uma tendência semelhante”, prevê Miguel Trigo.

Um estudo da universidade de Stanford, na Califórnia, aponta que – nos Estados Unidos – praticamente um em cada quatro utilizadores de Inteligência Artificial (IA) aproveita esta ferramenta para fins emocionais ou de saúde mental. Destes, 10% admitem fazê-lo diariamente, utilizando o ChatGPT e outros modelos como substituto dos psicólogos.

“Há um efeito adverso”, avisa Miguel Trigo. “Um algoritmo não consegue acompanhar. Há esse risco, como se houvesse umas alucinações também nas intervenções. Ou erros de intervenção, uma avaliação insuficiente da complexidade do caso. Além de que, muitas vezes, os terapeutas também precisam de discutir, de trocar opiniões, de fazer supervisão”.

Segundo a Ordem dos Psicólogos, um em cada dez portugueses sofre com solidão. E os piores casos, diz Francisco Paulino, normalmente surgem entre quem não tem dinheiro para pagar contas ao final do mês.

“Quem tem menos recursos enfrenta a solidão estrutural: tem menos tempo, menos espaço, menos oportunidades de convivência. Nos estudantes universitários longe de casa, quem tem dificuldades financeiras não tem capacidade de socialização, porque isso exige gastos. Cada vez que há uma crise económica no país, as chamadas aumentam”, conta.

Nas situações mais extremas, o parco acompanhamento psicológico profissionalizado pode acentuar as consequências para a saúde, mental e física: depressão, ansiedade, stress pós-traumático, também dificuldades de socialização, tendência para adições (drogas, álcool e videojogos) e até um maior risco de mortalidade em doenças cardiovasculares.

Os riscos são vários e isso faz Miguel Trigo renovar um pedido: aumentar o número de profissionais de saúde mental nos hospitais.

“O cheque-psicólogo é uma ajuda importante, mas acho que serve para abrir o debate também sobre o reforço de outros pontos de intervenção. No hospital mental onde trabalho, não me lembro de ter sido aberto concurso para novos psicólogos, para alocar aos quadros. E, mesmo nos centros de saúde e nos hospitais gerais, a ideia que tenho é que esse reforço não foi suficientemente feito ainda”, aponta.

  • Fonte: Rádio Renascença
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