Um agrupamento de escolas, 27 nacionalidades. "De nada vale integrar alunos se não integrarmos as famílias”

Um agrupamento de escolas, 27 nacionalidades. "De nada vale integrar alunos se não integrarmos as famílias”

  • 18/09/2026 00:30
  • Redação

A timidez nos olhos de Igor Chauque, 12 anos, é de quem acaba de chegar de Maputo, Moçambique, a uma escola, um país e um mundo completamente novos.

“Lá, na minha escola, sentam três pessoas juntas na mesma carteira. Outros sentam no chão quando chegam atrasados. A escola era perto da lixeira, sempre quando caminhões vinham deitar lixos, começava a cheirar”, conta-nos o menino moçambicano que chegou em julho à Povoa de Varzim com a mãe e a irmã.

Confessa-nos que não queria vir às aulas. Sentia-se retraído porque ainda lhe falta material escolar. “Preciso de caderno, lápis, borracha, mais uma aguarela”, enumera Igor que não esconde a ansiedade quando, entretanto, alguém se disponibiliza para ir com ele comprar a lista de material.

Tudo se passa no gabinete de ação social da Escola Básica de primeiro e segundo ciclos de A-Ver-O-Mar, na Póvoa de Varzim, a porta de entrada da escola dos alunos estrangeiros.

Pelo mesmo gabinete passou Saim Abid quando, há um ano, chegou do Paquistão. Hoje, é aluno do 9.º ano e garante ter muitos amigos que o ajudam e até já namorou. De momento, “está livre”.

O jovem, que comunica em inglês, reconhece que a língua é uma dificuldade, mas há outras diferenças como as culturais e religiosas.

“Sou o único muçulmano na minha turma. São todos cristãos. Isso para mim é uma grande diferença”, admite Saim, que ainda estranha não poder rezar na escola. “Faço depois das aulas”, esclarece.

Gosta de físico-química, mas dispensa a comida portuguesa: lamenta a falta de especiarias na gastronomia nacional. Salva-se a bola de berlim. “É doce. Toda a gente gosta de bola de Berlim”, graceja.

Mas nem só os alunos chegam à escola. Também os pais procuram aqui o apoio na integração. É o caso de Nadeem Abbas. Está em Portugal com a família desde 2020. Valeu-lhe o apoio da assistente social da EB 1,2 de A-Ver-O-Mar onde estudam as duas filhas.

“Ela ajudou-me a procurar casa numa altura difícil: estava sozinho e não percebia o português. Ajudou-se a integrar as minhas filhas na escola. Hoje- em-dia, se tenho algum problema – seja qual for – contato-a e ela ajuda-me”.

Apesar das dificuldades iniciais, hoje diz-se feliz por poder garantir um futuro melhor às filhas. “O futuro delas é melhor aqui. Já estão habituadas ao país, falam português."

Histórias de vida como as de Nadeem, Saim e de Igor são todas conhecidas por Andreia Teixeira, a assistente social — a única — do agrupamento de escolas.

“Ainda hoje de manhã atendi uma senhora que só tinha um euro no bolso. Paga 750 de renda e ganha 700 euros. Como o filho ficou desempregado, não tem dinheiro para pagar ao senhorio. Portanto, isto, como estão numa situação ainda de irregularidade, em processo de legalização, leva a que não tenham direito a apoios sociais”, conta Andreia para explicar: "De nada vale integrar alunos se não integrarmos as famílias."

No entanto, a responsável acredita que este é um caminho ainda longe de estar feito. “Há muito a fazer. Eu vou dar um exemplo, há escolas que não têm serviço social, só têm psicólogos”, exemplifica.

O trabalho de integração é feito em parceria com Carla Rocha, a mediadora cultural no agrupamento pelo segundo ano e professora de português de língua não materna.

“Os alunos queixam-se: “oh professora, no outro dia fui à mercearia, fui ao supermercado, a senhora achou que eu era estranho'”, conta.

“Cabe-nos a nós tentars desconstruir isso, não é? Porque aqui o que nos interessa não é só essa evolução linguística, mas interessa-nos muito que eles sejam pessoas”, defende a professora.

Andreia Teixeira e Carla Rocha são as duas profissionais que dão a primeira resposta aos mais de 300 alunos estrangeiros nas sete escolas do agrupamento de A-Ver-O-Mar, mas não chegam. A falta de recursos é admitida pelas próprias técnicas e pela diretora, a professora Helena Costa. “Claro que queremos sempre mais."

“Entretanto, o facto de termos, desde o ano passado, 18 horas de mediação, facilita, mas não chega, até porque este é um processo que decorre ao longo do ano”, justifica a docente, lembrando que há alunos estrangeiros que chegam a meio do ano letivo a precisar de acompanhamento, o que “cria instabilidade”.

Há 15 anos que a EB 1,2 de A-Ver-O-Mar recebe alunos estrangeiros, mas o que eram situações pontuais tornou-se recorrente desde 2020. Este ano há um desafio extra: a chegada de dois alunos oriundos da China. “Sim, acabados de chegar e que não dominam nada, nem a língua portuguesa, nem o inglês."

“É mais um desafio”, reconhece a diretora, admitindo que tudo se resolverá.

Entretanto é hora de recreio na escola e Igor Chauque já tem caderno e lápis. “Vou para as aulas. Vou ter português”, explica. Quando lhe perguntamos se gosta de estudar, admite com um sorriso que “sim”. E é bom aluno? "Isso já não sei..." Com o material escolar, o mundo deste menino de 12 anos tornou-se por hoje um pouco mais leve.

  • Fonte: Rádio Renascença
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