Na Serra da Estrela há cursos para aprender a ser Pai Natal
- 18/09/2026 05:36
- Redação
“Ho, ho, ho”. A interjeição pode ajudar, mas está longe de fazer um Pai Natal. É preciso saber entrar numa sala, receber uma criança, medir um gesto, construir uma voz, vestir o fato pela ordem certa e perceber que umas barbas mal colocadas podem destruir, em poucos segundos, uma personagem que vive precisamente da ilusão. Na Serra da Estrela, Gouveia decidiu levar essa ideia a sério, com o Grupo de Teatro Escola Velha a preparar duas masterclasses destinadas a quem queira descobrir o que há para lá do fato vermelho, da barriga redonda e do saco de presentes.
Carlos Bernardo, presidente da direção e responsável pela direção artística da estrutura, trabalha há mais de 30 anos na formação teatral e admite que, até há pouco tempo, também ele olhava para a função com alguma ligeireza. “Eu julgava que se calhar não era preciso aprender. Bastava vestir um fato e ir para a rua”, reconhece. Já desempenhou muitas vezes esse papel, em escolas, jardins de infância e até lares. O contacto com António Rodrigues haveria, porém, de lhe mostrar que a simplicidade era apenas aparente.
A ideia nasceu sem plano, programa ou reunião de produção, mas começou com um espectador. Há alguns meses, um casal assistiu a uma atividade da Escola Velha. Um homem chamou imediatamente a atenção de Carlos Bernardo: cabelo branco, umas barbas enormes brancas e uma presença difícil de ignorar. No final, aproximou-se para conversar. “Era António Rodrigues, brasileiro, ligado ao teatro, contou que fazia temporadas como Pai Natal no Rio de Janeiro e que recebera formação específica há mais de 25 anos na Escola de Papai Noel do Brasil”, recorda o diretor artístico. Da conversa surgiu uma pergunta: faria sentido organizar em Gouveia algumas horas de preparação para quem trabalha em animação, educação ou eventos? Carlos Bernardo ficou surpreendido. “Será que isso vai resultar? Não sei, mas vamos arriscar”, recorda. O grupo de teatro Escola Velha, acrescenta, “gosta de fazer coisas novas”.
Inicialmente, a intenção era realizar a iniciativa em novembro, já com o Natal no horizonte, mas o calendário do formador alterou os planos. António Rodrigues regressa ao Brasil em outubro para preparar a temporada natalícia e a formação portuguesa foi antecipada para setembro. “Foi assim que começou. Por uma simples conversa”, resume Carlos Bernardo.
A referência brasileira parece, à primeira vista, saída de uma história de Natal. Mas existe mesmo uma escola dedicada ao Pai Natal. António Rodrigues passou pela Escola de Papai Noel do Brasil e transporta agora para Gouveia uma experiência acumulada ao longo de mais de duas décadas. Segundo o responsável do Escola Velha, “a instituição brasileira começou ligada ao teatro e à animação e acabou por se especializar na preparação de profissionais que assumem esta figura durante a quadra festiva”. No Brasil, explica, “o trabalho começa muito antes de dezembro, sobretudo em centros comerciais e grandes espaços de animação. Há técnica, preparação e uma lógica profissional por detrás de uma personagem que, vista de fora, pode parecer apenas dependente de roupa vermelha e boa disposição”.
Em Gouveia, o curso terá um total de cinco horas, distribuídas pelos dias 12 e 19 de setembro, no auditório da Escola Velha.
Carlos Bernardo fala de “brio”. A palavra regressa várias vezes quando descreve aquilo que espera transmitir a quem participar. Para o responsável, um Pai Natal sem barriga, ainda que postiça, dificilmente cumpre o imaginário. “O mesmo acontece quando faltam as barbas ou quando estão mal colocadas. Não se trata apenas de estética. Em causa está uma figura construída durante gerações e reconhecida de imediato, sobretudo pelas crianças”, acrescenta.
É precisamente aí que a masterclass pretende entrar. A formação abordará postura, comunicação, expressão corporal, improvisação, preparação da personagem e interação com públicos diferentes. António Rodrigues leva consigo até um ritual próprio. Carlos Bernardo conta que o formador lhe entregou “largas folhas escritas à mão” com informação recolhida ao longo dos anos. Nessas páginas há uma ordem para vestir o fato, preparar as barbas e entrar gradualmente na personagem. “Há um ritual muito interessante”, descreve.
A preocupação vai, contudo, bastante além da imagem. “O público de um Pai Natal é frequentemente infantil e essa circunstância altera tudo”, assume Carlos Bernardo, lembrando “que uma criança pode aproximar-se entusiasmada, mas também ficar assustada, recusar contacto ou começar a chorar. Quem representa a personagem precisa de saber ler essas reações e adaptar o comportamento. Não podemos agir com crianças de qualquer maneira, nem tocar-lhes de qualquer maneira”, insiste.
A formação pretende por isso trabalhar limites, sensibilidade, comunicação e capacidade de resposta perante situações inesperadas. “Temos de ser profissionais para que a magia e toda esta mística estejam a passar para aquelas crianças”, sustenta.
A reação mais comum à iniciativa tem sido, por enquanto, uma mistura de curiosidade e espanto. Carlos Bernardo já ouviu a pergunta várias vezes: “Mas agora também é preciso aprender a ser Pai Natal?” Ele próprio a teria feito há alguns anos, porém hoje responde de outra forma. A experiência com António Rodrigues convenceu-o de que "há muito mais para aprender do que imaginava", além de que “na região existem animadores, profissionais de instituições sociais, docentes, técnicos e pessoas que todos os anos participam em festas, escolas, lares ou iniciativas comunitárias durante o período natalício”. A masterclass estará, ainda assim, aberta ao público em geral.
Segundo Carlos Bernardo, “já há pelo menos três pessoas interessadas”, admitindo que não estão habituadas a este tipo de formação”.
Da novidade à realidade, garantido é que os cursos de Pai Natal vão mesmo acontecer nos dias 12 e 19 de setembro.