"Novas leis não resolvem desigualdade salarial. É preciso mudar comportamentos"
- 18/09/2026 05:07
- Redação
Henrique Raposo discorda da ideia de que a principal explicação esteja numa discriminação direta das mulheres enquanto mulheres.
"Eu acho que as mulheres não são punidas no trabalho por serem mulheres. São punidas por serem mães", afirma.
O cronista recorre ao conceito de "motherhood gap", usado na literatura económica para descrever o impacto da maternidade na carreira e nos rendimentos das mulheres.
"Tu vês a folha salarial e a progressão de carreira das miúdas e dos miúdos, é sempre igual, até um momento-chave na vida dos dois, que é o primeiro filho. Quando nasce o primeiro filho, a carreira dele continua igual. A carreira dela cai a pique", explica.
Para Henrique Raposo, o problema não se resolve apenas através de alterações legislativas.
"Não é uma mudança de lei, é uma mudança de comportamento privado, sobretudo dos homens", considera.
O comentador defende que os homens devem ser educados desde cedo para assumirem também responsabilidades de cuidado e tarefas domésticas.
"Os rapazes têm que ser educados também para serem cuidadores domésticos. Ainda é um assunto tabu entre homens", afirma.
Henrique Raposo considera que existe atualmente um desencontro entre as expectativas profissionais e familiares de homens e mulheres, com consequências na decisão de ter filhos.
"Há um desencontro entre homem e mulher, porque o homem não quer assumir o papel em casa e a mulher, com razão, não quer voltar para casa, porque também tem os seus sonhos profissionais. Não há casamento, não há filhos, não há natalidade", sustenta.
"Muitas vezes as mulheres também não querem abdicar desse poder que têm em casa", afirma.
Raposo dá como exemplo as mulheres que optam por regressar rapidamente ao trabalho depois de serem mães.
"Essa escolha é absolutamente legítima e não deve ser julgada", defende, considerando que uma mulher que opta por alimentar o bebé com fórmula para poder regressar mais cedo ao trabalho "não gosta menos do filho".
"Está a ser coerente. Ela quer voltar rapidamente ao trabalho porque tem os seus sonhos profissionais", acrescenta.
Para o comentador, a igualdade salarial está, por isso, ligada a uma questão mais ampla de igualdade na vida familiar e na distribuição do trabalho de cuidado.
"Há muito julgamento moral e moralista neste tema. Que não se resolve com leis", conclui.