"O Estado laico deve assumir as suas responsabilidades", defendem vítimas de abusos junto de Seguro
- 18/09/2026 09:02
- Redação
As vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja Católica querem que o Estado reabra e fiscalize os processos de compensação financeira conduzidos pela Igreja. Pedem também ao Presidente da República que exerça a sua "magistratura de influência" para acabar com a prescrição dos crimes de abuso sexual de menores.
Os pedidos foram apresentados esta manhã por António Grosso, porta-voz da Associação Coração Silenciado, num encontro com o Presidente da República, António José Seguro, no Palácio de Belém.
Para a associação que representa vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal, o Estado, enquanto entidade laica, deve assumir responsabilidades na proteção das crianças e jovens.
"Cabe ao Estado a proteção de crianças e jovens, e não o fez, cabalmente, no tempo em que nós éramos crianças e jovens e todos os milhares de crianças e jovens que foram abusadas", afirmou António Grosso.
A Associação Coração Silenciado defende que os processos utilizados pela Igreja para determinar as compensações às vítimas devem ser objeto de escrutínio por parte do Estado.
"Por isso, os cidadãos deste Estado laico molestados neste processo têm de ser compensados por uma investigação do Estado laico, que tem de intervir", sustentou António Grosso.
O porta-voz da associação considera que as vítimas devem ter acesso à informação que consta dos processos analisados pela Igreja.
"O Estado tem de dizer à Igreja Católica para que abra o processo. Queremos ver o que escreveram sobre cada uma das vítimas, porque pode lá haver inverdades, até mentiras, imprecisões ou exageros - e nós temos o direito de conhecer", afirmou.
No encontro com o Presidente da República, a associação pediu ainda a António José Seguro que exerça a sua "magistratura de influência" junto do poder legislativo para que seja alterado o regime de prescrição dos crimes de abuso sexual de menores.
"Há países onde o abuso sexual sobre menores jamais prescreve. E em Portugal prescreve", afirmou António Grosso.
O porta-voz da associação argumenta que o trauma provocado pelo abuso sexual pode permanecer durante toda a vida e que muitas vítimas demoram décadas até revelar o que lhes aconteceu.
"O trauma não prescreve, é para a vida. É socialmente comprovado que essas vítimas demoram habitualmente três ou quatro décadas para revelar o seu segredo de abuso sexual", acrescentou.